Antirracista: 5 aprendizados para levar no seu cotidiano

O livro Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro traz de forma didática e acessível reflexões para repensar o racismo e mudar o nosso comportamento

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

De que forma eu, como uma mulher branca, posso ser antirracista no dia a dia? Esse é um questionamentos que me faço com frequência. Na busca por leituras que me ajudassem a refletir e agir, decidi ler o livro Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro. Vi muitas pessoas lendo e recomendando. 

Com menos de 150 páginas, o livro de bolso traz reflexões práticas para começar a pensar o racismo presente no cotidiano e como gerar uma mudança. Uma escrita fluida e cativante, a autora mescla exemplos reais e provocações com conceitos criados por especialistas. É uma leitura para todo o ano, para ler mais de uma vez e revisitar sempre que necessário, mas neste mês da Consciência Negra selecionei cinco pontos trazidos pela autora que mais me chamaram atenção para que possamos refletir juntos e pensar nas possibilidades de combater a desigualdade racial. Vamos lá?

1. O racismo existe e é preciso se informar para combatê-lo
A responsabilidade de buscar respostas e saber mais sobre o assunto é das pessoas brancas. É importante ter em mente que pessoas negras não devem ser responsáveis por ensinar ou dar as respostas sobre o debate racial ou a luta antirracista. É preciso ter uma busca ativa por essas informações, dar espaço e ouvir o que a população negra tem a dizer, saber o que está sendo discutido e pesquisado sobre o assunto. No livro, a filósofa coloca que o sistema racista está em constante atualização, por isso esse deve ser um processo contínuo. 

Por isso, o primeiro passo é reconhecer a existência do racismo e não torná-lo um tabu, não acreditar na ideia da democracia racial - que defende que a miscigenação foi um processo harmonioso e que invisibiliza a violência sofrida por pessoas negras. 

2. Repense atitudes e formas de falar que trazem um preconceito enraizado
Depois de se informar e reconhecer a existência do racismo, é preciso questionar e analisar sua vivência, colocar em cheque aquilo que é visto como natural. O racismo no Brasil é estrutural, isto é, ele está tão enraizado na nossa cultura e no nosso sistema que é normalizado e pode passar despercebido. No Pequeno manual antirracista, a autora coloca que é preciso tirar o racismo da invisibilidade. “Frases como “eu não vejo cor” não ajudam. O problema não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não há nada errado nisso - se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude”. 

Por isso, um primeiro exercício pode ser pensar na sua linguagem e se algum termo que você utiliza é racista e nunca foi tinha percebido. Por exemplo, expressões como “ela é negra, mas é bonita” ou “negro de alma branca”, e palavras como denegrir, mercado negro ou criado-mudo carregam um teor preconceituoso. Djamila coloca que ser antirracista “é estar sempre atento às nossas atitudes e disposto a enxergar privilégios”. Então, é estar atento a reconhecer e rever esses comportamentos enraizados. Aos brancos, a autora convida para refletir a branquitude e os privilégios que a acompanham, ela dedica um dos capítulos do livro a esse assunto. 

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Já na Educação Infantil é importante dialogar com a valorização da diversidade e pensar as relações étnico-raciais. Conheça projeto que olhou para a autoestima das crianças negras a partir da valorização do cabelo crespo.

3. Colabore para transformar a Educação 
Na Educação já temos um marco legal desde 2003 que torna obrigatório o estudo da história e cultura africana e afrobrasileira na escola - se quiser saber mais sobre a lei 10.639, confira aqui. A autora coloca para as famílias garantirem que a escola dos seus filhos aplique a lei e justifica a importância desse trabalho. “Um ensino que valoriza as várias existências e que referencie positivamente a população é benéfico para toda a sociedade, pois conhecer histórias africanas promove outra construção da subjetividade de pessoas negras, além de romper com a visão hierarquizada que as pessoas negras têm da cultura negra”. 

Por isso, professores, é importante refletir sobre a própria prática pedagógica e analisar de forma você tem contemplado a valorização da diversidade e a discussão das relações étnico-raciais. Para saber mais sobre uma Educação antirracista, confira aqui uma reportagem que traz exemplos práticos de como levar a discussão para a sala de aula

4. Leia e valorize autores negros
Quais foram os últimos autores dos livros que leu? Você pensa na diversidade ao escolher sua próxima leitura? No livro, Djamila Ribeiro nos apresenta o conceito de epistemicídio, que é o “apagamento sistemático de produções e saberes produzidos por grupos oprimidos”, conceito traduzido pelo sociólogo Boaventura Sousa Santos. Esse fenômeno pode ser visto em diversos momentos. Não se trata de ler esses autores apenas por serem negros, mas não podemos acreditar que não existem bons autores negros para todos os assuntos- afinal, também não se trata de procurar eles apenas para ler histórias sobre racismo ou violência, mas em todas as áreas de interesses. 

A diversidade de autoria não é importante “apenas” para valorizar a produção desses escritores, mas também para trazer experiências a partir de outro ponto de vista. A autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alerta para o perigo de uma história única, ou seja, que toda as narrativas sejam contadas a partir do ponto de vista de homens brancos - se quiser saber mais, ela fala sobre isso nesta palestra do TED Talks, além de trazer a discussão em seu livro O perigo de uma história única

Por isso, procure conhecer autores negros e levar eles para suas leitura, e seus alunos. No Leitura de Cabeceira, já falamos sobre a Octavia Butler, conhecida por ter sido uma das primeiras autoras a introduzir personagens negros na ficção científica; indicamos 4 jovens escritores negros para você conhecer; e a importância da Carolina Maria de Jesus na literatura e como levar seus livros para a escola.

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5. Analise criticamente a mídia e conteúdos de entretenimento que consome
O primeiro passo é fazer um exercício simples de identificar  “há pessoas negras nesse produto cultural?”. Mas é preciso ir além da representatividade e refletir sobre a forma que eles aparecem. Isto é, não apenas se há atores negros naquele filme ou novela, mas qual é o papel que eles ocupam? Djamila Ribeiro traz o exemplo de atores que sempre ocupam o papel de bandido, bêbado, empregada doméstica ou da mulher hipersexualizada. A autora também apresenta o conceito que Adilson Moreira chama de racismo recreativo, mecanismo que mascara pelo humor o racismo.

Djamila foca em produções culturais, mas o mesmo exercício pode ser levado para perceber o racismo que aparece na mídia. Por exemplo, a forma que as pessoas negras são representadas na cobertura midiática (está sempre relacionado com violência, tragédias ou pobreza, por exemplo?) ou verificar se os termos que são utilizados tem um tom depreciativo ou se é o mesmo dado quando uma pessoa branca tem a mesma ação. Esse exercício de reflexão pode ser levado para seus alunos para trabalhar habilidades de análise crítica da mídia no Fundamental 2 e Ensino Médio. Se quiser saber mais, confira esta reportagem em que explicamos como trabalhar dentro dessa temática

O que acharam desses pontos? Qual sua dica para contribuir na luta antirracista? Antes de ir não posso deixar de falar que este texto foi uma indicação que recebemos no perfil de NOVA ESCOLA no Instagram (@novaescola) do @paginasdouradas

Um abraço e até a próxima, 

Paula Salas
Repórter de Nova Escola

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