Assemblage: a arte de reunir objetos diversos para contar histórias

Ensine as crianças a explorar a assemblage, técnica que proporciona a análise de materiais e desenvolve o gosto por construir e inventar tramas a respeito das criações, boa oportunidade para trabalhar com a imaginação

POR:
Ana Gonzaga
A viagem da assemblage. Foto: Fernanda Preto
A viagem da assemblage | Ao ver um antigo monitor de computador na Escola I. L. Peretz, a turma do 4º ano associou-o ao rosto de um velho. Um aluno disse que era "jurássico". Então, o grupo teve a ideia de colocar um dinossauro de brinquedo dentro dele e unir o velho ao novo: o monitor representa o passado e o dinossauro saindo de dentro dele, que simula uma imagem tridimensional, sinaliza o moderno. "Esta elaboração é o que há de mais rico na assemblage: a ressignificação dos objetos", diz a professora do grupo, Ligia Coelho.

À primeira vista, o produto final desse tipo de arte pode despertar estranhamento. Composta de madeira, papel, tecido, pedaços de brinquedos e muitas outras coisas unidas com cola ou simplesmente por encaixe, a obra é uma forma de expressão do imaginário do autor. Os objetos, embora reunidos para representar algo novo, conservam seu sentido original. Isso é assemblage, termo em francês que significa "montagem".

Com origens no modernismo europeu, o conceito foi usado pela primeira vez pelo francês Jean Dubuffet (1901-1985). Ele era integrante do dadaísmo, movimento que se desenvolveu na Europa no início do século 20, logo após ser deflagrada a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). As obras dadaístas são desconexas, sem um sentido aparente, uma forma de protesto contra a guerra.

Na escola, a assemblage é uma boa pedida para as aulas de Arte. Abre muito espaço para a experimentação, o estudo e a apreciação, já que a obra e todo o percurso para elaborá-la são um desafio constante para os alunos: encontrar soluções - estéticas e ao mesmo tempo lúdicas - para os problemas de construção com que eles se deparam.

Um deles é como colar os objetos uns nos outros, já que nem todos têm pontos de contato suficientes. É preciso encontrar soluções, descobrindo como enxaixar as peças ou substituindo os materiais. Exercita-se a habilidade de configurar formas - como vertical e horizontal - e consistências diferentes - o duro e o mole, por exemplo. A capacidade de dividir tarefas também é desenvolvida, já que o mais interessante é fazer os alunos trabalharem coletivamente. Alguns podem ficar responsáveis pela montagem em si, enquanto outros fazem a seleção dos objetos que serão usados.

Para aproximar a meninada do tema, vale levar para a sala de aula imagens de obras como as apresentadas na exposição pioneira The Art of Assemblage, organizada em 1961 no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, nos Estados Unidos. E de artistas como o italiano Alberto Bruni (1915-1995), os espanhóis Antonio Tapies e Pablo Picasso (1881-1973) e os brasileiros Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), Wesley Duke Lee (1931-2010), Nuno Ramos e Leda Catunda.

Na sala de aula, o foco deve ser o percurso criativo

Antigo monitor transformado. Foto: Fernanda Preto

Ligia Coelho, professora da escola I. L. Peretz, em São Paulo, trabalhou a técnica com a classe do 4º ano durante um semestre e organizou uma exposição para a comunidade escolar. A meninada garimpou muito material em casa e levou para a sala de aula desde brinquedos - em pedaços ou inteiros - até material de construção, como um sifão. "Antes de começar a criar as assemblages, organizei um mercado de troca de objetos entre os estudantes", conta ela. Depois, formaram-se duplas de trabalho (leia o projeto didático).

Cada obra tem seu significado atribuído pelo autor. Porém a análise do professor pode (e deve) ir além disso. "É importante, durante o percurso de construção, desenvolver a imaginação. Por isso, os materiais precisam ser estimulantes o suficiente para dar origem a uma história", diz Paulo Nin Ferreira, mestre em Educação e arte-educador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Para isso, é preciso aproveitar a liberdade da brincadeira e observar como cada aluno soluciona problemas e como interage com os materiais e com os colegas.

Na opinião da professora Ligia, a obra pode carregar uma dose de crítica ou humor. Ela recorda que um grupo utilizou uma boneca sem pernas para compor uma assemblage. "A turma estava estudando a questão da acessibilidade. Daí, a boneca ganhou rodinhas e, consequentemente, mobilidade."

No entanto, no ambiente escolar, lembre-se de que mais importante que o resultado final é o percurso do desenvolvimento da assemblage. A obra é efêmera. É o saber construído que tem de permanecer vivo na mente da turma.

Erros mais comuns

Fazer uma interpretação psicológica da assemblage

. É muito reducionista deduzir que uma criança sofre violência doméstica, por exemplo, simplesmente analisando uma obra que ela criou ou por meio da história contada.

Deixar os alunos trabalharem completamente livres. É sua tarefa questioná-los a respeito de suas escolhas, sugerir o uso de alguns materiais que porventura não despertaram interesse.

Pré-selecionar materiais de acordo com a temática de outro projeto que esteja sendo desenvolvido na escola, por exemplo, reciclagem de plástico. Isso não é indicado porque restringe a liberdade criativa da turma e descaracteriza o trabalho de assemblage.

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