Arte rupestre ajuda a entender a Pré-História

Como as inscrições feitas em cavernas pelos primeiros homens nos conduzem a conhecer registros anteriores à escrita e levantar hipóteses sobre o passado do homem

POR:
Izabela Ferreira Alves
Debate apoiado por imagens. Foto: André Valentim
DEBATE APOIADO POR IMAGENS | A turma da professora Patrícia Yamamoto, da EM Tiradentes, em Niterói, observou imagens de pinturas rupestres de vários lugares do mundo e em seguida discutiu sobre elas. O debate levou à formulação de hipóteses, depois validadas ou não

A arte rupestre é uma das primeiras manifestações culturais da história da humanidade. Por meio de inscrições feitas em cavernas, os homens daquele tempo retrataram suas crenças, seus rituais, suas descobertas e seu cotidiano u­san­­do extratos de plantas, carvão, sangue e fragmentos de rochas.

Essas pinturas ilustram importantes momentos de revolução cultural. Nelas, é possível identificar, por exemplo, mudanças na busca pelo alimento: a coleta, as caçadas associadas a esse ato e, por fim, a agricultura. O mesmo ocorre com a descoberta e o aprimoramento técnico de utensílios e ferramentas de trabalho. Os rituais de adoração de deuses e a crença dos povos pré-históricos também podem ser mais bem compreendidos por meio desses registros. Muitas vezes, esses povos pintavam a flecha atingindo o animal, pois acreditavam no poder de seus desenhos para influenciar as caçadas.

Propor discussões em sala sobre esses registros é uma das formas de introduzir com turmas de 3º a 5º ano conteúdos da Pré-História, como o surgimento do homem e as formas de organização dos primeiros grupos sociais. "Essa delimitação facilita o trabalho, pois o estudante pode identificar, nos desenhos, atividades que ele já conhece, como uma caçada, uma festa, uma dança ou um grupo de pessoas usando um barco ou pescando", explica Pedro Paulo Funari, doutor em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Embora os conteúdos relacionados à Pré-História sejam tradicionalmente ensinados nos anos finais do Ensino Fundamental, é possível abordá-los antes, de forma introdutória. Nessa etapa da escolaridade, o objetivo é propiciar à meninada contato com a diversidade no espaço e no tempo e promover a primeira aproximação com o assunto, que será retomado mais adiante. Não é preciso ater-se a questões ligadas à temporalidade. "Nessa idade, os estudantes podem ter dificuldade em fazer a distinção entre 5 ou 50 milhões de anos. Deve-se mostrar que faz muito tempo. O ?quando ocorreu? não é o objetivo", afirma Funari.

Na prática, isso pode ser feito de várias maneiras, é claro. A professora Patrícia Yamamoto, da EM Tiradentes, em Niterói, na Grande Rio de Janeiro, escolheu as pinturas rupestres para desenvolver uma sequência didática sobre a Pré-História com uma turma de 3º ano. Ela inseriu o conteúdo em seu planejamento ao perceber a confusão que os alunos faziam quando o assunto era a história antes da escrita. "Muitos achavam que o homem se abrigava nas cavernas para fugir dos dinossauros, um erro bastante comum entre os estudantes dessa faixa etária", explica. Inicialmente, ela selecionou imagens de pinturas encontradas em sítios arqueológicos no Brasil e no exterior, como o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, e o conhecido complexo das cavernas de Lascaux, no sudoeste da França, entre outros exemplos. Esses registros têm motivos diversos: formas humanas, animais, caçadas, colheitas, festas e rituais. Fazer uma boa seleção das imagens para mostrar para a turma é uma etapa fundamental do trabalho. É importante, ao escolher os materiais, atentar para a variedade de estilos de pintura, animais, objetos e situações retratadas (veja exemplos de pintura rupestre na próxima página).

Um pouco de teoria

Quando surgiu a denominação pré-história: no século 19, época predominante do etnocentrismo.

O que a caracteriza: o período entre o aparecimento do homem e o desenvolvimento da escrita.

Por que recebe esse nome: os povos da época não tinham uma escrita baseada no alfabeto grego-latino, mas outras formas de comunicação.

Consultoria Marcia Maria Arcuri, doutora em Arqueologia pela USP.

 

Da formulação de hipóteses à sistematização dos dados

Homens. Foto: Gilvan Barreto
HOMENS O desenho na Casa Santa do Sertão Potiguar, no Rio Grande do Norte, mostra um barco e homens saindo para pescar à procura por alimento
Animais. Foto: Gilvan Barreto
ANIMAIS A gravura de animais no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, mostra a fauna que convivia com os povos pré-históricos
Ferramentas. Foto: Gilvan Barreto
FERRAMENTAS Os registros de utensílios no Parque Sete Cidades, no Piauí, fazem referência ao trabalho e ao domínio técnico obtido pelos primeiros homens

Depois de preparar os materiais, ainda no planejamento, as próximas etapas do trabalho ocorreram em sala de aula. O primeiro passo foi apresentar as imagens à turma com o objetivo de permitir a reflexão sobre a arte rupestre e sobre as características do período em que elas foram produzidas. Patrícia mostrou os desenhos usando um projetor conectado a um computador e convidou a garotada a interpretar as cenas. Nessa etapa, ela deu destaque às contribuições de todos, ao que cada um entendia da imagem. "Abri uma roda de conversa, na qual eles puderam manifestar dúvidas. Todos queriam saber por que as pinturas estavam em cavernas, por que esses homens não usavam papel, para quem tinham sido feitos aqueles desenhos, qual foi o material usado", recorda.

Esse debate inicial, em que todos puderam falar sobre o que observavam de cada imagem e levantar seus questionamentos, foi seguido de outro exercício. Com o estímulo da professora, que lançava questões ("Por que vocês acham que esses desenhos foram feitos em cavernas e não com papel?", por exemplo), a turma formulou uma série de hipóteses sobre o tema. Nesse momento, Patrícia acolheu as suposições apresentadas pelos alunos sobre os materiais utilizados nos registros e por que eles tinham sido feitos. Em seguida, uma aula expositiva permitiu à professora explorar temas da vida cotidiana dos homens do período pré-histórico e retomar as questões debatidas com as crianças, apresentando novas informações sobre o conteúdo. Simultaneamente, ela chamou a atenção para as atividades de caça, os diferentes tipos de animais retratados, a realização de práticas rituais e a presença de figuras humanas. Em sua exposição, a professora ainda enfocou a organização daqueles primeiros homens em comunidade e sua relação com a natureza. "Quis também abordar a habilidade que eles tinham para explorar seu ambiente. Essa inteligência garantiu a sobrevivência."

Por fim, os conhecimentos adquiridos pela turma de Patrícia foram sistematizados em um registro coletivo no quadro. Isso levou a meninada a confirmar ou contestar as hipóteses inicialmente formuladas, como a coexistência entre seres humanos e dinossauros, e a elaborar novas suposições. Com o auxílio da professora, foi criado coletivamente um texto informativo sobre esse período da História. Entre as descobertas dos pequenos, constavam informações sobre o local de moradia dos primeiros seres humanos, os meios usados por eles para obter alimentos e suas crenças.

Esse aprendizado levou os estudantes a concluir que os registros dos primeiros habitantes da Terra foram feitos num tempo muito posterior ao dos répteis e das aves gigantes, diferentemente do que eles supunham no início. "Assim, eles ampliaram seu repertório sobre um tema importante", diz Juliano Custódio Sobrinho, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

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