O que é Educação antirracista?

Prática ajuda na valorização da identidade e da trajetória dos diferentes povos que formam um país e no sentimento de pertencimento dos negros na escola

POR:
Daniele Madureira
Crédito: Getty Images

lei 10.639, sancionada em 2003 no Brasil, pautou o que muitos livros didáticos deixavam de fora nas escolas: a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura e o papel do negro na formação da sociedade nacional. Apesar da lei estar focada no Ensino Fundamental e Médio, é necessário trabalhar uma Educação antirracista desde cedo na escola ao longo de todo o ano letivo.

“A escola é um dos piores lugares para a criança negra: quando ela começa a aprender sobre história, descobre que os negros chegaram ao Brasil como seres infelizes, cativos, que vieram para servir aos brancos”, diz a professora Sherol dos Santos, professora de História da rede estadual do Rio Grande do Sul e doutoranda na mesma disciplina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para Sherol, a Educação antirracista ajuda na valorização da identidade e da trajetória dos diferentes povos que formam um país, em vez de tomar a visão do colonizador como a dominante. Além disso, a prática auxilia no sentimento de pertencimento dos negros no espaço escolar e acadêmico. “É uma valorização da diversidade, daquilo que distingue os grupos raciais, mas não os hierarquiza”, diz Sherol. “Uma Educação antirracista é aquela que entende que vivemos em uma sociedade racista, em que as relações entre as pessoas são pautadas também a partir do lugar social e racial que elas ocupam, e se preocupa em preparar indivíduos que possam se colocar contra esse sistema, gerador de maior desigualdade”. De acordo com ela, isso requer uma mudança não só no currículo, mas nos discursos, nos raciocínios, nas lógicas, nas posturas e nos modos de tratar as pessoas negras.

É importante nesse sentido que os professores trabalhem questões raciais, culturais e de representatividade, além de trabalhar a diversidade como um valor para toda a comunidade escolar. “É preciso que a pauta antirracista faça parte do projeto político pedagógico (PPP) da escola e, assim, esteja naturalmente atrelada a todas as disciplinas”, diz Heloise Costa, professora de Língua Portuguesa de formação, mestre em Relações Étnico-Raciais e atualmente coordenadora do Projeto Entrelivros, de incentivo à leitura. 

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As contribuições africanas que não comentamos
Segundo Mônica do Amaral, que coordenou a pesquisa O ancestral e o contemporâneo nas escolas: reconhecimento e afirmação de histórias e culturas afro-brasileiras, é dever da escola trazer aos alunos a história como ela é. “É preciso que o professor seja formado com esse olhar crítico para enfrentar o racismo velado”. Autora do livro O que o rap diz e a escola contradiz: um estudo sobre a arte de rua e a formação da juventude na periferia de São Paulo, Mônica diz que é fundamental que os educadores conheçam as comunidades que atendem e tragam a sua cultura para dentro do espaço escolar. “É preciso valorizar culturas que no passado foram perseguidas, como a capoeira e o hip hop, recuperar os ritmos”, diz ela. “Isso vai oxigenar a escola e torná-la verdadeiramente brasileira – e não americana ou europeia”.

Vidas negras importam

Ilustração: Estúdio Kiwi/NOVA ESCOLA

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Para dar uma nova perspectiva para o papel dos negros na formação da sociedade e do conhecimento científico, os educadores podem abordar as hierarquias raciais a partir dos próprios componentes curriculares. “A origem da Matemática é vinculada aos gregos, mas no século VI antes de Cristo, se os egípcios, no norte da África, já usavam cálculos para construir pirâmides 3 mil anos antes da era cristã”, aponta Sherol como exemplo. Da mesma forma, foram os egípcios um dos primeiros povos a adotar um calendário de doze meses e a estudar Astronomia. É no Mali, ainda, que se encontra uma das bibliotecas mais antigas do mundo, na cidade de Timbuktu, antigo entreposto comercial e cultural africano e tombado como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Nos seus manuscritos de 1200 anos, estão estudos sobre, por exemplo, medicina, alquimia e astrologia. “Apesar disso, a Educação coloca a história negra no gueto não científico”, diz Sherol.

3 ideias para o ensino remoto
A partir de temas do cotidiano dos estudantes, é possível conectar discussões com a turma, independente da idade. Veja três abordagens possíveis para começar essa conversa com a sala e desenvolver atividades a partir dela:
 - Peça aos alunos uma pesquisa sobre a herança africana na nossa cultura: música, religião, literatura, teatro, cinema, moda, gastronomia (Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental);
- Levantar pelo menos três heróis negros da história brasileira e três figuras admiráveis do presente e analisar essas figuras e o que as levaram a ser conhecidas (Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio);
- Refletir sobre quantos médicos, advogados e personalidades acadêmicas negros são conhecidos entre os alunos e analisar os motivos da baixa representatividade em algumas carreiras (Ensino Médio).

Mesmo em áreas em que a cultura e trajetória dos negros é mais disseminada, como História e Línguas, ainda há um longo caminho a percorrer. diz Heloise. O problema é anterior à escola: mesmo enquanto aluna em um curso de licenciatura em Letras, ela relembra o fato de não ouvir, em nenhum momento, que Machado de Assis, um dos maiores escritores do país e do mundo, era negro. Heloise aponta que é em casos assim que a Educação no Brasil também fortalece a ideia e um olhar europeu do mundo. “É claro que a escola tem seus limites, mas o professor tem o poder de fazer diferente e não reforçar estereótipos, mudando o campo de visão dos alunos”, afirma.

11 autoras negras para conhecer e levar para sua sala de aula

Para quem é útil: Turmas de Fundamental 2
Qual o objetivo: Incentivar a leitura ao propor experiências literárias diversas com livros de diferentes gêneros literários escritos por mulheres e propor a análise de textos literários escritos por mulheres, de forma que os alunos percebam suas marcas de autoria
Habilidade da BNCC: EF69LP44

Em História, os alunos não conhecem a real dimensão do Quilombo dos Palmares, que ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal, por exemplo. “Aprende-se pouco sobre Zumbi e Dandara, que governaram este quilombo”, aponta Heloise. Além disso, outras figuras importantes da história da resistência negra no país também são invisibilizadas pela escola. “Como Francisco José do Nascimento, o ‘Dragão do Mar’, que ajudou o Ceará a se tornar o primeiro estado do país a abolir a escravidão, em 1884; e Tereza de Benguela, que governava o Quilombo do Piolho, no Mato Grosso, por meio de um sistema de parlamento”. E o mais importante é que este tema não fique restrito à comemoração da Consciência Negra, em novembro. Educação antirracista é para estar no PPP da escola e ser praticada diariamente.

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