Insubordinação criativa: entenda o conceito e como se reflete na sua prática pedagógica

Veja a relação do termo com a Matemática e com os desafios estabelecidos pelo ensino remoto

POR:
Selene Coletti
Foto: Getty Image

Outubro é o mês do professor, a profissão que escolhi desde bem pequena, quando brincava de escolinha no quintal de casa. Profissão escolhida por tantas outras pessoas que acreditam que é por meio da Educação que se provoca mudanças e é possível contribuir para a formação de cidadãos conscientes do seu papel no lugar em que vivem.

Por conta disso, escolhi escrever sobre a insubordinação criativa que tem  conexão com todos os profissionais que ousam e lutam por uma Educação de qualidade.

Mas o que é a insubordinação criativa?
A ideia de insubordinação criativa surge inicialmente no campo da sociologia com Robert Morton, que tratava de questões da burocracia.  Já na década de 80, pesquisadores de Chicago, baseados nas ideias de Morton, definem a insubordinação criativa como sendo práticas de desobediência para regras pré-estabelecidas com o intuito de “diluir os efeitos desumanizantes” dessas regras.

Nos anos 90, esse conceito é ampliado como o momento de tomada de decisão visando melhorar a comunidade escolar, buscando novos percursos que não prejudiquem alunos e professores. Essa concepção abarca dois propósitos: garantir as diretrizes do sistema quando não atingem, de maneira adequada, professores e alunos, e evitar consequências negativas que o problema observado possa gerar.

Você deve estar pensando “mas onde esse conceito chega na Matemática?”. Então vamos lá, Beatriz d’Ambrósio aproxima o conceito de insubordinação criativa para a Matemática relacionando as posturas dos professores de Matemática que encontram em suas aulas maneiras de romper com as situações que impossibilitam oportunidades equânimes.

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Beatriz acreditava que as aulas de Matemática deveriam ser espaços nos quais fossem possíveis atingir o objetivo do componente curricular: formar e desenvolver pessoas capazes de contribuir para a resolução de problemas que afligem o mundo atual.

Em outras palavras, a insubordinação criativa é o ato de ir contra uma situação, mas de uma forma responsável e criativa, buscando resolver o problema, favorecendo o outro, representado pela comunidade escolar.

E na prática, o que isso significa?
Refletindo sobre o tema em questão e levando em conta todos os textos que escrevi nesse espaço, a insubordinação criativa está e esteve presente em diferentes momentos de minha prática pedagógica. E, com certeza, na sua também. Você deve estar se perguntando como, não é mesmo?

No texto A subversão responsável na constituição do educador matemático (se quiser saber um pouco mais, clique aqui e aprofunde seus conhecimentos), Beatriz dá alguns exemplos de insubordinação criativa com os quais você irá se identificar. Eles incluem momentos em que o professor:

"> Rompe com o currículo prescrito;
> Coloca o aluno no coração do processo educacional;
> Considera o desenvolvimento das crianças ao planejar suas ações;
> Desafia os alunos a identificarem problemas e criar propostas para a solução;
> Transcende o ambiente escolar – extrapola o alcance da sala de aula;
> Cria uma oportunidade para as crianças vivenciarem o problema para melhor fazer uma leitura de mundo;
> Cria oportunidade para as crianças viverem a sua proposta de solução – experimentarem suas ações;
> Apoia as crianças ao atribuírem significado e realizarem uma leitura de mundo construída colaborativamente”.

Viu em quantos momentos podemos e somos insubordinados criativamente? É o entrar na sala, fechar a porta e fazer do seu jeito, rompendo com as regras. No entanto, esse fazer do seu jeito requer ousadia, mudança, permitindo que todos aprendam.

É colocar em prática as propostas de Matemática nas quais os alunos colocam em jogo tudo o que sabem, podem fazer escolhas, utilizar ferramentas variadas para aprender, podem discutir suas ideias com os colegas, expô-las para o grupo sem medo de errar. Quanto ao professor essa insubordinação está no planejar suas aulas de forma intencional, tendo claro os objetivos que quer atingir, trazendo os jogos para a sala de aula, problematizando situações, dando voz e vez para seus estudantes, registrando, documentando para poder permitir a aprendizagem de todos, respeitando o ritmo de cada um.

Trabalho com jogos: aproveitando o interesse dos alunos

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Se em nossas aulas de Matemática propomos que a turma fale o que sabe sobre o tema a ser tratado, se ouvimos atentamente o que cada um pensa sobre ele, se oportunizamos discussões em grupo, possibilitando que as ideias circulem, colocando a turma como protagonista da construção do conhecimento, estamos quebrando paradigmas! Estamos, em muitos casos, sozinhos nessa empreitada, mas seguimos em frente.

Lembro-me muito bem quando resolvi modificar a forma de trabalho com o Ensino Fundamental no planejamento do dia com as crianças, realizando as propostas, avaliando ao final do dia. Utilizava as atividades diversificadas, discutíamos em assembleia nossos problemas. Eu era a única na escola a fazer isso! Mas era maravilhoso ver as crianças ganhando autonomia nesse processo e um desafio e tanto.

Insubordinação em tempos de pandemia e ensino remoto
Se olharmos para a nossa prática nos últimos meses, podemos ver muitas atitudes de insubordinação. A grande maioria dos professores buscou formas criativas para inovar diante do grande problema que se definiu: estar próximo dos alunos, não deixando nenhum para trás e cumprindo o seu papel. 

Foi preciso coragem para mergulhar no mundo digital, rever práticas, readequando-as para realidade que se desenhava a sua frente. Fazer home office, tornar-se youtuber (muitas vezes), comunicar-se com seus alunos (sem estar frente a frente, trocando olhares e afetos), encontrar formas para se fazer presente foram alguns dos novos desafios.

A discussão atual sobre a desigualdade que se forma entre os estudantes devido ao ensino remoto abre também espaço para refletir sobre a equidade de oportunidades que abrimos em nossas salas de aula. Ela precisará ser destacada na reabertura das escolas e levada em consideração. Para isso, na grande maioria das vezes, necessitaremos de ações insubordinativas. 

Proponho que você, professor e professora, faça uma análise de suas ações ao longo do percurso, com um recorte para as aulas de Matemática: a insubordinação esteve presente? Você ousou, transformou sua sala de aula, trazendo uma Matemática próxima da vida de seus alunos, na qual ele possa estabelecer conexões com a sua vida?

Se fez, deve ter colhido excelentes frutos! Se ainda não fez, fique tranquilo, há tempo para isso.

Até a próxima e um feliz mês do professor para você,

Selene

Selene Coletti é professora há 39 anos na rede pública. Atua na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada do município. Atualmente é formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba.