Dia dos Professores: 10 livros indicados pelos nossos educadores

Conheça obras apresentadas por professores durante a trajetória escolar da nossa equipe

POR:
Paula Salas, Ana Paula Bimbati, Duda Oliva
Foto: Getty Image

Durante a nossa trajetória escolar o professor é aquele adulto que parece saber tudo. Um modelo a ser seguido, um guia para ajudar naquela jornada. Durante esse percurso passamos por muitos educadores também que nos ensinaram muito mais do que os conteúdos curriculares. Um comentário, um abraço, um olhar, um recado na prova, tudo gera uma lembrança especial. O mesmo acontece quando um livro é indicado por aquela pessoa que você tanto admira. 

Toda semana trazemos os livros de cabeceira, mas hoje trouxemos uma seleção especial. Relembramos dos nossos anos escolares para pensar nos livros que foram apresentados por nossos professores e que nos marcaram. Confira as indicações: 

Indicações de Ana Paula Bimbati:

Incidente em Antares, de Érico Verissimo (Companhia de Bolso)
Quem indicou: Profª Carla Antunes
Curiosa que sempre fui, lembro do dia que vi a professora Carla andando pelos corredores da minha escola com esse livro nas mãos. A capa era bonita, chamou minha atenção e questionei sobre o que se tratava. A obra era Incidentes em Arantes, de Érico Veríssimo - inclusive, anos depois recebi do governo do estado de São Paulo durante meu Ensino Médio.

Veríssimo divide a obra em duas partes: na primeira, traz um panorama cheio de detalhes, com informações ricas sobre a situação política da época e da cidade fictícia de Antares. Enquanto apresenta as famílias Vacariano e os Campolargo, que detinham o poder na região, o autor faz uma crítica à ditadura militar. Só na segunda etapa que Veríssimo fala sobre o incidente.

O livro tem quase 500 páginas, mas a leitura me envolveu tanto, que o conclui antes da minha própria professora. Para quem se interessa por livros que abordam o período da ditadura militar, com um tom satírico, essa é uma boa opção! 

Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque (L&PM)
Quem indicou: Prof. Ailton Fernandes
Toda vez que lembro dos meu Ensino Médio não consigo deixar de lembrar dos livros e filmes indicados pelo meu professor Ailton. No começo de cada bimestre e, em quase todas as suas aulas, ele trazia sugestões incríveis! Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, foi uma dessas indicações. Me recordo que na época estávamos estudando a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e me interessei tanto pela história, que fui em um sebo procurar esse livro. 

No romance, o autor conta as experiências de Paul, um personagem inspirado em suas próprias vivências, quando esteve nas trincheiras. No início, o protagonista vai à Guerra com a ideia de ser uma experiência “heróica”, mas, ao longo das páginas, conhecemos uma realidade bem diferente. 

Erich escreveu o livro durante o período em que trabalhou em uma redação jornalística e sofria de insônia por consequência da guerra. A leitura foi muito valiosa e abriu meus olhos para o tema! Recomendo estar na sua cabeceira também. 

Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle (L&PM)
Quem indicou: Profª. Poliana Rios 
Lembro como se fosse hoje, a professora Poliana lendo esse livro para minha sala. A sua forma de contar histórias sempre atraiu minha atenção e esse foi um dos motivos para esse título estar na minha lista. Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle é perfeito para quem gosta de mistério e suspense - e essencial já que é a primeira história do famoso detetive Sherlock Holmes. 

O doutor Watson, narrador da obra, tenta desvendar o mistério, junto de Holmes, da morte de um homem que foi encontrado sem ferimentos, mas rodeado de manchas de sangue. O poder de observação dos personagens envolve o leitor, assim como a voz da Poli, como era chamada carinhosamente pela minha turma, quando fazia a leitura dessa obra. 

Indicações de Duda Oliva:

A Pequena Bruxa, de Pedro Bandeira e Carlos Edgar Herrero (Editora Moderna)
Quem indicou: Profª Luciana 
A professora Luciana é amiga da minha mãe antes mesmo de eu nascer e foi minha professora de Educação Infantil na minha primeira creche, também me deu aula durante o Fundamental 1. Um laço que me acompanhou durante quase toda a Educação Básica. Na biblioteca, ela sempre escolhia livros para ler com a turma. Foi assim que conheci um dos meus primeiros livros favoritos quando era criança: A pequena bruxa, de Pedro Bandeira e Carlos Edgar Herrero. 

A história apresenta Lalá, uma pequena feiticeira que precisa praticar sete maldades para se formar na pré-escola de bruxaria. O mágico do livro - peço licença para o trocadilho - está num divertido jogo entre o que se narra e o que se vê. Enquanto o texto conta as "crueldades" de menina, as imagens mostram o que o texto ingenuamente esquece de mencionar. Por exemplo, em um trecho Lalá joga uma lata de lixo sobre um homem, a ilustração mostra que ele pretendia jogar o lixo em um rio; se em outro momento a garota acerta uma pedra na testa de um garoto, nas imagens vemos que a pedra ricocheteou no ar por um feitiço que Lalá fez para proteger um pássaro da pedrada do menino. Esse tipo de jogo faz com que a narrativa dance entre a mensagem escrita e ilustrada. 

Hoje, quando tomo este livro em mãos e revejo estas páginas - super bem preservadas, diga-se de passagem, graças ao hábito de minha mãe de encapar meus livros de criança-, percebo ainda mais motivos para que a Professora Luciana o tivesse escolhido dentre tantos outros. Além do espírito divertido e mágico, do jogo esperto entre texto e imagem e o potencial para contações em rodas, o livro também traz uma mensagem positiva sobre como nossos atos podem ajudar aos outros e ao meio ambiente.

Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa (Companhia das Letras)
Quem indicou: Profª Nanci
Que tal abrir sua aula com uma poesia? Era assim que começava a minha aula com a Professora Nanci. Ela acabava de chegar à escola da minha adolescência e queria abrir nossos olhos para o que estava além dos enunciados dos exercícios. Ela jamais subestimou até onde as letras poderiam levar os alunos. Foi ela quem trouxe alguns dos livros mais incríveis e densos para nossa turma de adolescentes, passando por Machado de Assis, Jorge Amado e Cecília Meirelles. Contudo, era na poesia que, para mim, suas aulas ganhavam mais vida. 

Lembro das primeiras vezes em que ela nos levou para a Portugal de Fernando Pessoa, com suas camadas textuais e níveis de interpretação diversos, suas metáforas e palavras com significados múltiplos. Lembro da sonoridade das leituras dos textos, da dificuldade de entender algumas passagens e construções frasais do escritor e da simplicidade leve de outras: esse contraste entre a profundidade filosófica das mensagens e a voz campestre, ingênua e livre de um guardador de rebanhos. Penso que a Professora Nanci me ajudou a descobrir o universo da poesia, e todas as camadas de leitura que os bons versos carregam consigo.  

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
Quem indicou: Profª Vilma
Curioso como algumas frases ficam conosco. Um eco cujo som, quando produzido, não parece grande coisa, mas que fica e persiste em nós. Tenho de memória vários trechos de livros que li no colégio. Muitos destes fragmentos surgem principalmente pelo desejo da Professora Vilma de não deixar a literatura presa aos textos, mas sim de libertá-la nos palcos.

Minha escola não tinha exatamente uma vocação para as artes cênicas, contudo, os esforços de Vilma trouxeram novos cenários para os pátios do colégio e novas datas para o calendário escolar, com apresentações semestrais de peças de teatro baseadas em livros que havíamos lido no semestre anterior. Um livro curto que a Professora Vilma trazia sempre consigo conquistou nossa turma e também teve chance de ganhar uma montagem: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. A a famosa história do garoto do asteróide B612 contada por um aviador perdido no deserto do Saara.

Sabemos do apelo universal desta narrativa, da infinitude de frases e citações que podemos encontrar em suas páginas, do poder das palavras de Exupery, da beleza dócil das aquarelas do autor. Porém, minha relação com o Pequeno livro sempre foi das lembranças dos tempos de adolescência, dos ensaios com os amigos, falas mal decoradas, cenários feitos de EVA e fantasias de TNT. O livro para mim nunca existiu apenas nas suas páginas, mas sim - e principalmente - nas imagens que lembro dessa experiência teatral, e nas frases soltas que nos cativaram e resolveram ficar comigo. 

Indicações de Paula Salas:

O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett  (Editora 34)
Quem indicou: Profª Vera Lucia Marques
A minha relação com este livro é complicada e comecei a gostar dele anos depois, mas tem um motivo. Ele foi o primeiro livro que eu li em português - eu sou nascida na Venezuela. Lembro da surpresa de ter que ler um livro na escola com mais de 200 páginas (nas minhas escolas anteriores não tinha esse trabalho com livros na sala de aula) em uma língua que não era a minha. Eu tentei logo seguir o cronograma de leitura, mas eu fiquei para trás e foi difícil acompanhar. Por conta dessa dificuldade, o livro na época foi um grande desafio e se tornou um marco. 

A história começa quando a órfã Mary Lennox chega para morar com seu tio em um casarão na Inglaterra após seus pais e babá morrerem durante a epidemia de cólera. Naquele solitário lugar, a menina descobre um jardim trancado em que todos eram proibidos de entrar há anos, mas ela resolve quebrar a regra. No seu novo lar,  conhece Dickon, um garoto que cuidava dos animais e plantas da casa. Isolado em um dos quartos também morava Colin, filho do tio de Mary. Ele é um menino com deficiência física e doente. Por conta de sua condição, é muito mimado por todos da casa. No entanto, Mary não via o primo da mesma forma, não sentia pena dele, mas era muito honesta diante dos seu comportamento. O livro retrata a amizade que é construída entre as três crianças e as aventuras pelo jardim secreto. 

Um certo capitão Rodrigo, de Érico Verissimo (Companhia das Letras)
Quem indicou: Profª Regiane Boainain
Este foi uma dos primeiros livros de literatura nacional que li. Estava no 6º ano, meu segundo ano no Brasil. Lembro que também foi um livro difícil de ler pelos coloquialismos tradicionais do sul do país, mas que me pegou pela história do começo ao fim. 

A obra acompanha a chegada do capitão Rodrigo Cambará ao pacato povoado de Santa Fé, no Rio Grande do Sul. A narrativa se passa em um momento historicamente importante para a região, lá no início do período do Brasil Império (1822-1889) e retrata a consolidação do poder local dos coronéis e toda a cultura paternalista que veio dessa formação social. O personagem principal aparece nesse contexto como uma figura que questiona os valores vigentes, mas que não consegue mudar sua realidade e transgride as regras para seu próprio benefício. Enquanto são narradas as aventuras do protagonista e sua paixão por Bibiana Terra, começava a fervilhar na região os acontecimentos que resultaram na Revolução Farroupilha (1835-1845). Os dois personagens que são apresentados neste livro também fazem parte também da trilogia O Tempo e o Vento, considerada a obra prima do autor. 

A outra face: História de uma garota afegã, de Deborah Ellis (Editora Átila)
Quem indicou: Profª Regiane Boainain
Apesar de pouco conhecido, este livro me impactou. Ele me apresentou uma cultura muito diferente daquela que eu estava inserida. A narrativa conta a história de Parvana, uma menina de 11 anos, que vivia em Cabul, no Afeganistão, durante o regime Talibã. Durante aquele período existiam uma série de restrições para a população, em especial às mulheres. Elas não poderiam frequentar a escola, trabalhar ou sair na rua sem serem acompanhadas por um homem, por exemplo. A protagonista se vê em uma encruzilhada: seu pai fora preso, seu irmão mais velho morto e o outro irmão é apenas um bebê. Com a comida acabando, a menina decide buscar uma solução para sustentar a família. A história nasceu a partir dos relatos ouvidos pela autora canadense de refugiados afegãos no Paquistão e Rússia durante o regime totalitário. O livro é o primeiro de uma trilogia composta por: A viagem de Parvana e Meu nome é Parvana.

A Sangue Frio, de Truman Capote (Companhia das Letras) 
Quem indicou: Professor Ricardo Lourenço 
Lembro de um dia no 9º ano quando o professor Ricardo, que viria a ser meu professor de Filosofia no 1º ano do Ensino Médio, foi à minha sala nos convidar para um projeto de leitura durante as férias de final de ano. Ele fez uma seleção de livros, dos quais poderíamos escolher um dos livros e fazer um diário de leitura compartilhando a nossa experiência, que seria entregue no ano seguinte. Pode parecer chato, afinal, era lição de férias. Mas, aquilo foi incrível para mim, porque abriu os meus horizontes. Conheci títulos e autores importantes para a literatura brasileira e mundial. Entre as sugestões, estava A Sangue Frio, de Truman Capote. O livro-reportagem relata um crime brutal ocorrido em 1965 em Holcomb, nos Estados Unidos. Se trata do assassinato da família Clutter por Perry Smith e Dick Hikcock. 

A obra traz toda a história com a precisão jornalística, mas com traços literários que cria um perfil humano dos criminosos - algo que é criticado por muitas pessoas -, e faz o leitor mergulhar nessa história contada de maneira tão detalhada. Naquele momento eu ainda não sabia, mas anos depois, na faculdade de Jornalismo, eu voltaria a falar sobre esse livro e estudar a técnica utilizada pelo autor. Sem dúvidas, foi uma experiência que me marcou e guardo com muito carinho. 

Quais foram os livros que seus professores te indicaram e você ainda hoje lembra? Neste dia 15 de outubro, lembre desses educadores que marcaram suas leituras.

Um abraço e até a próxima!

Ana Paula Bimbati, repórter do site NOVA ESCOLA 
Duda Oliva, ilustrador e designer 
Paula Salas, repórter do site NOVA ESCOLA

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