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01 de Outubro de 2012 Imprimir
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Alfabetização: vamos criar fichas para um jogo de memória?

Nessa atividade, as crianças comparam suas produções com as dos colegas, colocam à prova o que sabem e constroem conhecimentos sobre o sistema alfabético. Baixe aqui as fichas para construir o jogo da memória com os alunos!

Por: Noêmia Lopes
Os alunos da EE Professora Julieta Farão registraram o nome de bichos nas cartas do jogo mesmo sem saber escrever convencionalmente. Foto: Raoni Maddalena
Os alunos da EE Professora Julieta Farão registraram o nome de bichos nas cartas do jogo mesmo sem saber escrever convencionalmente

Dentre os vários momentos delicados da alfabetização inicial, existe um que merece muita atenção: a passagem da hipótese silábica para a silábica alfabética. É a fase em que a meninada começa a abandonar a escrita quase sempre feita só com vogais e passa a escrever acrescentando consoantes. "A introdução das consoantes desorganiza o sistema anterior e as crianças devem empreender a penosa tarefa de encarar os desafios de encontrar uma nova organização", afirma a psicolinguista argentina Emilia Ferreiro no artigo A Desestabilização das Escritas Silábicas. Nesse processo, o aluno registra uma mesma palavra de modos distintos, em momentos diferentes, ainda em busca de uma estabilidade para escrever.

Para compreender o fenômeno e ajudar a garotada a progredir nas hipóteses de escrita, há diversos caminhos. Um deles é um projeto didático que prevê a produção de fichas para um jogo da memória. A proposta - criada pela pesquisadora Claudia Molinari, argentina especialista em alfabetização inicial - foi realizada pela turma do 1º ano da EE Professora Julieta Farão, na capital paulista. O tema escolhido foi animais e as crianças tinham de escrever o nome dos que já conheciam. Ao longo desta reportagem, apresentamos algumas produções dos alunos analisadas por Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC).

A mesma palavra escrita duas vezes revela o que a turma sabe

Para realizar a atividade, selecione um tema e prepare as cartas. Cada par precisa ter a foto de um bicho e um espaço para o nome dele. Depois, compartilhe com a turma o objetivo: construir um jogo para brincar com os colegas.

Para começar, distribua uma ficha para cada aluno, reservando o par correspondente para ser entregue depois. É importante planejar qual será dada para cada um, levando em conta suas hipóteses de escrita. Afinal, os desafios contidos em escrever SAPO e CACHORRO, por exemplo, são distintos. Uma vez que todos tiverem terminado, peça que leiam em voz alta o que escreveram. Entregue outras fichas para serem preenchidas e repita o processo de leitura. Em seguida, recolha os trabalhos.

No dia seguinte, cada criança recebe as fichas que fazem par com as que já escreveram e deve escrever o nome do animal correspondente novamente - sem consultar as anteriores. Se elas estivessem disponíveis, muitos estudantes replicariam o que tinham escrito antes. As intervenções que você pode fazer para ajudá-los nesse momento são as mesmas usadas em outras situações de produção escrita com foco na alfabetização: incentivar a busca por informações sobre o sistema de escrita em fontes conhecidas (lista de nomes da turma, por exemplo) e trocar ideias com os colegas. O esperado é que a maioria dos pares de palavras seja grafada de forma total ou parcialmente diferente.

O fato de um aluno escrever PICO na primeira carta e PIAO na segunda (ou vice-versa) para PELICANO, por exemplo, revela que ele conhece diferentes letras e os sons correspondentes aos segmentos silábicos - um bom sinal. Porém deixa claro também os dilemas sobre quantas e quais letras usar e em que ordem colocá-las. Esse fenômeno recebe o nome de alternância grafofônica: quando se reveza o uso de duas letras para representar uma emissão sonora (no exemplo acima, C e A para CA). "Nesse cenário é interessante perguntar às crianças se as duas opções são pertinentes para a escrita da palavra", recomenda Telma Weisz, pesquisadora em alfabetização e supervisora pedagógica pelo Programa Ler e Escrever da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Muitas vezes, elas respondem que sim e acrescentam C à PIAO ou A à PICO. Se não o fazem na ordem correta, o resultado é um caso de desordem com pertinência.

Não se esqueça de oferecer também situações que façam a criança refletir sobre a escrita para ter a chance de avançar. Uma dessas oportunidades é a revisão.

Segundo Claudia, a necessidade de ter uma versão definitiva das fichas justifica a etapa de revisão. "A tarefa faz sentido mesmo se os cartões tiverem escritas idênticas, porém equivocadas. Elas podem ser reformuladas e melhoradas", diz. Os alunos, com a sua ajuda, colocam à prova o que sabem, acrescentando, omitindo ou trocando letras de lugar.

 

Refletir sobre as duas grafias para elaborar a versão final

Ao ter de redigir duas vezes a mesma palavra, como GALO ou CAVALO, em momentos distintos, os estudantes podem comparar o jeito que escreveram cada uma delas, interpretá-lo e confrontar seus conhecimentos. Isso ajuda a fazer as alterações necessárias e, finalmente, escrever a palavra do melhor jeito. "Eles sabem que não é possível registrar de modo variado o que se pronuncia de uma maneira. Produzir um par de fichas e se deparar com duas escritas para a mesma palavra constitui um bom problema nessa fase", afirma Telma.

Na hora da revisão, selecione um par de cartas que tenha um ponto recorrente dentro do grupo - uma alternância grafofônica, por exemplo - e promova uma discussão coletiva. Sem expor o autor, sugira uma análise que, depois, será útil para todos durante a escrita definitiva. No caso das referentes a PELICANO (com os registros PICO e PIAO), a primeira pergunta é: "Em P-I-C-O está escrito o mesmo que em P-I-A-O?" A ideia não é que as crianças simplesmente escolham uma das versões, mas que discutam as razões que levaram o autor a escrever daquela maneira. Para isso, apresente novas questões a elas, como "Pelicano começa com a mesma letra de Pedro?".

Uma vez feita a revisão coletiva, com a contribuição de opiniões de muitos alunos, é esperado que a grafia convencional seja alcançada. Devolva, então, os outros pares para a turma revisar - individualmente ou em duplas (cuide para que alunos com hipóteses próximas trabalhem juntos). Nesse caso, a escrita convencional das fichas não necessariamente será alcançada - e não há problema desde que as crianças façam progressos.

Dentre os cenários possíveis com PIAO e PICO, por exemplo, elas podem manter uma das versões ou unir na mesma sílaba (na ordem adequada ou não) letras só da primeira ou da segunda versão escrevendo, por exemplo, PIAOC.

Seja qual for o modelo de revisão que adotar, é fundamental que você intervenha sempre que necessário, impulsionando os estudantes a pensar sobre as escolhas que fizeram e reavaliá-las. Assim, a meninada vai ampliar os conhecimentos e colocar em xeque as ideias que já têm, chegando cada vez mais perto da escrita convencional.

Análise das escritas das crianças

<i>Eu sei todas as letras</i> Fotos Raoni Maddalena

 

"Eu sei todas as letras" As grafias das fichas do rato explicitam que o aluno sabe as letras necessárias para escrever o nome do bicho, mesmo não usando todas de uma vez. Ele registra ATO e depois RTO, ou seja, ora escreve a vogal (A), ora a consoante (R) da primeira sílaba. O mesmo ocorre nas fichas do sapo: o estudante primeiro grafa APO e depois SAO. Para a primeira sílaba, usa A e depois SA. Ele também varia a composição da segunda com PO e O. Ambos os casos são exemplos claros de alternância grafofônica.

<i>Onde uso essa letra?</i> Fotos Raoni Maddalena

 

"Onde uso essa letra?" Os registros das fichas da zebra revelam que o aluno escolhe usar uma letra para cada sílaba (Z e A). Depois, nota que existe outra (B), que também é importante para escrever a palavra. Porém ele não sabe exatamente onde colocá-la. Esse é um caso de escrita de desordem com pertinência, tal como ocorre nas cartas da girafa. Inicialmente, a criança opta por escrever IAA, revelando que usa uma letra para cada sílaba. Depois de pronunciar o termo em voz alta algumas vezes, descobre o F e acrescenta a letra por último.

<i>O lugar da letra é aqui</i> Fotos Raoni Maddalena

 

"O lugar da letra é aqui" Nas fichas do tatu, é possível observar que no primeiro momento o estudante escolhe uma letra para escrever cada sílaba (A e U). Em seguida, para preencher a segunda carta, ele acrescenta o T para complementar a primeira sílaba, deixando a segunda somente com a letra U - o que indica uma escrita silábica. Já nas fichas do galo, a criança grafa AOL inicialmente, compondo a segunda sílaba com letras pertinentes (O e L), porém em desordem, e em seguida a escreve de modo ordenado (ALO).

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