Professor é a profissão do apesar de...

A educadora Danúbia da Costa Teixeira compartilha um pedaço de sua história e aprendizados que ultrapassam os muros da escola e se estendem para a vida

POR:
Danúbia da Costa Teixeira
Crédito: Acervo pessoal

Imagine a cena: você é uma jovem mulher negra, empregada doméstica, mora com os patrões em uma cidade desconhecida, sem folga, sem descanso, sem nada. Trabalha para ganhar um salário mínimo – que na época era de R$ 300 - para pagar a faculdade de Letras que custava R$ 295. Suporta tudo esperando que, ao fim da graduação, tenha uma vida melhor, mais digna. Agora, imagine chegar da aula quase às 23h e encontrar todos os seus pertences numa caixa de papelão do lado de fora do apartamento dos seus patrões. Você é notificada, pela fresta da porta, de que está sendo demitida por um erro que você não cometeu, mas não te dão o direito de se explicar.

Isso não parece o início de um daqueles filmes tristes e assustadores em que uma mocinha sofre desesperadamente até que, meritocraticamente, ganha um final feliz? Mas não é um roteiro de cinema. Aconteceu comigo e, embora não pareça, meu final feliz teve início naquele exato momento.

Naquela noite, procurei uma colega de faculdade, expliquei aos prantos o que estava acontecendo e perguntei se podia passar a noite na casa dela. Tentei dormir, mas não tive  sucesso. O medo de um futuro infeliz, de voltar para Guanhães sem ter conseguido meu diploma, apertava minha garganta.

Na manhã seguinte, minha amiga, que trabalhava na Superintendência Regional de Educação de Manhuaçu, contou minha história para uma professora de Matemática que trabalhava na rede pública de uma cidade vizinha. Mesmo sem me conhecer, ela resolveu me acolher.

Dona Dorinha, como é chamada carinhosamente, me deixou atordoada quando me propôs que eu fosse para sua casa. “Como assim? Não terei que trabalhar para você?”- questionei. Eu não conseguia entender como uma mulher branca com curso superior iria me receber sem pedir nada em troca. Em minha cabeça, era impossível. Mas assim foi. Ela me colocou num quarto espaçoso dentro da sua casa. Eu comia na mesa com sua família. A mesma comida, nada mais de comer as sobras na área de serviço.

Todos os dias, Dona Dorinha me incentivava a sair em busca de um emprego, a levantar a cabeça e não desistir. Lembro de ela passar a mão em meus cabelos e dizer: “quando está tudo muito ruim, é porque está perto de melhorar”. E de fato melhorou.

Comecei a dar aulas particulares e ganhava o suficiente para pagar a faculdade. Depois, fui dar aula na rede pública, passei em um concurso estadual e terminei a graduação com louvor. Voltei pro interior com meu diploma. O meu futuro digno havia chegado.

Depois de mim, meus três irmãos entraram na faculdade. Todos passaram em concursos públicos. Minha mãe, que até então era empregada doméstica e analfabeta, começou a estudar, abriu o próprio negócio e hoje é uma mulher realizada.

Durante anos me perguntei o motivo de Dona Dorinha ter feito por mim o que ela fez. Será que ela enxergou, na jovem tímida e chorosa que eu era, a doutoranda em Linguística que me tornei? Acredito que sim. Ela confiava que eu poderia ser alguém, que poderia ter um futuro melhor. Por causa dela, eu aprendi três coisas que regem minha vida como educadora.

A primeira delas é que, não raro, esperamos que alguém superior a nós resolva nossos problemas, olhe por nós e nos ajude. Mas isso, geralmente, é ilusão. Gestores públicos têm suas responsabilidades, mas não conhecem nossa realidade. Quem conhece são os colegas de profissão. Foi a Dona Dorinha e muitos outros professores que me ajudaram na hora da angústia. Me deram dicas sobre como superar a falta de materiais, o número excessivo de alunos em sala de aula, driblar a ausência dos pais, preparar aulas mais motivadoras, lidar com aquele aluno que parece não aprender. Por isso, devemos sempre valorizar e apoiar nossos colegas de profissão, porque são com eles que realmente podemos contar.

A segunda coisa que aprendi foi a acreditar em um futuro melhor para mim e para meus alunos. O futuro depende de fazer boas escolhas, traçar metas, investir tempo em estudo e não desistir diante das adversidades. O poeta Mário Quintana sabiamente dizia “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser realista esperançoso”. Exercitando meu realismo esperançoso, acredito que se eu pudesse escolher apenas uma coisa para ensinar aos meus alunos, eu os ensinaria a terem autonomia.

Para além de saber as regras de acentuação, a diferença entre “mais” e “mas” e a utilização dos quatro porquês, é preciso autonomia para se posicionar na vida, para não se render, para buscar conhecimento e compreender a realidade que nos cerca. A experiência de passar por essa pandemia e ter que ficar longe dos meus alunos apenas reforçou essa minha crença. Pois, neste momento, aqueles que mais estão obtendo êxito são justamente os que aprenderam a buscar conhecimento.

Por fim, aprendi que é preciso persistir. Persistência é uma característica que não pode faltar ao educador brasileiro. Como costumo dizer em minhas palestras e formações, professor é a profissão do “apesar de”. Nós fazemos um trabalho incrível, com a máxima competência e digno de todo respeito, apesar de não ganharmos o suficiente, apesar de não sermos valorizados, apesar do contexto desfavorável, apesar das salas superlotadas, apesar da falta de material didático. Apesar disso... apesar daquilo... apesar de tantos problemas. Isso porque ser professor é persistir apesar de tudo.

Para finalizar, retomo a frase que Dona Dorinha me dizia: “quando está tudo muito ruim, é porque está perto de melhorar”. Eu sei que no momento as coisas estão instáveis e não temos mais certeza de quando ou como poderemos rever nossos alunos e colegas de profissão. Entretanto, acredito que esse seja o prenúncio de dias melhores. A Educação nunca mais voltará a ser a mesma, talvez agora pareça um filme triste e assustador, mas pode ser o começo do nosso final feliz.

Percorrendo os mesmos caminhos, sempre chegaremos ao mesmo destino. Agora, diante das reconfigurações necessárias para a volta às aulas, poderemos experimentar novas metodologias, fazer diferente, recomeçar. Não é hora de perder a esperança, é hora de persistir, pois somos plenamente capazes de construir um futuro muito melhor, apesar de...

Meu nome é Danúbia da Costa Teixeira, eu sou mãe de dois filhos maravilhosos, irmã de três pessoas incríveis e filha de pais sensacionais. Além disso, sou Coordenadora do curso de Letras-Português da Faculdade Prominas de Montes Claros, Professora/Tutora da Faculdade Única de Ipatinga e professora da Escola Estadual Alberto Caldeira. Também sou doutoranda em Linguística pela UFMG, mestre em Letras pela Unimontes e especialista em Mídias na Educação pela UFOP.

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