Como uma professora inspirou meu projeto de vida no Ensino Médio

Neste mês especial de homenagem aos professores, a repórter de NOVA ESCOLA Ana Paula Bimbati relembra a docente que marcou sua trajetória na escola

POR:
Ana Paula Bimbati
Foto: Getty Image

Muitas dúvidas sobre o futuro pairavam sob minha cabeça quando estava no Ensino Médio. Estudei toda a vida em escola pública, era boa de Matemática e a minha primeira opção de carreira era Engenharia. Embora o que eu realmente gostasse de fazer fosse escrever e contar histórias, a Engenharia me trazia uma perspectiva de melhor qualidade de vida para mim e para minha família do que o Jornalismo. Mas foi uma conversa com a professora Viviane Sousa, conhecida e chamada carinhosamente de Vivi, da Escola Estadual Vital Fogaça de Almeida, na capital paulista, que me fez acreditar que eu poderia cursar o que eu realmente tinha desejo, mesmo em uma profissão cheia de desafios como a de jornalista.

“Não importa o que você fizer. Você precisa ser boa naquilo que faz e se esforçar muito mais do que os alunos de fora da escola pública”, ela me disse nessa conversa. A frase foi forte, mas ao mesmo tempo, abriu meus olhos para o que eu iria encontrar para fora das paredes da escola.

Depois de mais de 6 anos sem qualquer contato, há algumas semanas nos falamos por telefone. Ao saber minha trajetória e que optei pelo Jornalismo, ela ficou muito feliz. “Fico emocionada, porque às vezes a gente pensa que pode ser apenas uma conversa do dia a dia, mas não é”, disse. Assim como aquela conversa para mim foi uma abertura para pensar meu projeto de vida, muitas outras conversas com professores me ajudaram para além da sala de aula.

Vivi era minha professora de Geografia, uma disciplina que eu não tinha tantos amores durante meu Ensino Médio. Mas sua forma de levar o conteúdo e falar outros temas conectados com a vida prática chamaram minha atenção e faziam com que meu engajamento da aula fosse cada vez maior. Sempre com o cabelo amarrado, livros nas mãos, ela falava com a gente pelos corredores. Relembrando aquela época, vejo que o cuidado com as correções de atividades feitas por mim e meus colegas, sempre trazendo ponderações para aprimorar os nossos textos, se assemelham com o trabalho de edição feito no dia a dia das reportagens jornalísticas que produzimos em NOVA ESCOLA.

No meu reencontro por telefone com a Vivi, também conversamos sobre como foi importante eu ter ouvido que enfrentaria desafios para entrar na universidade, sendo uma aluna de escola pública, que na muitas vezes não possui os mesmos acessos ao ensino superior e mercado de trabalho. “Nem todos os alunos vão fazer faculdade, mas é importante a gente como professor mostrar que ele precisa estar preparado para abraçar as oportunidades que podem surgir”, me contou. Para Vivi, o professor tem um papel muito importante até no lado emocional do aluno. “Hoje, com o ensino a distância, eu tenho percebido ainda mais como é essencial a gente estar próximo do aluno e se tornar acessível mesmo”.

Na ligação descobri que ela virou professora pela “oportunidade de mudar de vida”. No fim do Ensino Médio, a dona de uma casa onde ela trabalhava se ofereceu para pagar sua faculdade na capital paulista. “Ela me disse que só conseguiria pagar o curso de Licenciatura, então, como gostava de Geografia, escolhi essa disciplina”, relembra.

Com a proposta, ela saiu de Santa Bárbara (SP), onde morava com seu pai e seus irmãos, e veio para São Paulo. Vivi me contou que, para ela, o destino escolheu a profissão de ser professora, já que era a única oportunidade de cursar o ensino superior. Ela abraçou a chance e construiu sua carreira como docente. E que sorte a minha e de tantos outros adolescentes tiveram de cruzar nossos caminhos com o dela!

Nos meus últimos dois anos na escola, eu ainda tive a oportunidade de trabalhar com a Vivi. Fui monitora do programa Acessa São Paulo, do governo estadual, e passava 4 horas, no contraturno, cuidando da sala de informática da escola. Foram anos muito importantes para minha formação e que ao final deles pude fechar de uma forma muito gratificante e sempre presente nas minhas memórias: uma festa na escola com meus professores e outros educadores da instituição.

A Vivi, como sempre muito presente nos meus dias escolares, me deu uma caneca com uma imagem de coruja e um bilhete escrito “muito sucesso na sua nova jornada”. Mal eu sabia que depois de alguns anos estaria escrevendo este texto para falar que ela foi muito mais do que uma professora para mim.

Todos os dias os professores acabam, nas palavras, gestos e atitudes abrindo muito mais portas do que imaginam. Feliz dia dos professores para quem, assim como a minha professora, inspira tantos alunos nos seus projetos de vida.

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