Abandono dos estudos na pandemia: desafios de acesso, comunicação e engajamento dos alunos

Com ensino remoto, escolas enfrentam queda de participação das turmas e investem em busca ativa para que os índices de abandono não se tornem evasão

POR:
Ana Paula Bimbati
Foto: Getty Image

Já parou para pensar o que aconteceria se metade dos alunos das turmas em que você é professor desistissem de acompanhar a escola? Foi o que aconteceu na EM Rubens Machado, em Volta Redonda (RJ). Com o passar dos meses da crise sanitária causada pela covid-19, 50% dos 544 estudantes do Ensino Fundamental 2 deixaram de acessar a plataforma utilizada para as aulas a distância ou de retirar o material impresso na escola. E o desafio não se restringe à instituição. A pesquisa “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus", promovida pelo Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), ouviu mais de 33 mil jovens, de 15 a 29 anos, e 30% deles responderam que pensam em deixar a escola depois do isolamento social.

Entre os motivos de abandono dos alunos da Rubens Machado, segundo Marli Silva, diretora da escola, estão a falta de acesso à internet e de equipamentos necessários e a ausência de um acompanhamento mais próximo da família. Muitos usaram a internet de vizinhos para acessar a plataforma de ensino nos primeiros meses, mas com a continuidade da pandemia, foram se desengajando das atividades. “O ensino remoto exige muito mais proatividade e autonomia dos alunos”, explica Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). “E tem uma questão que a parte boa da escola, segundo os jovens, é a socialização. Como esse lado que engaja os adolescentes não está acontecendo na pandemia, isso dificulta ainda mais o cenário”.

Com metade dos alunos distantes da escola, a equipe docente da Rubens Machado criou um plano de busca ativa. “Pensamos em um carro de som, mas como a comunidade tem locais de difícil acesso, optamos por utilizar uma bicicleta”, conta Marli. A escola contratou uma pessoa da região que já passava com a bicicleta e o som para agora chamar atenção dos alunos e das famílias. Para ter uma visão ampla do cenário e poder agir sobre o problema, a gestão tem uma ficha de acompanhamento da situação desses estudantes.

Três ações para uma boa relação entre o professor e a família

Neste curso, a professora e formadora Angela Di Paolo fala sobre três estratégias essenciais para melhorar a relação com as famílias do seu aluno: o acolhimento, a reunião de pais e a comunicação da aprendizagem.

Além disso, a gestão e professores começaram a fazer um trabalho nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, e-mails e ligações diárias buscando se aproximar dos alunos. Hoje, depois de três semanas dos trabalho, a escola atingiu quase 100% de participação nas atividades. Ainda há 36 estudantes que estão inativos, mas o trabalho continua e Marli notifica a secretaria de Educação com dados dos alunos. “É uma sensação de dever cumprido, porque não faz sentido a gente estar aqui e não acreditar que a Educação pode transformar a vida desses estudantes”. Os alunos que não tinham acesso à internet têm a oportunidade de retirar o material impresso na escola. 

Na EE Centro de Ensino em Período Integral Dom Veloso, em Itumbiara (GO), também foi preciso buscar ativamente por cerca de 30% dos alunos do Fundamental 2 e Ensino Médio que estavam afastados da instituição de ensino. Para isso, a escola contou com o apoio das mães e responsáveis, que conversavam com as famílias dos que não estavam participando das atividades online, estimulando uma reaproximação. “A frequência diária era de 70%, hoje mudou para 94%”, conta a diretora Lauricéa Aquino Ramos Vilela.

Ernesto reforça o movimento de busca ativa feito pelas escolas de Lauricéa e Marli é necessário durante a pandemia e que a escola deve ser protagonista neste momento em que os alunos ainda não evadiram. “Existe uma ideia de que é muito mais fácil acionar o conselho tutelar quando uma criança ou adolescente não vai para escola. Mas o direito à Educação não significa apenas ir à escola e sim de estudar, independentemente de onde isso esteja acontecendo”, explica.

Que tipos de atividades mais engajam no ensino remoto?

Nesta edição de NOVA ESCOLA BOX, você pode conferir como melhorar o engajamento da sua turma no ensino remoto com dicas práticas e que podem ser colocadas no seu dia a dia.

O especialista sugere que as redes e escolas criem um sistema de monitoramento para checar presença, quem está participando das aulas e das atividades e também aperfeiçoar a comunicação com as famílias. “É necessário construir um contexto de corresponsabilização”. Assim, além de acompanhar os dados de abandono, a escola pode atuar na busca ativa antes da situação se tornar crítica.

Como fica o planejamento de 2021 para evitar a evasão?
No momento não é possível falar em evasão para os alunos que não estão em contato com a escola, já que o termo está relacionado ao aluno que não realizou sua matrícula no ano letivo seguinte. Já o abandono é sobre o aluno que deixou de frequentar (no caso do ensino remoto, participar) das aulas durante aquele período. Então, para evitar que o abandono se torne evasão, especialistas sugerem que as escolas comecem um trabalho desde agora. 

Com a experiência atual de engajamento nas redes sociais e o investimento nas visitas de bicicleta, Marli conta que a escola vai continuar testando ações, principalmente para evitar a evasão dos alunos de 9º ano, que estão na transição para o Ensino Médio. Uma das chaves para o planejamento, segundo ela, é a fortalecer a comunicação com os pais e responsáveis.

Assim como de costume, a avaliação diagnóstica já está na lista de coisas a serem feitas na EM Rubens Machado como próximos passos. Ernesto sugere também pelo contexto atual de isolamento social que as escolas incluam perguntas relacionadas às socioemocionais para ajudar a entender a situação dos alunos e o que eles estão passando neste período.

Como conduzir o retorno às aulas presenciais?

Muitas perguntas surgem no debate da reabertura das escolas. Neste curso, você vai saber como acolher os estudantes diante das experiências que viveram, de que forma pode envolver as famílias e o grupo de professores para fortalecer a escola e muito mais. 

Para Lauricéa, a empatia agora e no ano letivo de 2021 será essencial para manter os alunos próximos. “Mas deve ser feita de verdade. Preciso me colocar no outro e entender, por exemplo, quando a internet cai. O que eu posso fazer para ajudar esse jovem?”, pontua. Para ela, esta é a pergunta que as escolas terão que se fazer para evitar que a evasão de torne um problema crônico no próximo ano.

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