Ensino de Inglês no Brasil: hora de quebrar os modelos ideais no trabalho com speaking

Conheça o trabalho de alguns professores que estão atuando para ‘regionalizar’ o ensino de Língua Inglesa, e assim, impulsionar a aprendizagem dos estudantes da rede pública brasileira

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images

“Há oito anos, eu estive nos Estados Unidos. Nessa experiência, durante uma aula de conversação ao lado de outros professores brasileiros de Inglês – ou seja, todos com um nível razoável no idioma –, um professor americano simplesmente falou que achava o sotaque do brasileiro horrível”. O relato é da professora Ana Claudia Santos Dalla Corte, da cidade de Ubiratã (PR), que leciona inglês há quase 22 anos na rede estadual do Paraná e professora-autora do Material Educacional Nova Escola Skills for Prosperity.

Embora o grupo já fosse maduro, a situação foi chata. “Agora, imagine algo assim acontecendo com um adolescente que está aprendendo, especialmente na escola pública, e que ouve, por exemplo, um professor ou mesmo um colega virar e falar ‘nossa o seu sotaque é horrível’”, compara Ana Claudia. Apesar das promessas de alcançar uma pronuncia perfeita, ela não existe. Há inúmeras variações de uso da língua até mesmo entre os nativos. Estudar pronúncia é importante, mas uma comunicação efetiva vai muito além dessa habilidade.

A reflexão da educadora paranaense sobre sua experiência num país estrangeiro vai ao encontro de algumas das grandes questões que envolvem o ensino de Língua Inglesa nas escolas públicas brasileiras. Afinal, aprender um novo idioma já é desafiador por si só – e uma cobrança para falar um Inglês igual ou próximo ao de um falante nativo, pode desestimular os alunos em seus estudos.

Inglês, uma língua global
De acordo com Telma Gimenez, professora sênior no programa de pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL), já faz muito tempo que os estudiosos se debruçam sobre a questão do Inglês ser analisado sob o viés de uma língua universal, e não uma mera língua estrangeira. Sob essa perspectiva, portanto, seu ensino poderia ter um foco maior na inteligibilidade (compreensão enquanto falantes de línguas nativas diferentes) do que em uma variedade específica do idioma. “Isso significa que o foco do ensino não é ensinar o estudante a interagir com falantes nativos, adotando a pronúncia ou as práticas culturais deles, mas sim, ensinar a interagir com falantes de diferentes contextos linguístico-culturais”, explica Telma. Com isso, a educadora aponta que o ensino dá mais ênfase às estratégias que contribuem para alcançar a comunicação, mesmo que não se adequem totalmente a um determinado padrão.

Esse olhar para um “Inglês global” se relaciona com a abordagem denominada Inglês como Língua Franca (ILF), muito trabalhada dentro dos Estudos da Linguagem. “O ILF procura mostrar a diversidade na Língua Inglesa, ampliando as possibilidades de compreensão dos aprendizes sobre os modos como o Inglês é usado hoje em dia em diferentes contextos”, diz Telma. Apesar de o sotaque ser comumente mencionado quando pensamos na abordagem do Inglês como Língua Franca, ela também inclui tópicos como variantes linguísticas, multiletramentos, competência comunicativa e, especialmente, competência intercultural. Com o reconhecimento da diversidade linguística, os estudantes podem se enxergar como legítimos usuários da língua.

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Como transpor para o dia a dia do professor?
“É importante construir no repertório dos estudantes que estabelecer comunicação em Língua Inglesa, entre nativos ou entre pessoas de diversas nacionalidades, é o nosso objetivo maior”, pontua Thaysa Tobias, professora na rede estadual em Amambai (MS) e também professora-autora do Material Educacional Nova Escola de Língua Inglesa. “Assim, por exemplo, o estudante não deve se sentir frustrado ao falhar em determinadas pronúncias. Cabe ao professor incentivá-lo e frisar os conceitos em torno do ILF”.

A educadora tem apenas 22 anos, mas leciona inglês desde 2015 e conta que já presenciou, no início de sua carreira, uma situação em que um professor gastou um bom tempo tentando corrigir um estudante carioca que não conseguia pronunciar o ‘r’ parecido com o de um nativo da Língua Inglesa. Na época, Thaysa também acreditava que os alunos deveriam aprender a pronunciar as palavras de maneira “perfeita”. Foi na graduação que compreendeu o Inglês como um idioma universal. “E as pessoas de diversas nacionalidades carregam consigo seus sotaques e isso não é um problema, pois a comunicação acontece sem perdas”, aponta a professora. “Hoje, penso que o tempo perdido naquela aula, além da vergonha pela qual o estudante passou, poderia ter sido substituído por mais aprendizado, por exemplo, discutindo sobre o conteúdo em estudo”.

E esse preconceito linguístico não se restringe apenas aos estudantes. Em Caruaru (PE), Sérgio Ramone, leciona Língua Inglesa na rede estadual, atua com formação de professores na rede municipal e é professor-autor do Material Educacional Nova Escola de Língua Inglesa, já passou por situações de críticas envolvendo seu sotaque nordestino. “Não digo necessariamente que fui discriminado, mas na primeira vez que eu viajei para o Canadá para fazer um curso, ouvi muito de professores e colegas comentários como ‘seu inglês é muito legal, mas seu ‘accent’ [sotaque] é muito forte, precisa melhorar isso para se comunicar’”, relembra.

Assim, o professor comenta que experiências como essa ajudaram-no já desde o início da carreira a construir, aos poucos, essa visão de um inglês universal. “Nas aulas, eu explico que devemos procurar ter uma pronúncia legal, que não gere interpretações, e ensino a pronúncia ‘certa’, mas deixando claro que o aluno vai conseguir se comunicar com sua própria pronúncia, com o seu sotaque”, diz Sérgio. Apesar disso, Patrícia Rabelo de Oliveira, professora na rede estadual de Macapá (AP), ressalta que conhecimento lexical e gramatical da língua e reconhecer mal-entendidos induzidos pela cultura também fazem parte da aprendizagem. “Mas o ILF é uma abordagem que ajuda a construir um ensino de Inglês menos influenciado pelo padrão nativo, rompendo, inclusive, com um modelo que era exigido quando nós, professores, éramos estudantes do idioma”, diz a docente que também integra o time de professores-autores do Material Educacional Nova Escola de Língua Inglesa.

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E como fica a qualidade do ensino?
Por fim, essa mudança de perspectiva pode eventualmente provocar uma dúvida: romper com esse padrão de Inglês nativo significa que estamos diminuindo a qualidade do Inglês ensinado nas escolas públicas brasileiras? A professora sênior de Estudos da Linguagem, Telma Gimenez, considera esse um falso dilema. “Infelizmente, ainda é bastante arraigada a ideia de que se falarmos como nativos, seremos bem-sucedidos. Precisamos desconstruir a ideia de que ‘inglês de padrão nativo’ é sinônimo de qualidade”, enfatiza a especialista. Nesta perspectiva, a qualidade pode estar, por exemplo, na preparação dos estudantes para lidar com situações de comunicação em contextos multilíngues.