Prêmio Educador Nota 10: conheça indicações literárias dos professores vencedores de 2020

Paulo Freire e Clarice Lispector estão entre as sugestões

POR:
Camila Cecílio
Os dez vencedores do Prêmio Educador Nota 10. Fotos: Nidiacris Ribeiro/Trupe Filmes

Quais os livros marcaram a trajetória de um Educador Nota 10? Quais obras fazem parte de sua estante e qual é o título que não sai de sua cabeceira de jeito nenhum? Essas foram algumas das perguntas feitas aos dez vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2020, anunciados em julho. Assim como os premiados de 2019, os educadores falaram sobre as leituras que serviram de inspiração em suas jornadas para a coluna literária dessa semana.

O Prêmio Educador Nota 10 é uma iniciativa da Fundação Victor Civita em parceria com a Fundação Roberto Marinho, com apoio da NOVA ESCOLA, Instituto Rodrigo Mendes e Unicef, e patrocínio da Fundação Lemann (mantenedora de NOVA ESCOLA), e BDO e da Somos Educação. Os projetos inscritos são avaliados pela Academia de Selecionadores e Jurados, composta por especialistas em cada área do conhecimento.

Conheça os projetos vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2020

Neste Nova Escola Box, você pode saber mais sobre todos os projetos desenvolvidos pelos 10 vencedores do Prêmio. 

Conheça os livros que marcaram os dez Educadores Nota 10 de 2020:  

Livro: “Volta ao Mundo em 13 escolas – Sinais do Futuro no Presente”, de Coletivo Educação
Quem indica: Lucia Cristina Cortez de Barros Santos, diretora na EM Professor Waldir Garcia, em Manaus (AM)
“Este livro foi um presente que ganhei num momento em que estava pesquisando sobre práticas educativas inovadoras no Brasil, pois queria mudar a minha prática pedagógica. A leitura é um convite para embarcarmos numa viagem pelos cinco continentes através das experiências de 13 escolas que trabalham com concepções de uma educação transformadora a partir dos pilares da criatividade, autonomia, empreendedorismo, empoderamento, diversidade dos espaços de aprendizagem, diálogo, convivência, confiança, respeito mútuo e desenvolvimento pessoal. Ele foi fundamental para que eu conhecesse diferentes experiências educacionais no Brasil e no mundo, que trabalhavam com novas metodologias, as quais me inspiraram muito para dar o pontapé inicial, quebrar paradigmas e mudar a escola. Após a leitura, viajamos num intercâmbio a São Paulo para fazermos uma imersão nas escolas públicas brasileiras citadas na obra, o CIEJA Campo Limpo e a Escola Amorim Lima e Politeia, as quais não conhecia. Recomendo este livro para todos que sonham com uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, pois é possível mudar a escola, melhorar a Educação e transformar vidas.”

 

Livro: “O amor é um pássaro vermelho”, de Lucilia Junqueira de Almeida Prado
Quem indica: Rita Mozetti Silva, professora na Escola Estadual Adalgisa de São José Gualtiéri, em Franca (SP)
“Sempre soube que não há quem não goste de ler, apenas há quem ainda não encontrou o livro ideal que tenha despertado o interesse pela leitura. E este foi o primeiro livro que li inteiro e me encantei. Li quando tinha por volta de 12 anos de idade e nunca mais me separei dele. Fez com que eu desejasse conhecer o Japão, mas ainda não concretizei. Recordo-me que, na ocasião, entrei em contato com a escritora através de uma carta que enviei pelo correio. Logo recebi a resposta e um livro de presente: “Uma rua como aquela” da mesma autora.Como não se apaixonar assim pela leitura literária, não é mesmo? Ter me correspondido com a autora fez toda a diferença. A história aborda questões sobre as diferenças comportamentais, culturais e os costumes existentes entre os dois países. A cada detalhe é possível sentir emoção e toda sensibilização com as dificuldades que os imigrantes enfrentam.” 

Livro: “Ensinando a transgredir: A Educação como prática de liberdade”, de Bell Hooks
Quem indica: Lidiane Pereira da Silva Lima, professora na EMEF Anna Silveira Pedreira, em São Paulo (SP)
“Esse é um livro que me inspira e provoca uma revolução na nossa forma de pensar a Educação. Glória  (nome de batismo da autora), na infância, foi educada por professores negros numa escola para negros e essa experiência servirá de farol para os conceitos de pedagogia engajada que vem a desenvolver posteriormente. Como um ato contra-hegemônico de corpos que eram subjugados por um sistema de supremacia branca, a pedagogia empregada era revolucionária e anticolonial. ell Hooks vai defender em seu livro a importância de resgatarmos histórias alternativas, adotarmos um ponto de vista em nossas aulas que inclua raça, gênero e classe social, abraçarmos o multiculturalismo como forma de descentralizar o pensamento. Me encanto na leitura deste livro, porque compatilho da urgência em descobrir novos conhecimentos que nos apresentem alternativas para adiar o fim do mundo, saídas para a construção de um futuro multicêntrico em que barraremos o genocídio, a necropolítica, o desmatamento, governos autoritários. Só assim, ouvindo essas vozes insurgentes e trazendo-as para a Educação, instituição que têm o poder de legitimar saberes, poderemos construir um outro projeto de sociedade em que todas as existências coexistam sem serem atravessadas por uma relação vertical que precisa excluir alguns para que um determinado grupo se afirme.”

Livro: “Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática docente”, de Paulo Freire
Quem indica: Mirtes Ramos dos Santos Melo, professora na Creche Municipal João Eugênio, no Recife (PE)
“Esse livro nos mostra que para ensinar, precisamos estar dispostos a aprender. Nos mostra também que é necessário valorizar a cultura, os saberes daqueles que estão sob nossa responsabilidade profissional, trazendo esses saberes para o centro do processo de ensino e aprendizagem.”
Também foi indicado por: Suzi Dornelas, professora na Escola Estadual Professor José Ranieri, em Bauru (SP)
“A primorosa obra de Paulo Freire se tornou um livro de cabeceira para mim como educadora. Ele tem inspirado e referenciado minha atuação pedagógica há muitos anos, mostrando que para ensinar o/a educador/a precisa ter amorosidade e esperança. Em momentos desafiadores e turbulentos é nele que encontro o conforto para continuar acreditando em uma Educação respeitosa e transformadora, sempre valorizando os/as educando/as como o centro do processo educativo. Viva Paulo Freire!” 

Por que diversificar os autores que apresenta para os alunos?

Neste Nova Escola Box, entenderá como incentivar o interesse dos alunos pela leitura ao propor experiências literárias diversas com livros de diferentes gêneros literários escritos por mulheres 

Livro: “A hora da estrela”, de Clarice Lispector
Quem indica: Camila Josefa Nunes Rossato, professora na EMEF Prof. Marina Melander Coutinho, em São Paulo (SP)
“O primeiro contato com texto de Clarice aconteceu por meio do filme de Suzana Amaral, que recebe o mesmo nome do meu livro indicado. Eu estava no Ensino Médio e uma professora o escolheu para fazermos um trabalho para sua aula. Fiquei tão impactada com a história de Macabéa, que me impulsionou a ler o livro e indicar para as pessoas sempre que posso. Penso que a personagem representa as fragilidades dos grupos excluídos pela sociedade e também dialoga com uma parte de nós, composta por nossas inseguranças e sonhos. Texto profundo e sensível.” 

Livro: “O Homem que Calculava”, de Malba Tahan
Quem indica: Luiz Felipe Lins, professor na Escola Municipal Francis Hime, no Rio de Janeiro
“Quando eu tinha 15 anos, no Ensino Médio, esse livro foi indicado pela escola e para minha surpresa trazia uma matemática instigante, interessante e lúdica. Os problemas podiam ser resolvidos por meio de raciocínio, não apenas por fórmulas e procedimentos técnicos matemáticos, como os que eu resolvia na escola. Com sua primeira edição em 1938, posso dizer que ele foi o precursor de uma matemática aplicada em situações do dia a dia. E tem também a curiosidade sobre o autor que usava o pseudônimo Malba Tahan e mais tarde o mundo descobriu que ele era brasileiro.” 

Livro: “O Espaço do Cidadão”, de Milton Santos
Quem indica: Diogo Jordão Silva, professor na CE Nelson Pereira Rebel, no distrito de Travessão, em Campos dos Goytacazes (RJ)
“Nesta obra, o professor Milton Santos nos convida a refletir sobre o que é ser cidadão no Brasil e, assim, construir um modelo cívico-territorial onde a organização e gestão do espaço atribuam justiça social para toda a população, independente de onde o indivíduo estiver. Em um país marcado por enormes desigualdades e injustiças, o livro me inspira a uma prática pedagógica que contribua na formação de cidadãos mais conscientes e compromissados com o bem comum, pois como afirma Milton Santos, a finalidade da Educação é a de formar gente capaz de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo.”

Livro: Olhos d’água, de Conceição Evaristo
Quem indica: Maria Isabel Gonçalves, professora no Colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal (BA)
“Conceição Evaristo abre as vozes e gritos silenciados, vozes-mulheres, nossas vozes, as vozes de nossas mães, avós e de nossos filhos marcados para morrer. Em Olhos d'água, no agonizar de cada linha traçada, vemos o grito sufocado dos nossos, vemos a violação da vida, o sonho interrompido à queima-roupa, mesmo quando “combinamos em não morrer”. E com a voz preta que narra, perguntamo-nos também: de que cor eram os olhos de nossa mãe? É a pergunta certeira que vem feito advertência: O que fizeram de nós que nos perdemos por completo assim? De que cor serão os olhos daqueles que estampam as manchetes todos os dias? Esta cor é traçada por Conceição Evaristo em cada linha, são olhos d’água, no gozo-pranto da vida que nos roubam a cada dia. Este grito poético é de grande inspiração para a nossa jornada decolonial.”

Livro: “A Lógica do Cisne Negro”, de Nassim Taleb
Quem indica: André Luís Miranda de Barcellos Coelho, professor na Escola SEB Dínatos, em Brasília
“Este é um daqueles livros que quando encontramos não conseguimos parar de ler. Neste caso, para mim, o motivo foi um maravilhamento pelas ideias expostas com tanta destreza. Poucas ideias eram realmente novas para mim, mas a maior parte delas não se relacionavam da forma que Taleb foi capaz de fazer. Eu não gosto muito de contar demais sobre uma obra porque acho que estraga as surpresas de cada leitor, então me limito a dizer que este livro é um daqueles da estirpe de "Sapiens: Uma breve história da humanidade", de Yuval Harari, que nos faz repensar profundamente nossa vida e escolhas.”

Fotos: Nidiacris Ribeiro/Trupe Filmes Composição: Duda Oliva

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