Cultura do cancelamento: como levar o tema para sua aula de Língua Portuguesa?

Saiba como relacionar o assunto com a BNCC e trabalhar temas como argumentação, liberdade de expressão e discurso de ódio na internet

POR:
Ana Paula Bimbati
Foto: Getty Image

Se você é um usuário assíduo das redes sociais, é provável que já tenha acompanhado, comentado ou até mesmo participado do cancelamento de alguém por uma atitude, fala ou situação questionável em que a pessoa se envolveu. Na internet ou fora dela, a cultura do cancelamento rende discussões constantes sobre narrativas, comportamentos, o que é liberdade de expressão e o que é discurso de ódio. Assuntos que podem dialogar bastante com a sala de aula e com habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Exercício de argumentação com os alunos usando esse assunto, gêneros textuais e o entendimento da escrita como resultado de uma prática social são alguns exemplos possíveis”, sugere a formadora Mayssara Oliveira, da rede pública do Distrito Federal.

Para entender o cancelamento na internet e começar a conversa
Eleita como termo do ano de 2019 pelo Dicionário Macquarie, da Austrália, a “cultura do cancelamento” surgiu como uma demanda de justiça social que boicota pessoas e instituições que se envolvem em, por exemplo, casos de violência, racismo, homofobia e outros temas socialmente sensíveis. Ou seja, se alguém disse ou tomou alguma atitude que viole os direitos humanos, que seja preconceituosa ou questionável socialmente, o assunto é reverberado expondo a pessoa ou instituição. O ato pode se tornar um linchamento virtual de forma a receber uma chuva de comentários, críticas e até ameaças; perder seguidores ou contatos importantes; e, em alguns casos, sofrer demissão ou ter trabalhos de publicidade descontinuados por ter sua imagem associada à temas controversos.

Polêmica em sala de aula: estratégias para vencer o medo

Veja nesse curso gratuito de NOVA ESCOLA como é possível encontrar maneiras de promover debates e equilibrar as diversas visões sobre assuntos difíceis de lidar. Seguir a BNCC e pautar o trabalho pelo viés científico são caminhos importantes. 

“Hoje esse movimento aponta para uma falta de tolerância, de mostrar indignação de forma primitiva e que rompe com o diálogo, que é essencial dentro de uma sociedade democrática”, explica Flávia Vivaldi, doutora em Educação e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem). Para a especialista é importante notar, por exemplo, quando o cancelamento passa acontecer apenas por parte de pessoas que são diferentes de você, tem opiniões opostas, ou seja, onde o diálogo não acontece e, sim, apenas a exclusão. E, para começar essa conversa na escola, Mayssara sugere que os professores pesquisem e selecionem textos sobre o tema ou assuntos derivados do cancelamento para compartilhar com os alunos. Ela ressalta a importância de pescar produção textuais com ideias plurais, “mas que respeitem os direitos humanos e a construção de uma sociedade justa”.

Referências para usar na sua pesquisa

Além de textos sobre cancelamento, reportagens de jornais diversos, você, professor, pode navegar por sites como SaferNet, a biblioteca do GEPEM para encontrar conteúdos que vão te ajudar na pesquisa de materiais. Aqui, você também pode conhecer livros que falem sobre a cultura do cancelamento.

Trazer e pedir exemplos reais de cancelamento de pessoas próximas do universo dos alunos pode ajudar no engajamento do tema com a sala. “O debate, sempre rende discussões interessantes, quando trazido dessa perspectiva de algo que chame atenção dos alunos”, indica Cristiane Dias, professora de Língua Portuguesa da EEF Professor Lapagesse, em Criciúma (SC). Mas, um outro jeito de colocar essa atividade de pé é dividir a sala em dois grupos, um pró e outro contra sobre determinado assunto e sugerir aos alunos que eles tentem convencer o grupo oposto. “Com isso, eles podem, por exemplo, exercitar a argumentação, depois de pesquisas e conversas”.

Para aprofundar a discussão e conectar temas
“Depois que a turma debater as ideias em grupos, você pode sugerir a construção de um material de acordo com o interesse do aluno”, explica Mayssara. Vale explorar nesses interesses tanto temas que se conectem com a discussão, quanto produções de formatos como podcast, poesia ou mesmo posts em redes sociais. Por se tratar de um assunto sensível, vale também criar um ambiente em que os estudantes se sintam seguros para expor suas ideias. Isso acontece, segundo a formadora, quando o professor também oferece conteúdos plurais como materiais disparadores para as discussões.

Durante a atividade, o professor também tem um papel de levar o aluno a perceber “nuances e sutilezas” que acontecem nesse processo do cancelamento. “Então, é um espaço pra gente discutir também a liberdade de expressão e que isso é um direito, mas há limites e eles acabam quando começa o discurso de ódio”, pontua a professora de redação Ana Paula Severiano, do Colégio Stockler, em São Paulo (SP).

O que a BNCC fala sobre argumentar?

“Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta", é o que diz uma das competências gerais da Educação Básica no documento. 

Além disso, segundo Mayssara, a partir do 2º ano do Ensino Fundamental 1, a Base já fala sobre analisar fatos e opiniões em jornais, por exemplo. Ou seja, é possível trabalhar os temas a partir dos Anos Iniciais em diferentes níveis, levando em consideração a maturidade dos alunos. 

O conteúdo também está relacionado a cultura digital, prevista na BNCC, e é uma oportunidade, como o prevê o documento, de trabalhar a educação integral do aluno. “A gente começa a desenvolver a atuação ética do indivíduo, porque além de aprender a argumentar, vamos levar esse aluno para pensar sobre aquilo também e a construir seu pensamento crítico”, afirma Ana Paula.

É possível relacionar o tema com a diferenciação de fato e opinião apresentando textos jornalísticos e deixando os próprios alunos, em grupos, por exemplo, tentarem enxergar as particularidades de cada texto. “Colocar os estudantes para pesquisar, por exemplo, quem falou aquilo que foi publicado, quais são os argumentos que as pessoas têm usado e quais são as opiniões apresentadas”, explica a professora de Língua Portuguesa Cristiane.

Sem medo de falar sobre polêmicas e tabus

Nesta edição de NOVA ESCOLA BOX, você pode conferir como planejar e propor aulas para trabalhar com temas polêmicos e tabus, usando estratégias que proporcionem a participação ativa dos alunos. Democracia e sexualidade estão entre os assuntos.

No ensino remoto, você pode fazer uma votação por Google Formulários (Forms) ou uma enquete no Facebook para levantar os temas que serão discutidos. Depois, é possível dividir os grupos em WhatsApp (ou no Google Hangouts, se as aulas forem síncronas) e depois preparar um momento em que os grupos se encontrem simultaneamente para exercitar a argumentação com toda a turma. Caso não seja possível o encontro com a turma, outra possibilidade é o envio de vídeos ou áudios que sustentem os pontos de argumentação trazidos pelos alunos.

“Quando você traz uma pauta como essa para trabalhar com a sala, faz uma relação coerente de competências e habilidades, é um resultado extremamente benéfico. A escola precisa levar o aluno a pensar sobre o que faz”, pontua Flávia. Quando isso acontece, a aprendizagem também agrega significado para realidade dos alunos.

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