A reinvenção da prática para incentivar experiências das crianças em casa

Intencionalidade pedagógica bem definida aliada a atividades atraentes para crianças e famílias são muito importantes na hora de pensar nas propostas a distância

POR:
Evandro Tortora
Já pensou em desenhar nas cascas dos ovos? Gabriel e sua mãe assim fizeram. Foto: Acervo Pessoal/Evandro Tortora 

Ao longo desse período de pandemia, levantamos uma série de discussões sobre como nos relacionar com crianças e famílias a distância. Desde meados de março/abril, desenvolvemos uma série de ações para levar às crianças algumas propostas em que a instituição de Educação Infantil se faça presente na educação das crianças, ainda que não seja presencialmente. 

Acredito que todos nós sofremos quando fomos privados de alguns dos elementos que mais prezamos para a educação das crianças como os encontros, afetos, interações, brincadeiras... esses elementos eram alguns dos mais vívidos nos nossos planejamentos. Com esse novo momento que estamos passando, tenho compartilhado experiências com professoras e professores que estão se reinventando e apresentando outras soluções para conseguir levar às crianças algumas ações de qualidade.  

Confira planos de atividade para uso a distância
alinhados à BNCC de Educação Infantil

Mas o que seria uma ação de qualidade para esse período? Na minha concepção, trata-se de uma proposta não apenas muito bem definida em sua intencionalidade pedagógica, mas também aquela que as famílias acolhem e podem reconhecer nela possibilidades educativas e atraentes para serem desenvolvidas com as crianças. Ainda, deve ser uma proposta que tenha significado para as crianças e que, de alguma forma, considere a singularidade dos pequenos em sua elaboração. 

Pensar em um planejamento nesse contexto é desafiador, não? De certa forma ainda estamos aprendendo a planejar nesse contexto. Quantas vezes, nesse período de pandemia, professores propuseram uma “superatividade” com aqueles objetivos claros e muito bem construídos, mas as famílias não abraçaram a proposta. 

Contextos familiares

O que será que pode ter acontecido? Cada contexto, de cada família, pode ser estudado para entender essas razões e, assim,  é possível responder essa pergunta de diferentes formas. Devemos considerar que, nesse momento, serão as mães, pais, avós, irmãos... Alguém que cuida das crianças será aquele que irá mediar nossas ações com as crianças. Essa pessoa, de alguma forma, precisa ser considerada dentro de nossas ações.   

Por isso é tão importante sermos sensíveis e ouvirmos as famílias nesse período. Precisamos refletir sobre nossas propostas frente às diferentes realidades. Há famílias que trabalham o dia todo e que podem não levar as vivências propostas às crianças dentro das mesmas condições que famílias que passam o dia todo com os pequenos. Ouvir as duas realidades e planejar contextos significativos para ambos os casos é um desafio que tenho colocado a mim mesmo e tem me ajudado a interagir de maneira singular com cada família considerando que nenhuma criança pode ficar de fora dessas ações. 

Logicamente que há de se considerar que nós, professoras e professores, podemos chegar até onde “nossas pernas podem ir”. Por exemplo, no caso de famílias que realmente não respondem ao contato realizado por nós. Ou, ainda, em situações em que nossos coordenadores/orientadores pedagógicos e diretores(as) são necessários para dialogar com as famílias e nos auxiliar. Inclui-se também o papel do poder público em dar suporte às nossas ações pedagógicas oferecendo recursos para que sejam possíveis de ser executadas. Porém, aqui no texto, gostaria de me ater a algo que, ao meu ver, é possível ser desenvolvido por nós, docentes. 

Gostaria de compartilhar com vocês algumas percepções desse movimento de interação com as famílias e de perceber suas singularidades. 

A casa como espaço de experiências

Uma boa forma de cativar as famílias para a execução de algumas propostas que tenho feito às crianças é mostrar as aprendizagens que tais atividades podem surtir. Nessa trajetória, podemos pensar na casa das crianças como um ambiente muito propício para várias aprendizagens e trata-se de um ambiente que pode proporcionar diferentes experiências. 

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nos coloca o desafio de propor um planejamento voltado para a experiência. Logo, cabe aqui uma reflexão sobre esses campos e quais experiências as crianças podem ter em suas casas. Você já fez o exercício de refletir sobre como os campos de experiência podem se fazer presentes no dia a dia das crianças longe das escolas?

O Eu, o Outro e o Nós: Esse campo envolve um conjunto de ações ligadas a questões de identidade, seja numa dimensão pessoal ou de grupo. Esse campo ressalta o quão importante é a criança ser considerada como um ser social que faz parte de um coletivo, convive com regras, com elementos da cultura etc. Em casa, as crianças podem ser envolvidas em situações que ressaltem essas características quando divide experiências vividas com sua família, participa de jogos envolvendo regras, partilha momentos de sua alimentação, conversa sobre a importância do distanciamento social, dialoga sobre hábitos da vida cotidiana atual, como o uso de máscaras, por exemplo. No próprio movimento de compartilhamento de sua vida cotidiana dentro das redes sociais, observando uns aos outros, elas se descobrem como diferentes e lidando com problemas semelhantes. 

Corpo, gestos, movimentos: As crianças brincam, cantam, dançam e se divertem tanto na escola quanto fora dela! Esse campo de experiência pode servir para planejar ações que versem sobre essas atividades tão queridas pelas crianças e, ainda, possam ampliar seu repertório quanto às músicas e danças já conhecidas. Você já sugeriu que as crianças degustassem uma música? Não se trata de usar música para “ensinar algo”, mas para realmente senti-la e desenvolver um gosto por ela dentro da multiplicidade de afetos que elas podem causar, o que pode ser externado nos gestos, movimentos, danças, olhares, sorrisos, choros, silêncios...

Traços, sons, cores e formas: Outro campo com uma grande possibilidade de fazeres! O mais natural é pensarmos nesse campo com aquele que oferta experiências com a pintura, desenho, música e escrita. Porém, pense em como tudo isso pode ser desenvolvido dentro de casa... Quem nunca desenhou no espelho do banheiro que fica embaçado após um banho quente, por exemplo? Ou ficou tão empolgado com uma música nova que não parava de cantá-la? Sem falar nas próprias experiências com tintas e desenhos com materiais que a própria escola poderia fornecer às famílias. São ações que podem ser propostas pelo professor ou compartilhadas espontaneamente pela turma! 

Uma das minhas crianças compartilhou comigo uma experiência que achei bem interessante e ilustra essa coluna. Já pensou em desenhar nas cascas dos ovos? Gabriel e sua mãe assim fizeram e logo compartilharam comigo! Pensem na coordenação motora que envolve desenhar numa superfície não plana e delicada como a casca do ovo e na diversão ao criar essas diferentes carinhas! smile

Escuta, fala, pensamento e imaginação: Ouvir e contar histórias, pelos adultos e pelas crianças são ações que mais me vem à mente quando penso nesse campo de experiência. Tenho produzido alguns vídeos com contação de histórias para minhas crianças e sugerido várias leituras aos pequenos. Tudo isso acompanhado de uma breve explicação às famílias sobre a importância desses momentos para a formação de um leitor. Mas, logicamente, esse campo envolve outras tantas ações que abrangem também as brincadeiras e o faz de conta, algo  fundamental para as infâncias! 

Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações: Esse campo envolve diversas experiências que podem surgir da observação e da ação das crianças em quase todos os lugares da casa! Veja esse relato:

“Pela janela eu consigo ver o céu e descrever o que há por lá... Será que meu céu aqui é diferente do seu céu? Pode me mandar uma foto descrevendo o que há no ‘seu céu’?”

Descrever o movimento das nuvens, a posição do sol, se há pássaros voando foram algumas das falas que minhas crianças compartilharam comigo. Logo, percebemos que os elementos observáveis ao olhar para o céu mudam ao sabor do vento, por exemplo.

Além dessa vivência, há tantas outras que podem ser exploradas com a crianças dentro desse campo de experiência em todos os cômodos da casa! A cozinha, por exemplo, é quase que um laboratório com a quantidade de transformações que acontecem ali. Fazer uma receita com as crianças, por exemplo, e compartilhar as mudanças que ocorrem nos alimentos durante seu preparo, ingestão e descarte das sobras proporciona uma gama de saberes.

Citados os cinco campos de experiência, ainda devemos deixar espaço para que outras experiências (talvez tidas como “próprias de outros campos”) possam surgir das mesmas vivências. Lembram-se da experiência de desenhar no espelho embaçado do banheiro? Surgem outras questões daí... “Por que ele está embaçado?  Por que o espelho só fica embaçado quando tomamos banho quente? Se aquilo no espelho embaçado é água, como ela foi parar ali?”. Percebam que surgem outras propostas da mesma vivência, as quais podem ser sugeridas pelas crianças, pela professora ou pelo próprio movimento singular de cada família. 

Enfim, essas são algumas reflexões que tenho tido sobre essa nova forma de planejar e considerar as necessidades de algumas famílias e crianças. Acredito que todos nós estamos nesse movimento de aprendizagem juntos e tais reflexões devem continuar acontecendo tanto individualmente como dentro dos nossos encontros para planejamento coletivo em nossas instituições. 

Tenho ouvido por aí que nosso ano letivo com as crianças foi “perdido”. Acredito que precisamos  ter um outro olhar! Perante as circunstância atuais, encontramos novas formas de aprender e, a partir delas, outras aprendizagens, frutos das circunstância atuais, vem acontecendo. 

Um abraço carinhoso e até breve! 

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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