BNCC: como priorizar as aprendizagens de 2020 e 2021?

Confira a sugestão dos especialistas para selecionar habilidades que deve ser garantidas no ano letivo

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

“Não dá para dar tudo. Neste ano, será preciso elencar ideias fundamentais", afirma Nilson José Machado, livre-docente na área de Epistemologia e Didática, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e professor titular na mesma instituição. Após meses de pandemia, a flexibilização e conexão dos currículos de 2020 e 2021 é uma das estratégias que têm sido apontadas como caminhos possíveis para garantir a aprendizagem dos alunos em um ano em que o acesso à escola ficou comprometido.

Esta flexibilização, chamada de currículo contínuo, permitirá que habilidades e conteúdos que não puderam ser contemplados em 2020 (ou que precisam ser aprofundados) sejam retomados no próximo ano. Por isso, um exercício necessário é mapear as aprendizagens a serem garantidas e reorganizadas nesse currículo bianual. Para Nilson, o foco do planejamento deveria estar naquilo que chama de ideias fundamentais. "Em cada ano é possível selecionar algumas [para trabalhar], mas, ao final, todas devem ser desenvolvidas", explica Nilson. Para saber se um conteúdo entra na categoria de ideias fundamentais, ele sugere refletir sobre três aspectos:

1) Conexão com a vida real: você consegue explicar o significado e importância do conteúdo de uma forma que qualquer pessoa possa entender sua aplicabilidade prática? É provavelmente já tenha se deparado com a pergunta "Professor, mas quando eu vou usar isso na minha vida? Para quê preciso aprender isso?", se não souber responder essa pergunta para a família ou para o aluno, para Nilson, não se trata de uma ideia essencial.

2) Articulação com outros objetos de estudo: aquele conceito se relaciona com outros conteúdos da sua disciplina? "Se ele é sozinho, não é fundamental. O fundamento irradia todo o conteúdo. Temas isolados são curiosidade", explica Nilson.

3) Diálogo com outros componentes curriculares:

"Nenhuma ideia fundamental nasce dentro de uma matéria, elas pulam, tem ressonância com outras disciplinas", explica o livre-docente. Portanto, se não tiver interações com outras áreas, não se trata de um conteúdo essencial.

Nilson explica que não há problema trabalhar conteúdos para além das ideias fundamentais, mas a priorização do professor deve estar baseado nelas, tratando os outros conhecimentos como complementares. "Nenhuma disciplina é dispensável, mas cuidar das ideias fundamentais é a forma de recuperar o significado dos conteúdos", explica.

Em sua área de formação, a Matemática, ele identificou um conjunto de 12 ideias fundamentais que devem ser desenvolvidas para a formação integral do aluno ao longo da Educação Básica. Em cada ano escolar, o professor pode selecionar um conjunto de habilidades que se conectem com essas 12 ideias para trabalhar as aprendizagens prioritárias. Por exemplo, um dos fundamentos reconhecidos por Nilson é a medida. Dentro dela, conteúdos como cálculo de área, volume, identificação de padrões, sistema de unidades de medida, entre outros, entram para desenvolver a compreensão da ideia. O mesmo se dá com o conceito de proporcionalidade, em que entram as frações, grandezas proporcionais, trigonometria, funções de 1º e 2º grau, mapas e escalas, por exemplo. Nesta publicação, ele se aprofunda nas ideias fundamentais de Matemática, e o mesmo exercício pode ser repetido em todos os componentes curriculares para entender qual é o núcleo de ideias fundamentais que irradiam para os conteúdos curriculares.

PRIORIZAÇÃO A PARTIR DA BNCC
Antes da pandemia, o Instituto Reúna, organização que desenvolve pesquisas e materiais para apoiar os educadores na implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), começou a trabalhar na criação de Mapas de Foco da BNCC para apontar as aprendizagens prioritárias dos alunos a partir do extenso documento. O trabalho tinha como objetivo diminuir as distâncias entre o que vinha sendo trabalhado e o novo currículo alinhado ao documento.

A chegada do ensino remoto, entretanto, tornou o material ainda mais urgente. E, para dar conta do novo cenário, decidiram ampliar o estudo, que inicialmente seria apenas para os Anos Finais do Fundamental nos componentes de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. "Os educadores precisavam fazer a seleção de atividades a partir de algum parâmetro. Essa escolha não pode ser aleatória", explica Kátia Smole, diretora do Instituto Reúna e do Mathema. Por isso, a partir de um estudo dos especialistas, levando em consideração como o aluno aprende, a progressão prevista entre um ano e o outro, as defasagens de anos anteriores e as habilidades de um componente que influenciam outro, foram criados mapas de foco para todo o Ensino Fundamental, que podem ser acessados gratuitamente aqui.

Cada componente traz o conjunto de habilidades e orientações gerais para leitura dos mapas. "Nós olhamos para o que é muito fundante em cada componente para que os alunos conquistem aprendizagens relevantes", afirma Kátia. Por exemplo, em Ciências foram priorizadas habilidades que dessem espaço para desenvolver a investigação com as turmas. Já em Geografia uma das prioridades é alfabetização cartográfica, e em História, as noções de tempo e espaço.

Ainda no início da pandemia, NOVA ESCOLA procurou seu time de especialistas para fazer um processo semelhante. A partir dos mais de 6 mil Planos de Aula NOVA ESCOLA alinhados à BNCC, foram priorizadas quais eram as sequências que contemplavam as habilidades essenciais para cada ano. Esse estudo deu origem às planilhas de priorização (confira aqui). O material foi disponibilizado para os assinantes do Nova Escola Box durante o especial de Replaneje com a BNCC.

Para te ajudar a elencar os conteúdos prioritários para o ano letivo de 2020, os especialistas responsáveis pelas priorizações explicam abaixo os princípios que orientaram a seleção realizada por eles. Confira:

Para replanejar as aulas de Língua Portuguesa
Para garantir o desenvolvimento das habilidades previstas na BNCC nos eixos de oralidade, leitura, produção e análise linguística, o professor deve focar em diversos gêneros textuais dentro dos campos de atuação contemplados no documento. São no Anos Iniciais: vida cotidiana, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa, e vida pública. Nos Anos Finais, os campos são: jornalístico-midiático, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa, e vida pública. Ao fazer a priorização e planejar as atividades de 2020, é importante contemplar todas as práticas de linguagem e campos de atuação previstos em cada ano.

No Nova Escola Box, Maria José Nóbrega, professora de pós-graduação do Instituto Vera Cruz, em São Paulo (SP), explica que a atenção máxima do professor deve ser às habilidades específicas de cada ano, deixando em segundo plano aquelas que são previstas para serem trabalhadas ao longo do ciclo ou da etapa de ensino, pois podem ser retomadas e desenvolvidas nos próximos anos. A partir desses critérios, é possível chegar em diferentes caminhos de priorização com base nas habilidades que já foram desenvolvidas, no contexto da escola e nas diretrizes determinadas pela rede. Para Língua Portuguesa, foram criadas três tabelas: para replanejar a alfabetização, do 3º ao 5º ano, e o Ensino Fundamental 2.

Para replanejar o ciclo de alfabetização

Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Este Nova Escola Box trazemos conteúdos que vão te ajudar a pensar como fazer um planejamento para garantir avanços na alfabetização neste ano. 

 

Para replanejar as aulas de Matemática
As tabelas de priorização do componente foram separadas em três: para turmas de 1º ao 3º ano do Fundamental, 4º e 5º ano, e Ensino Fundamental 2. Para pensar a priorização, Luciana Tenuta, mestre em Ensino de Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC-MG) e especialista de Matemática do Time de Autores NOVA ESCOLA, considerou habilidades que se relacionassem com conteúdos essenciais e que pudessem ser desenvolvidos a distância, isto é, sem a presença e intervenção do professor.

Para os primeiros três anos do Fundamental, deve-se dar ênfase em resolução de situações-problema. Um dos destaques dados na priorização está na unidade temática números, com habilidades relacionadas à compreensão do sistema numérico e dos cálculos. Outras habilidades essenciais se relacionam com a ideia de localização na geometria e a noção de tempo na unidade de grandezas e medidas. Estas duas são conceitos complexos, mas que podem ser trabalhados a partir de situações do dia a dia dos alunos.

Para o 4º e 5º ano, o professor deve propor atividades que estimulem o olhar matemático para o cotidiano do estudante. Como nos anos anteriores, há uma prioridade para trabalhar estratégias de cálculo. Na unidade temática de grandezas e medidas, as habilidades de medição – tanto de tempo quanto de capacidade, comprimento e área –, e em geometria, mantém-se a priorização de localização, mas com destaque para mapas e figuras geométricas.

Um dos focos do trabalho com alunos de Fundamental 2 está no desenvolvimento de habilidades relacionadas ao pensamento algébrico, isto é, que os alunos compreendam padrões e sequências. Já dentro das unidades grandezas e medidas e geometria mantém-se o foco na exploração das figuras geométricas e medição – em especial experiências que possam ser realizadas em casa. Outros temas fundamentais são: frações, proporcionalidade, estatística, porcentagem.

Replaneje as aulas de Matemática para 4º e 5º ano

Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Este Nova Escola Box vai te ajudar a pensar como planejar as atividades de Matemática para as turmas de 4º e 5º ano, a partir das prioridades para cada ano.

Para replanejar as aulas de História
Nos Anos Iniciais do Fundamental, com professores polivalentes, é comum que sejam priorizadas atividades de Língua Portuguesa, no entanto, não podemos deixar de lado as aprendizagens dos outros componentes. No caso das aulas de História, para Sherol Santos, doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), formadora de professores e consultora de NOVA ESCOLA, o foco deve estar centrado na construção das noções de tempo histórico, fontes históricos e sujeito histórico. Próximo do desenvolvimento de temporalidade nas aulas de História, em Geografia é importante garantir as noções de espaço. Propostas interdisciplinares são um caminho para garantir o trabalho com os dois conceitos fundamentais.

Já para os alunos de Fundamental 2, Sherol indica que seja estimulada a produção de conhecimento histórico e a atitude historiadora do alunos. Isto é, que diante de um objeto de estudo ele seja capaz de identificar, comparar, contextualizar, interpretar e analisar o que está presente naquele acontecimento histórico. Eles adotam uma postura investigativa diante dos objetos de estudo.

Não existe uma única possibilidade de priorização das habilidades essenciais. A versão criada a partir das orientações citadas acima – com a indicação dos planos de aula, para Fundamental 1 pode ser acessada aqui, já a tabela dos Anos Finais pode ser baixada aqui.

Fundamental 2: como replanejar as aulas de História

Ilustração: Nathalia Takeyama/Nova Escola

Entenda quais conteúdos priorizar nas aulas de História do 6º ao 9º ano.

Para replanejar as aulas de Geografia
Como comentamos anteriormente, a ideia de espaço geográfico é essencial para os alunos do Fundamental 1. As crianças devem conhecer seu lugar de vivência, pensar a diversidade, manifestações culturais locais, e as transformações da sociedade e da natureza. A alfabetização cartográfica também deve ser garantida.

No Fundamental 2, mantém-se a prioridade do trabalho com cartografia. Também ganha destaque a reflexão sobre temas atuais e cotidianos, tais como racismo, mudanças climáticas, direitos dos povos indígenas, transformações do espaço urbano – o que inclui pensar nas moradias, mobilidade, relações de trabalho – e multiculturalismo.

Para saber mais sobre a priorização das habilidades de Geografia com a indicação de planos de aula adaptados, confira aqui a tabela de Fundamental 1 e a de Fundamental 2 aqui.

Repense o planejamento das aulas de História

Ilustração: Nathalia Takeyama/Nova Escola

Este Nova Escola traz conteúdos que irão te ajudar, professor, a repensar as atividades para garantir as aprendizagens essenciais de Geografia para as turmas de Fundamental 1

Para replanejar as aulas de Ciências
Para fazer esta seleção, Lilian Bacich, especialista responsável pela priorização, selecionou habilidades que estimulavam o desenvolvimento do pensamento científico, contemplando os três eixos previstos na Base de Ciências: matéria e energia, terra e universo, vida e evolução.

Para o Fundamental 1, ganham destaques temas como diversidade, corpo humano, grupos animais, energia solar, micro-organismos (transmissão e prevenção de doenças causadas por bactérias e vírus como forma de estimular hábitos de higiene e autocuidado durante a pandemia). Já para os Anos Finais do Fundamental, alguns conteúdos considerados como prioritários são:  o estudo das células, compreensão e análise dos programas e indicadores de saúde pública, temas relacionados com sexualidade (métodos contraceptivos, doenças e infecções sexualmente transmissíveis), e as teorias evolucionistas.

Todas as habilidades prioritárias com as sequências de planos de aulas indicados podem ser acessadas por assinantes do NOVA ESCOLA BOX. Para saber mais sobre a priorização dos Anos Iniciais, clique aqui. Para se aprofundar no replanejamento do Fundamental 2, veja aqui.

Para garantir as aprendizagens fundamentais em Ciências

Ilustração: Nathalia Takeyama/Nova Escola

Entenda por onde começar a replanejar as atividades de Ciências para as turmas de Fundamental 2