Setembro Amarelo: livro ilustrado cria alfabeto de sentimentos e sensações

No livro "Hoje me sinto", o personagem principal precisará lidar com situações inusitadas e sentimentos variados. Confira resenha do livro:

POR:
Duda Oliva
Foto: Arquivo pessoal

Em um ano difícil como 2020, nunca foi tão necessário expressar o que sentimos.  Seja a melancolia dos planos desfeitos, a tristeza por aqueles que partiram ou a ansiedade pelo amanhã. Para além das barreiras sociais e comportamentais que muitas vezes nos emudecem, há também limites de vocábulo, que muitas vezes falham em traduzir com exatidão os tumultos que carregamos dentro de nós. Em setembro, mês da campanha de prevenção ao suicídio, discussões sobre os cuidados com a saúde mental ganham destaque. Por isso, que tal uma leitura que incentiva, de forma leve, um mergulho em nós mesmos e nos nossos sentimentos? Vamos lá?

No livro ilustrado "Hoje me sinto", a ilustradora e escritora Madalena Moniz cria um abecedário de sentimentos e sensações. Para isto, cada letra representa uma palavra, que é traduzida em uma ilustração. Cada um dos desenhos traz o personagem principal vivendo situações inusitadas ou abertamente fantásticas, abrindo espaço para que cada leitor faça uma interpretação da emoção retratada.

As primeiras páginas trazem o menino lidando com sensações como confusão (B=Baralhado) e isolamento (D=Distante), em imagens que potencializam visualmente essas emoções e lhes confere a sensação intangível destas situações. Na primeira, o garoto aparece com um novelo de lã que se solta e se embaraça aos seus pés, preenchendo toda a página com tramas caóticas e desordenadas. Na outra, ele aparece lendo sobre uma cama em alto mar (inclusive com a silhueta de uma baleia sob as águas enfatizando o cenário).

Ambas  imagens (a primeira mais realista, a segunda mais fantasiosa) trazem a poesia para dentro da narrativa, mostrando o que esses sentimentos podem representar para diferentes pessoas: qual interpretação, por exemplo, você teria para baralhamento ou quais situações te causam este tipo de sentimento? E o que significa hoje distância para você, ainda mais em um contexto de pandemia e isolamento social? Será que o garoto que lê sobre a cama e viaja para terras distantes é uma interpretação universal para esta emoção ou seus filhos e alunos pensariam de outra forma?

O jogo que Madalena cria em seu livro estimula que tentemos ver o quanto de nós há em cada uma das imagens, e em como estas emoções, apesar de universais,  podem se manifestar - ou ser experienciadas - de maneira similar ou diversa.

A sensação "E=Espacial", para Madalena, se traduz com o garoto boiando tranquilo e de olhos fechados em uma piscina. Algo metaforicamente muito próximo do que a palavra significa para mim. A relação entre o meu corpo e o que o cerca, e como essas barreiras se diluem e mesclam espacialmente  - pessoalmente minha tradução se aproxima mais de uma representação cósmica de espaço, porém a experiência sensorial incitada pela palavra é a mesma da autora. 

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Um outro caso em que o meu entendimento dos sentimentos está alinhado com o de Madalena é na palavra "O=Otimista", com o menino da história pintando com tinta azul e esverdeada uma parede vazia, como se neste ato de esperança ele trouxesse um pouco de cor ao nada.

Há também, claro, os casos em que não necessariamente a experiência de Madalena se parece com a minha. Se para a autora a palavra "S=Sozinho" se traduz com o personagem solitário em uma alta casa de árvore distante de outras pessoas e do chão, para mim a solidão se manifesta de forma muito mais forte em momentos em que eu esteja rodeado de pessoas com as quais não sinto uma conexão significativa, enquanto que muitas vezes eu possa estar socialmente solitário mas me sentindo emocionalmente conectado a outros. A palavra "N=Nervoso" é representada pelo  garoto com uma coroa na cabeça escondido atrás de uma cortina de teatro, como a ansiedade que antecede se apresentar para os outros. No meu caso - apesar de minha introversão - o nervosismo estaria mais associado a conversas desconfortáveis ou à ansiedade de se declarar para alguém que amo. Estes contrastes e divergências de interpretação das emoções, por sua vez, só amplificam a mensagem geral do livro, e abrem a janela para que, além de interpretarmos visualmente o que as ilustrações dizem, propôr (quando quisermos) nossas próprias traduções.

Em uma entrevista para DPictus, blog de livro ilustrado (clique aqui para conferir [em inglês] a entrevista) - em 2015, a autora conta um pouco sobre o processo de criação da obra, a escolha da aquarela como técnica e da representação leve e subjetiva das imagens. Sua ideia era criar um alfabeto diferente dos usuais - cheios de certezas e absolutos - e, pelo contrário, trazer uma experiência subjetiva em que as narrativas mudassem de leitor para leitor. Seja nas duplas-páginas cheias de poesia, no traço delicado da artista ou (surpresa!) nas listas em branco ao final do livro para que o leitor escreva como se sente, o livro de Madalena é um convite para conhecer não somente as emoções do outro, mas também explorar o que trazemos conosco, e como dar voz a estes sentimentos cá de dentro.

Hoje eu me sinto jupiteriano e você? 

Um abraço e até a próxima!

Duda Oliva
Ilustrador e designer de Nova Escola

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