Setembro Amarelo no isolamento social: como ajudar professores e alunos?

Num ano atípico, o contato com o ambiente escolar se restringiu às telas de dispositivos móveis ou computadores, mas a atenção ao outro deve ser empática e atenta para sinais de que algo pode não estar indo bem

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Camila Cecílio
Quase 30% dos professores avaliaram sua saúde mental como péssima comparada ao período pré-pandemia Foto: Getty Image

No mês mundial de combate ao suicídio, a campanha Setembro Amarelo intensifica discussões sobre saúde mental e reforça a importância do olhar para si e para o outro, especialmente em um contexto em que a pandemia e o isolamento social no país já duram 6 meses. Em maio, terceiro mês da crise sanitária, 89,2% dos psiquiatras entrevistados em uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (confira os principais dados aqui) destacaram o agravamento de quadros psiquiátricos em seus pacientes.

No campo da Educação, outras pesquisas também trouxeram sinais de alerta: 28% dos professores respondentes do levantamento “A situação dos professores no Brasil durante a pandemia”*, realizado pela NOVA ESCOLA, avaliaram sua própria saúde mental como péssima quando comparada ao período pré-pandemia. Do lado dos alunos, o Datafolha em parceria com a Fundação Lemann (mantenedora de NOVA ESCOLA), Itaú Social e Imaginable Futures mostrou que 75% dos estudantes das escolas estaduais de São Paulo estão tristes, ansiosos ou irritados durante o confinamento em casa.

A mudança do processo de ensino aprendizagem do presencial para o remoto e todo o contexto da crise sanitária são fatores que influenciam no bem-estar de ambos os grupos. Demonstração de tristeza constante, agressividade, mudança brusca de comportamento, falta de vontade para interagir e atividades, excesso ou falta de sono e apetite e diminuição no desempenho podem ser sinais de que algo não vai bem. “Pode significar que se ele não está conseguindo lidar com o estresse que a pandemia gera, mas também é necessário ser olhado com calma para ver se há algum transtorno mental [como ansiedade ou depressão] acontecendo”, observa a psicóloga e suicidologista Karen Scavacini, mestre em Saúde Pública na área de Promoção de Saúde Mental e Prevenção ao Suicídio pelo Instituto Karolinska (Suécia) e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP.

A participação silenciosa online ou sem imagem do aluno também deve ficar no radar docente. “Se ele tem a câmera e nunca aparece ou é muito quieto na web, pode ser um sinal de que ele está se escondendo. Então é interessante, de tempos em tempos, o professor pedir para os alunos ligar as câmeras para poder ver os rostos e as expressões deles, ver como está o entorno dele”.

Vale lembrar que é possível que pessoas que já sofriam de, por exemplo, ansiedade ou depressão antes da pandemia estejam mais vulneráveis agora e que, em alguns casos, o contexto pessoal agrave a situação. Exemplos disso são alunos e professores cujas famílias estejam passando por situação financeira delicada, que perderam um ente querido ou que estejam com medo de contrair a doença por uma exposição maior aos ambientes de risco. “Com as evidências de aumento da incidência de transtornos mentais, como ansiedade e depressão neste período, o tema do suicídio se torna ainda mais relevante, uma vez que a maior parte dos casos está associada à presença de transtorno mental”, relembra Alcione Marques, psicopedagoga clínica e escolar pelo Instituto Sedes Sapientiae e diretora da NeuroConecte.

Entre os professores, é sugerível observar se há outros sinais relacionados à síndrome de burnout, conhecida como síndrome do esgotamento profissional, como cansaço extremo e frequente, dificuldade para dormir e comer. “Irritação ao ter que preparar aula, estresse ao lidar com os alunos e, às vezes, até um certo cinismo [também podem ser sinais]”, indica Karen.  

Nesse período de tantas incertezas, olhar para o outro com menos julgamento e mais acolhimento pode fazer toda a diferença. “A relevância disso é poder apoiar as pessoas que estão passando por dificuldades e que talvez precisem de um olhar mais especializado”, pondera Karen. “E isso vale tanto de um educador para outro para que não haja pressão e cobrança, como também de um educador para os alunos. Todo mundo está tentando”, pontua Karen.

Alcione Marques destaca que em momentos de crises (geradas por guerras, catástrofes ou outros eventos), a escola apresenta-se como uma instituição fundamental para a reorganização social e para o sentimento de pertencimento e suporte. “Educar se dá essencialmente na interação e buscarmos, como educadores, essa interação em níveis mais profundos, estabelecendo uma conexão onde o afeto esteja incluído comprovadamente” diz a psicopedagoga. “É um fator de proteção para a saúde emocional e mental não só dos estudantes, mas dos professores também”.

O que a escola pode fazer
Em um movimento coletivo, a escola pode criar oportunidades para os professores falar sobre o tema. É possível, por exemplo, convidar profissionais de saúde para fazer bate-papos sobre emoções, estresse, saúde mental e outros temas correlatos ajuda os educadores a refletirem, terem acesso a informações importantes, trocarem e a se sentirem cuidados. A escola também pode disponibilizar informações sobre serviços de apoio psicológico, muitos gratuitos neste momento de pandemia. “É o olhar para o outro e também para o próprio papel da escola na nossa sociedade”, acrescenta Viviane Neves Legnani, doutora em Psicologia e professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).

Onde encontrar serviços gratuitos de apoio psicológico

Há opções criadas especificamente para o período de pandemia e outras que existem em caráter permanente. Confira a lista:

Organizar uma rotina em que o professor tenha pausas, que possa se cuidar, se alimentar e dormir bem, e continue relacionamentos (mesmo que de forma virtual) com pessoas queridas é recomendável. A prática de atividade física também é uma alternativa sugerida pelas especialistas para aliviar o estresse do dia a dia, tanto para o corpo quanto para a mente.

Como assegurar a saúde emocional dos professores

Para quem é útil: Professores e gestores
Qual o objetivo: Apresentar reflexões e oferecer estratégias para os educadores trabalharem questões de saúde emocional no contexto da pandemia de Covid-19.

Como posso ajudar meus alunos?
Há muitas formas de falar sobre saúde mental no contexto do ensino remoto, o que não dá para fazer, segundo Karen, é deixar de falar. Uma abordagem possível é perguntar para os alunos como eles estão e, se o professor se sentir à vontade, também pode contar como tem se sentido, se achar que isso o ajudará com a turma. Outra ideia é propor atividades com textos, poesias, filmes, etc. que discutam sentimentos e bem-estar na pandemia.

“Uma aula é sempre uma possibilidade para falar sobre saúde mental, de conversar com os alunos sobre como aumentamos a resiliência, seja através das habilidades socioemocionais, seja através do entendimento do que cada um tem de melhor, o que dá para fazer para melhorar”, recomenda a suicidologista. “O mais importante é deixar o preconceito de lado e falar com os alunos que, muitas vezes, não têm com quem conversar”.

Além disso, para Viviane é importante que seja enfatizado para os estudantes que esse sofrimento é coletivo, já que pessoa que tem uma tendência ao suicídio se vê fora da cena. “Ela vê todo mundo levando a vida, tendo objetivos, uma certa ambição para se chegar a algum lugar, e não se vê em condições subjetivas para ter esse mesmo desempenho”, atenta a especialista. “Temos uma sociedade muito produtivista e o que acontece com o sujeito depressivo, e que pode levá-lo ao suicídio, é justamente se ver totalmente fora dessa engrenagem”. Então, é crucial que a escola adote uma postura acolhedora e de ampliar o olhar sobre a questão.

Viviane chama atenção, ainda, para o bullying e relaciona a prática de violência física e psicológica como desencadeadora de sofrimento psíquico e adoecimento no campo da saúde mental também no ambiente virtual. “No ensino presencial, muitas vezes a escola se mostra indiferente às práticas de bullying. No ensino remoto, o professor pode estar mais atento a essa prática de grupo, nessa perspectiva da segregação, e pode aproveitar para trabalhar essa questão”, recomenda a profissional.

É importante, também, manter a comunicação aberta com as famílias. A escola pode, por exemplo, fazer comunicações sobre o tema e trazer recomendações de leituras e outros materiais que possam ajudar a entender os temas que se relacionam com a saúde mental.  

Outra boa dica é disponibilizar os serviços de saúde mental disponíveis em cada cidade para que as crianças e os adolescentes busquem ajuda, seja com suas famílias, orientadores educacionais ou alguém na escola que possa escutá-los. A recomendação é buscar o Conselhos de Psicologia ou a secretaria de saúde de sua região para obter mais informações e, possivelmente, uma lista de serviços disponíveis.

*A pesquisa A situação dos professores no Brasil durante a pandemia foi realizada entre os dias 16 e 28 de maio de 2020 por meio de um questionário on-line disponível no site de NOVA ESCOLA. Ao todo, foram coletadas 9.557 respostas, sendo 8.121 (85,7%) delas de professores da Educação Básica. Saiba mais sobre a pesquisa clicando aqui.

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