Por que não levar a cultura popular às crianças o ano inteiro?

Quando a escola se insere nos fazeres locais e integra os costumes de um bairro, torna-se um local convidativo para a vida daqueles que partilham seu espaço

POR:
Evandro Tortora
Foto: Acervo Pessoal/Evandro Tortora

Quando comecei a trabalhar como professor uma das primeiras coisas que percebi com algumas colegas era a preocupação em planejar o ano letivo em razão de algumas datas ou períodos comemorativos. Dentre essas datas, lembro-me do mês do folclore, celebrado em agosto, mês no qual se fala muito sobre algumas personagens clássicas, como sereias, lobisomens, mulas-sem-cabeça, sacis... Contávamos as histórias desses personagens às crianças, dávamos algumas imagens para que colorissem e até organizávamos pequenos teatros com as crianças. 

Tudo se encerrava naquele momento. No restante do ano, mal falávamos naqueles personagens e tudo o que discutimos sobre folclore no período. O mês de agosto era celebrado como o “mês da cultura”, enquanto nas demais épocas do ano estávamos preocupados demais com outras datas comemorativas ou trabalhando os outros conhecimentos. 

Confira planos de atividade para uso a distância
alinhados à BNCC de Educação Infantil

O “mês da cultura” já foi, não é? Então porque vou tocar nesse assunto agora? Porque todo mês, ou melhor, a todo o momento podemos falar de cultura e folclore com nossas crianças. O folclore, palavra de origem inglesa (folk-lore) significa "conhecimento popular", trata-se de um gênero que faz parte da cultura. O folclore tem ligação com a identidade de um grupo e é composto por diversos fazeres ligados à cultura popular e que se desenvolvem junto do povo. Faz parte do folclore os costumes e tradições passados de geração para geração. 

Para além das lendas e personagens já conhecidos (e que tem sua importância), quero convidá-los a ampliar sua visão sobre esses hábitos da cultura folclórica que nos rodeia e que é produzida e (re)significada a todo momento por nós, crianças ou adultos. Vários elementos da cultura estão presentes no dia a dia das crianças e acolher essas diferentes culturas faz parte do nosso trabalho. É preciso esquecer aquela crença de que há sujeitos sem cultura! Precisamos lembrar que a cultura envolve músicas, jogos, brincadeiras, alimentação, crenças, entre outros elementos que tem uma história e se fazem presentes no cotidiano das crianças. 

Para iniciar esse diálogo, considero importante que possamos enxergar a escola como um local que pulsa e vive a vida com as crianças e os adultos que as fazem ser o que é. A escola é feita de pessoas: crianças, famílias, funcionários, professores que têm suas histórias, crenças, seus costumes, hábitos, trabalhos. É a vida sendo vivida todo dia. Então, que tal acolher estes elementos nas nossas práticas? As histórias que as famílias contam, as brincadeiras e jogos que os adultos jogavam quando pequenos, os trava-línguas ensinados de adultos às crianças... 

Algumas atividades nesse sentido podem ser pensadas, inclusive, em planejamentos para ações a distância. Já pensou em investigar um pouco das brincadeiras, histórias ou trava-línguas que são conhecidas das famílias? Pode ser uma boa pedida produzir livros temáticos com os registros das contribuições fornecidas pela turma: um livro com histórias que as famílias costumam contar às crianças, outro de receitas de alimentos que fazem em casa e mais um de cantigas, trava-línguas ou parlendas que as famílias conheçam... Todos esses elementos fazem parte dessa cultura que permeia os fazeres das famílias e são bons recursos para diferentes práticas pedagógicas.

Esses registros e vivencias nos permitem ressignificar algumas práticas que perdem sentido quando pensamos em criar um ambiente acolhedor à cultura das crianças e famílias. Quando apenas nós, docentes, apresentamos algumas alternativas para conversar sobre cultura popular, estamos estabelecendo uma via de mão única em que se reconhece como válidos apenas a “cultura popular” ou o “folclore” ofertados pela escola. A participação das crianças e suas famílias é primordial para que toda essa riqueza cultural esteja presente dentro da escola. 

Falando da escola como esse local do encontro e da riqueza que ele pode trazer, gostaria de compartilhar com vocês uma experiência que pode inspirar algumas práticas. Vocês, na sua escola, têm alguma tradição? Alguma festa ou comemoração que já foi incorporada pela cultura das famílias? Na minha escola temos a “Festa das Flores”, na qual comemoramos a chegada da primavera. As famílias e as crianças vêm para escola num sábado para comer e brincar juntos! Toda a escola é decorada com flores e juntos planejamos algum momento de dança ou interação que envolvam as famílias com as crianças.

Na foto que ilustra essa coluna, apresentamos a “Dança da Saia”, coreografada pela minha querida colega professora Claudia Souza junto das crianças. Essa festa, com suas danças, comidas e brincadeiras já fazem parte da cultura em que a escola está inserida, o que aproxima a comunidade das práticas desenvolvidas pela nossa instituição.    

Quando a escola se insere nos fazeres locais e integra a cultura do bairro, torna-se um local convidativo para a vida daqueles que partilham seu espaço. Acredito que seja importante que as escolas abram seus portões para que a comunidade produza seus costumes juntos! Afinal, a escola é para todos e essas práticas culturais construídas coletivamente provocam sensação de pertencimento e acolhimento pela instituição de Educação Infantil. 

Nesse contexto de educação remota, faz sentido refletirmos sobre como manter essas práticas vivas sem perder a esperança que, após esse período de distanciamento, estaremos juntos comemorando a vida! 

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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