Ensino híbrido: quais são os modelos possíveis?

Conheça os modelos e as heranças da pandemia para o ensino híbrido no retorno presencial das atividades escolares

POR:
Camila Cecílio
Foto: Getty Image

Carteiras e corredores vazios, portões das escolas fechados, alunos e professores em casa. Depois de cerca de seis meses vivenciando a realidade do ensino remoto, o Brasil ensaia voltar para as salas de aula nos próximos meses. Mas o retorno deve ser gradual e híbrido. É provável que as escolas tenham que lidar por um período de tempo com parte dos alunos em casa e parte presencialmente nas escolas. O plano de retorno da rede estadual de São Paulo, por exemplo, prevê que as escolas que estão retomando as atividades em setembro recebam, no máximo, 20% dos alunos por dia. Mesmo quando todos estiverem de volta, o apoio da tecnologia pode permanecer como uma herança da quarentena – seja para reforçar e complementar as aprendizagens no contraturno em casa ou para inovar na forma como os professores dão suas aulas.

Metodologias Ativas: Ensino Híbrido e Aprendizagem Baseada em Projetos

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“A pandemia nos deu, como educadores, a oportunidade de olhar de forma cuidadosa e perceber que temos muito potencial, que somos capazes de nos reinventar”, diz Aline Soares, professora do Ensino Fundamental 1 e coautora do capítulo sobre avaliação no livro Ensino Híbrido: Personalização e tecnologia na Educação. “Muitas pessoas acreditam que para trabalhar com ensino híbrido é preciso ter os melhores recursos, mas com acesso à internet, conhecendo e criando boas propostas, é possível. A pandemia mostrou que todo professor é criador de conteúdo”.

Para Fernando Mello Trevisani, que é pesquisador, consultor educacional e professor da pós-graduação em Metodologias Ativas do Instituto Singularidades, o ensino híbrido proporciona um modo de trabalho interessante para o professor e para os alunos. Um dos benefícios é a possibilidade do docente dedicar mais tempo às dúvidas e ao acompanhamento mais próximo e individual dos alunos na aprendizagem. Com o apoio da tecnologia, o professor também consegue visualizar, coletar e analisar dados sobre as aprendizagens dos alunos de forma mais simples e precisa. “Com isso, fica mais fácil fazer as implementações e as modificações rumo à personalização do ensino, que é um dos objetivos também do ensino híbrido”, explica.

O que é o ensino híbrido?

A definição é do Clayton Christensen Institute, dos Estados Unidos, para ensino híbrido é: “um programa de Educação formal no qual um aluno aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino online, com algum elemento de controle do estudante sobre o tempo, lugar, modo e/ou ritmo do estudo, e pelo menos em parte em uma localidade física supervisionada, fora de sua residência”. O modelo, portanto:A definição é do Clayton Christensen Institute, dos Estados Unidos, para ensino híbrido é: “um programa de Educação formal no qual um aluno aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino online, com algum elemento de controle do estudante sobre o tempo, lugar, modo e/ou ritmo do estudo, e pelo menos em parte em uma localidade física supervisionada, fora de sua residência”. O modelo, portanto:


• Mescla estratégias de ensino off-line com estratégias digitais;
• Possibilita personalizar o ensino para atender melhor às necessidades de aprendizagem dos estudantes;
• Coloca o aluno como protagonista da sua aprendizagem;
• Transforma o papel do professor de transmissor para mediador do conhecimento

É preciso tomar cuidado para não confundir o ensino híbrido com outros modelos educacionais. “Temos escutado em alguns lugares a definição do ensino híbrido como sendo a transmissão online de aulas ao vivo, mas isso é a definição de aula síncrona transmitida ao vivo”, atenta Lilian Bacich, diretora da Tríade Educacional e co-autora do livro Ensino Híbrido: Personalização e tecnologia na Educação. “No híbrido, temos o que é para ser aprendido no presencial e o que é para ser aprendido no virtual e você conecta essas duas aprendizagens”. A sala de aula invertida, o laboratório rotacional e a rotação por estações são alguns exemplos de modelos híbridos.


Fernando argumenta que, apesar dos obstáculos, dá para aplicar ensino híbrido em diversas realidades e escolas do Brasil, inclusive em escolas públicas com poucas tecnologias. “É importante ressaltar que o modelo não pressupõe o uso de um dispositivo digital por aluno”, aponta Fernando. “O que é necessário é que o professor tenha um planejamento adequado, que faça sentido para o que ele quer ensinar, que tenha uma intencionalidade pedagógica”. Entre os modelos híbridos possíveis, há aqueles que se apoiam no formato tradicional da sala de aula (como a sala de aula invertida e o laboratório rotacional, que são chamados de modelos sustentados) e aqueles que rompem completamente com o tradicional (os chamados modelos disruptivos).

Ensino híbrido: o que é e como utilizar essa estratégia

Faça o teste e verifique seus conhecimentos sobre o tema. O quiz foi produzido com o auxílio de Lilian Bacich, diretora da Tríade Educacional e autora do livro “Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação”.


Da sala de aula invertida ao flex: o que é o que
O especialista do Singularidades afirma que é possível aplicar qualquer modelo de ensino híbrido no Brasil. “Porém, é indicado começar pelos modelos sustentados, que fazem menos modificações e já conseguem estar incorporados mais facilmente na prática do professor e na realidade escolar vigente”, recomenda Fernando. Lilian Bacich concorda, mas diz que o cenário de retorno presencial parcial pode exigir modelos mais disruptivos pela distância. “Antes da pandemia, defendíamos muito que, no Brasil, os modelos rotacionais eram os mais adequados para a nossa realidade: rotação por estação, sala de aula invertida e laboratório rotacional”, explica. No entanto, diante do atual contexto, considera-se outros modelos, como o flex, o a la carte e o virtual aprimorado (ou virtual enriquecido), em que o fio condutor da aprendizagem é o online. Lilian ressalta que, nesses casos, não é necessário que os alunos estudem as mesmas coisas ao mesmo tempo, já que ele flexibiliza a aprendizagem. Conheça abaixo os diferentes modelos de ensino híbrido:

MODELOS SUSTENTADOS

Sala de aula invertida
Consiste no envio prévio do material da aula para os alunos em casa, podendo este material ser um vídeo ou outro formato de conteúdo que explique o tema que será abordado em sala. “Assim, quando eles vão para o encontro com o professor, já vão munidos de muitas informações”, explica a professora Aline. Há uma inversão do que acontece, portanto, em sala e em casa: os alunos consumem a explicação do conteúdo sozinhos e usam o espaço coletivo escolar e a presença do professor para tirar fazer resolução de atividades e aplicações práticas do conhecimento e tirar dúvidas.

Laboratório rotacional
Neste modelo os alunos são divididos em dois grupos, um trabalha no laboratório com uma lista de atividades para realizar com apoio da tecnologia digital, enquanto o outro trabalha na sala de aula com o professor. Enquanto o primeiro grupo atua de forma autônoma, o professor pode fazer as intervenções mais diretas com a segunda metade da turma, trabalhando conceitos e solucionando dúvidas dos estudantes.

Rotação por estações
O modelo consiste em organizar a sala por grupos (estações de aprendizagem) para desenvolver atividades com objetivos de aprendizagens diferentes, mas complementares. Os alunos se revezam nas estações de aprendizagem, enquanto o professor atua como um mediador e intervém nos grupos que mais precisam de auxílio – o que personaliza o ensino e dá autonomia e protagonismo para os alunos construírem suas aprendizagens. 

DISRUPTIVOS

Rotação individual
Os percursos são voltados para as necessidades individuais dos estudantes. “É um modelo do ensino híbrido onde a personalização realmente acontece”, diz Aline. “O professor precisa estar atento às necessidades dos estudantes, planejando roteiros mais individualizados, para que as possíveis dificuldades sejam sanadas. Cabe ao professor propor as melhores situações de aprendizagem”. Isto não significa, no entanto, que o professor necessita propor um roteiro para cada aluno. “Significa que ele produzirá diferentes atividades, algumas para alunos com perfis e necessidades mais parecidas. Ele buscará os melhores recursos, online, por exemplo, para propor situações de aprendizagem para alguns alunos ou grupo”, detalha a educadora. O modelo pode se encaixar na realidade de muitas escolas que receberão alunos com variados níveis de aprendizagem.

Flex
É o mais usual nas escolas durante a pandemia. O aluno tem alguns roteiros que são entregues via plataforma digital, no qual realiza as atividades propostas em parte do tempo, com o professor por perto, como um tutor, e em outros momentos pode trabalhar em projetos com outros alunos ou fazer algo mais relacionado a uma atividade física. Aqui, é possível intercalar ações individuais e coletivas online.

À la carte
É muito comum no Ensino Médio em países em que a ideia do ensino personalizado é mais difundida, como nos Estados Unidos, segundo Lilian Bacich. No modelo, o estudante é responsável pela organização do seu estudo a partir de objetivos gerais de aprendizagem a atingir.  As disciplinas podem ser eletivas e combinar, por exemplo, com os itinerários formativos escolhidos pelos estudantes. Nesse modelo, pelo menos uma disciplina é ofertada online, além das tradicionais da escola, e pode ser realizada no momento e local mais adequado para o estudante. 

Virtual aprimorado
O aluno tem todas as disciplinas ofertadas online e vai para a escola uma ou duas vezes por semana para realizar projetos, debates e discutir o que foi estudado online. Além disso, o presencial é utilizado como acompanhamento de como estão caminhando as aprendizagens.

É preciso olhar para frente

Neste ano em que o mundo parou por conta de uma pandemia, diversas reflexões surgiram na Educação e, como todo período desafiador, deixará algumas lições. “Que a gente saia da pandemia olhando para a frente e não para trás”, diz Lilian Bacich. Como uma das lições, a especialista ressalta a importância de olhar para um modelo de ensino que ajude o estudante a desenvolver o protagonismo e a autonomia, e a realmente ser um sujeito do seu conhecimento. Para Fernando Trevisani, o ensino remoto também fortaleceu a importância da autonomia dos alunos com relação ao próprio aprendizado. “Mostrou que o papel e as ações de cada um deles é essencial para que construam conceitos e trilhem caminhos de aprendizagem mais independentes rumo a construção do conhecimento”.