Educação Infantil: por que é tão difícil planejar o retorno presencial dos pequenos?

Preocupações vão desde aplicação de protocolos e cuidados no cotidiano da escola ao risco de potencial “contaminação silenciosa”

POR:
Miguel Martins
Foto: Getty Image

Máscaras, distâncias demarcadas, interações limitadas, carga horária reduzida, revezamento de dias na escola e o risco de novas ondas de contaminação. O debate sobre a volta às escolas antes da descoberta de um tratamento eficaz para covid-19 é cercado de incertezas e preocupações em todas as etapas. Na Educação Infantil, o desafio se amplia com a dúvida de como garantir a implementação dos protocolos e cuidados entre crianças pequenas e do receio de uma potencial “contaminação silenciosa” no retorno.

Não à toa, são poucas as redes municipais de ensino que já sinalizaram o retorno das atividades presenciais. Entre as capitais, apenas Belém (PA), Florianópolis (SC) e São Luís (MA) anunciaram a retomada, que é planejada para acontecer em setembro e outubro. Em Manaus (AM), apenas creches e escolas de Educação Infantil particulares foram autorizadas a voltar até o momento. A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) defende que a etapa seja a última a retornar.

Nesta reportagem, conversamos com Luiz Miguel Garcia, presidente da Undime e Secretário de Educação de Sud Mennucci (SP), e gestoras de creches para refletir sobre os principais desafios da etapa no planejamento de uma volta segura não apenas para as crianças, mas para os educadores e funcionários.

Preparando os espaços das creches para um futuro retorno

Nesta edição de NOVA ESCOLA BOX, você pode conhecer como algumas creches e redes estão organizando seus espaços e quais cuidados pretendem adotar para receber as crianças na volta às escolas, quando isso for possível.

O risco de contaminação silenciosa
Um estudo publicado no fim de julho por pesquisadores da Universidade Harvard apontou que crianças carregam uma alta carga viral do coronavírus, principalmente nos dois primeiros dias de infecção. Embora os dados epidemiológicos reforcem a tese de que as crianças têm menos chances de desenvolver um quadro grave de covid-19, a pesquisa mostra uma presença forte do vírus entre pequenos que foram infectados. “É uma questão chave ao abrir escolas e creches", ressaltam os autores da pesquisa.

Essa é uma das principais preocupações dos secretários municipais de Educação para um retorno da etapa. Luiz Miguel Garcia, presidente da Undime, lembra que a rotina das escolas municipais pode ter um impacto em até 50% das residências de uma cidade. “Podemos abrir o gatilho de uma transmissão silenciosa, por que o número de crianças de Educação Infantil que são assintomáticas é muito alta. Isso pode levar a uma contaminação que passa à margem dos mecanismos de controle e resultar numa explosão de casos”, comenta.

O presidente da Undime relata ter feito uma reunião técnica com a Fundação Oswaldo Cruz em que foi projetada a necessidade de aumentar em 20% a capacidade de leitos se houver essa contaminação silenciosa. Na reunião, diz Luiz Miguel, também foi desaconselhado o retorno de crianças abaixo de 2 anos antes de uma vacina.

Em julho, a Fiocruz lançou uma nota técnica que alerta para os riscos da volta às aulas no cenário atual. Segundo a fundação, mais de 9 milhões de idosos e adultos em grupo de risco residem em domicílios com pelo menos uma criança de 3 a 17 anos. Em um cenário otimista, estima a Fiocruz, cerca de 900 mil pessoas precisariam de UTI com o retorno.

A fragilidade dos protocolos na Educação Infantil
Pedagogicamente, a volta dos pequenos também traz uma entrave: os protocolos de distanciamento entram em choque com os eixos estruturantes previstos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que são baseados em interações e na brincadeira. É por meio das experiências de interações com o entorno e com os outros que os bebês e crianças pequenas aprendem e se desenvolvem. “É muito preocupante pensar em uma volta em que as atividades tenham de ser individuais”, comenta Claudiane Araújo, coordenadora-pedagógica da EMEI Arco-Íris, em Lagoinha (SP).

Assim como Claudiane, muitos gestores têm receio de um retorno em que as distâncias impostas prejudiquem o pleno desenvolvimento das crianças. O uso de máscaras pelos pequenos em uma eventual volta antes de uma vacina também é controverso. “As crianças conhecem o mundo pela boca”, diz Caroline Milaré Campion, diretora do CEI Semeando o Futuro, em São Paulo. “Se uma criança ficar toda hora mexendo e tocando na máscara, não vejo muito benefício. Não sei se vale a pena incentivar”. 

Replanejar para crianças bem pequenas: como organizar o retorno

Confira os conteúdos de NOVA ESCOLA BOX que podem ajudar professores e gestores da Educação Infantil para a replanejar com base na BNCC as atividades no contexto de uma possível volta à escola. Confira também um roteiro de formação feito para auxiliar o gestor escolar.

A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda o uso de máscaras para crianças menores de 2 anos (saiba mais aqui). Luiz Miguel Garcia também descarta o uso da proteção facial para essa faixa etária. Para crianças a partir de 2 anos, a Undime recomenda que esse tipo de cuidado seja construído por cada rede municipal e por cada creche e escola. "O mais importante para qualquer protocolo funcionar é que ele seja feito por quem vai executá-lo."

O presidente da Undime lembra o caso de uma professora que relatou ter sido surpreendida com um abraço de um aluno quando sua mãe o levou para buscar um kit de materiais para atividades remotas. Ela não teve como recusar o abraço, mas foi ao banheiro se lavar, e chorou por sentir que estava se limpando do abraço. "É muito difícil você isolar uma criança", reconhece Luiz Miguel Garcia.

Prioridade para estudantes de outras etapas no retorno
Algumas redes estaduais e municipais já têm planos de retornar em setembro ou outubro de 2020, mas a prioridade de muitos secretários de Educação é em garantir o retorno dos alunos mais velhos. “Até para aprendermos mais com a experiência dos outros. Defendemos que a volta ocorra de cima para baixo, dos mais velhos para os mais jovens”, diz Luiz Miguel Garcia.

Ainda assim, o presidente da entidade diz não ser possível prever se haverá ou não uma retomada das atividades presenciais ainda neste ano. “Não estamos trabalhando com esse elemento do tempo. O tempo tem se mostrado cruel. Muita gente acaba passando vergonha por tentar datar o retorno e não conseguir ter precisão. ”

A rede municipal de São Paulo, por exemplo, ainda não tem data definida para a volta das atividades presenciais. Recentemente, o secretário municipal Bruno Caetano afirmou que a decisão deve ser tomada até 20 de setembro. Assim como ocorrerá na rede estadual de São Paulo, a volta deve priorizar 35% dos alunos da rede municipal na chamada fase um. Uma das possibilidades estudadas pelo secretário municipal é de que a retomada comece por alunos do 3º, 6º e 9º ano do Ensino Fundamental.

Em meio à incerteza sobre a Educação Infantil, a diretora Caroline tenta adotar o critério de 35% na fase um para planejar um futuro retorno. No CEI Semeando o Futuro, são 68 bebês e crianças. Em um primeiro momento, ela pensa em receber apenas 23 crianças de 4 a 5 anos.

No caso da creche Baroneza de Limeira, em São Paulo, 35% das crianças representaria a volta de 249 pequenos. A instituição planeja trabalhar com grupos de 10 crianças, divididos em 25 salas (saiba mais aqui).

Temor dos professores, profissionais e famílias
A dificuldade de aplicar protocolos de distanciamento na Educação Infantil e a preocupação em relação a uma possível contaminação silenciosa contribuem para o temor de educadores, profissionais de Educação e famílias sobre um possível retorno presencial da etapa de ensino.

Luiz Miguel Garcia também lembra que há receio por muitos funcionários na Educação Infantil estarem em grupos de risco da covid-19. "Pensando na volta, seria necessário buscar profissionais da Educação que atendam aos protocolos. Mas nem há recursos suficientes nem tantos profissionais disponíveis para substituição."

Entre 24 e 27 de julho, NOVA ESCOLA realizou uma pesquisa sobre a opinião dos professores da Educação Básica em relação a uma possível retomada das atividades presenciais. Dos 8140 respondentes, 78,3% não concordam com a volta no segundo semestre.

Além dos professores e funcionários das escolas, há o medo das famílias. Neste momento, muitas creches e redes estão realizando questionários com os pais e responsáveis. Entre as famílias das crianças do CEI Semeando o Futuro, a porcentagem que defende o retorno é baixa. “Das 60 famílias, 14 querem a volta, o restante ou não quer ou não sabe”, explica a diretora Caroline.