4 livros de jovens autores negros para você conhecer

Conheça escritores que retratam experiências contemporâneas e permitem que os leitores criem conexões de identificação

POR:
Paula Peres
Paula Peres seleciona de sua estante livros escritos por autores negros jovens. Crédito: Acervo pessoal

“Paula, você não tem algum livro para me emprestar, não?” perguntou o meu irmão, entediado com a quarentena, assim que eu cheguei na casa da minha mãe no Capão Redondo, bairro da periferia da zona sul de São Paulo, capital. Eu sempre fui a pessoa da família que anda com um livro na bolsa, e para a sorte dele, naquele dia eu tinha vários livros na mala.

Os livros eram justamente os que eu escolhi para fazer esta lista: escritos por autores negros. E como muitos deles retratam o cotidiano da periferia, eu sabia que meu irmão ia adorar. Assim como eu, meu irmão é desses jovens moradores da periferia que, quando descobriu que existe livro escrito por gente como a gente, que mora em bairros parecidos com os nossos, se apaixona e devora tudo o que pode. 

Ainda lembro do dia em que ele me contou que a professora de Literatura falou sobre o Ferréz na aula, um ilustre morador do Capão, e cuja obra ele já havia lido nas férias. Ele disse “ninguém estava prestando atenção, mas foi só ela falar de Capão Pecado que todo mundo começou a ouvir”. Esse é o poder da identificação e da representatividade, né?

Voltando à minha lista: meu irmão gostou tanto das sugestões que pegou três dos selecionados e ainda não me devolveu (entre eles, dois dos meus livros preferidos da vida inteira). Passei um mês na casa da minha mãe e voltei para a minha casa, mas meus livros ficaram. Por isso a tradicional foto do autor do texto na Leitura de Cabeceira com os livros indicados está com alguns desfalques: a culpa é toda do meu irmão. Espero que vocês gostem tanto quanto ele!

1. Quando me descobri negra, de Bianca Santana (Editora SESI-SP)
Descobri Bianca Santana quando ela já havia adquirido notoriedade o suficiente para ser uma das convidadas da mesa de debate com Angela Davis, quando a autora veio ao Brasil em 2019. Por coincidência (ou não), algumas semanas depois, um colega de NOVA ESCOLA colocou na minha mesa esse mesmo livro que eu havia ouvido ela mencionar no palco, dizendo que eu ia amar. E de fato eu amei. Bianca transforma experiências pessoais ou de terceiros (mulheres e homens) negros no processo de autodescobrimento em crônicas curtas e ágeis. O movimento de descoberta da própria cor pode ser doloroso, marcado por questões de racismo estrutural, velado, sutil, desses que você só entende o que aconteceu depois que passou. Que bom que outras pessoas podem contar com o apoio e as reflexões compartilhadas por Bianca Santana a partir de agora.

2. O sol na cabeça, de Geovani Martins (Companhia das Letras)
O jovem escritor carioca escreve, nos 13 contos de O sol na cabeça, sobre a infância e a adolescência de crianças e jovens moradores da favela ou da zona norte carioca (em bairros bem distantes da praia). A convivência com a violência policial e a brutalidade do sistema, o tráfico e o consumo de drogas marcam os dias dos personagens retratados, muitas vezes tentando apenas viver um dia comum. Eu, que sou de São Paulo, aprendi muito sobre a dinâmica urbana do Rio de Janeiro (pela qual tenho um carinho imenso).

3. O ódio que você semeia, de Angie Thomas (Editora HarperCollins)
Um dos meus livros preferidos da vida inteira é um romance young adult, ou jovem adulto, como dizemos em português. O ódio que você semeia é relatado em primeira pessoa por Starr, uma jovem negra que vive entre dois mundos: o dos ricos, de maioria branca, onde estuda; e o da classe média-baixa, de maioria negra, onde mora. Uma tragédia é o acontecimento que dá o pontapé para a vida de Starr virar de ponta-cabeça. Ela é testemunha do assassinato de seu melhor amigo, Khalil, e a partir daí precisa encarar de frente o racismo que existe na polícia, na sociedade, e também nas pessoas queridas. O livro se tornou filme em 2018.

Curso: Literatura no Ensino Fundamental 2

Não sabe como aproximar os alunos do Ensino Fundamental da literatura? A proposta deste curso é discutir estratégias didáticas que contribuam para a formação de adolescentes que sejam leitores literários, por meio da apresentação de gêneros que dialogam com a realidade deles. 

4. Reservado, de Alexandre Ribeiro (Editora LiteraRUA)
Este livro foi um presente. Literalmente, por ter sido de fato um presente de um querido amigo com quem trabalhei aqui em NOVA ESCOLA, e figurativamente também. A obra conta a história de João Victor, um menino imaginativo, quieto, morador da periferia e “da cor do talvez”. O título do livro vem de uma de suas brincadeiras de imaginação preferidas: pensar sobre o destino dos ônibus que dizem em seus letreiros “RESERVADO”, mas também pode trazer reflexões sobre o futuro. O que ele reserva para João Victor, que cresce tentando se desviar da violência do entorno e buscando refúgio em seus cadernos? O que ele reserva para outros meninos como João Victor na nossa sociedade?

Conhece algum outro livro escrito por um jovem negro? Comenta aqui e vamos trocar indicações!

Um abraço,

Paula Peres
coordenadora de criação de NOVA ESCOLA

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