O papel da gestão na formação e articulação da equipe para incluir os alunos

Proporcionar espaços de troca de experiências entre os professores é uma forma de apoiá-los na missão de garantir que nenhum estudante fique para trás

POR:
Paula Salas
A inclusão deve ser uma premissa de todo o trabalho da escola. Ilustração: Julia Coppa

No cotidiano, os gestores escolares atuam muitas vezes como facilitadores. Quando se trata de Educação inclusiva, essa postura é fundamental. Eles têm o papel de  criar as condições, oferecer recursos e apoiar toda a equipe da escola. Um ponto essencial é o de que a inclusão seja uma premissa de todo o trabalho e funcionamento da escola. “Anualmente, [o gestor] deve sentar com os professores para analisar e discutir o PPP da escola. Ele precisa estar atualizado [acerca das discussões sobre educação inclusiva] para poder atualizar os professores em reuniões, rodas de conversas, palestras e cursos”, afirma Maria Teresa Égler Mantoan, coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Diferença (Leped) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

O ensino remoto trouxe novas tarefas para os educadores e muitos relatam estar sobrecarregados. Por isso, ao se  propor uma discussão para pensar a inclusão de todos e as barreiras encontradas, é interessante  abrir espaço e tempo dentro dos horários pedagógicos que já estão garantidos, sem criar uma nova demanda para os professores.

Esses espaços também são ideais para discutir as premissas e valores que a instituição tem a respeito da Educação inclusiva, de forma a garantir um direcionamento de toda a equipe. “Os gestores são responsáveis pela cultura institucional e dos valores e por garantir que toda a equipe domine essas premissas”, afirma Marília Costa Dias, diretora na Escola da Vila, formadora e especialista Educação inclusiva. 

Para Simone Azevedo, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC, vivemos uma segunda etapa do ensino remoto. O primeiro passo dos gestores foi garantir  um grupo bem articulado, fazer esse acolhimento das inseguranças e dificuldades. Sem deixar de lado a preocupação com o bem-estar do professor, é necessário, neste momento, propor uma reflexão das atividades  propostas anteriormente para avaliar o que funciona e o que não, e o que pode ser mudado e mantido. Entenda como podem ser essas trocas entre a equipe para que sejam produtivas para todos:

Aprendendo a partir da prática do colega

Uma forma de continuar a se aprofundar em  algo tão novo que ninguém estava preparado é aprender com a prática. Compartilhar experiências, fazer estudo de caso, aprofundar-se em novas metodologias que favoreçam o ensino remoto. Para assumir esse desafio, é preciso ter um alinhamento na equipe. “Unir os professores para que tenham segurança para tomar decisões”, resume Simone. 

Por isso, é essencial que os professores, aqueles que estão na linha de frente de atuação neste momento, tenham um espaço para trocar essas experiências. “Neste momento, eles aprendem muito mais entre si do que com a gente”, afirma Marília. Por isso, o papel dos gestores é participar, estar à disposição para apoiar os educadores, garantir as trocas e fazer a articulação entre a equipe. 

Para favorecer a troca entre os professores, a gestão deve criar um clima acolhedor para que todos se sintam confortáveis para compartilhar as estratégias adotadas, as dificuldades, o que deu certo e o que não deu. 

Durante essas reuniões on-line é possível refletir e pensar em caminhos para superar as barreiras encontradas por alunos com e sem deficiência. No entanto, não se trata de listar as dificuldades dos alunos e tratá-las como problemas, mas de fazer uma análise concreta dos desafios de cada aluno para pensar em soluções. "O que está impedindo aquele aluno de avançar? É atenção? Então, vale pensar em como criar atividades para que ele se concentre no computador", explica Luiz Conceição, coordenador de formação do Instituto Rodrigo Mendes. 

Essas trocas podem envolver professores de anos diferentes, da mesma área do conhecimento, da sala regular e do AEE. É possível, ainda, propor trocas com outras escolas próximas.  

Conhecer o ponto de partida

A cada ano letivo que começa, os alunos não começam do zero. As experiências anteriores fazem parte daquele estudante e elas são um grande instrumento para o educador pensar o trabalho que vai realizar. Não é diferente com alunos com deficiência. 

Entender as dificuldades, progressos e estratégias que foram bem-sucedidas (ou não) ajudam o professor a pensar na trajetória a ser traçada pelo aluno. “Se houve alguém que acompanhou e utilizou estratégias anteriormente, os docentes atuais poderiam ter acesso a essas informações para não precisar errar de novo”, afirma Luiz. Para ele, essa prática de ter acesso a esse histórico do aluno deveria ser um protocolo adotado pela escola — e não apenas para alunos com deficiência. “Mesmo que se faça uma avaliação diagnóstica, nunca é a mesma coisa que a experiência que o professor anterior teve ao longo do ano”, explica Luiz. 

Essa é uma forma de se ter uma compreensão mais profunda das barreiras do aluno e de sua evolução. “Só consigo  avaliar se sei de onde se está partindo. Caso contrário, vou partir do que é esperado, de uma média, e não de uma realidade do quanto o aluno evoluiu ou não”, diz Luiz. O mesmo se dá para, por exemplo, entender como trabalhar um comportamento. Então, percebe-se que um aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA) está com dificuldade para se concentrar na aula, é possível verificar se era algo que era assim e tinha melhorado — e saber quais estratégias foram adotadas no passado —, ou se é uma dificuldade nova que surgiu pelo ensino remoto, por exemplo. 

Como o especialista coloca, essas trocas são muito proveitosas para a prática do professor. Pensando no contexto da pandemia, em que os educadores tiveram pouco tempo de trabalho presencial, esse conhecimento sobre quem é aquele aluno é ainda mais rico. “Outro aspecto importante são os registros e o portfólio dos alunos como forma de documentar esse percurso”, diz Simone. 

O gestor não precisa saber do histórico integral de cada estudante, mas ele é uma peça fundamental para garantir a articulação entre o professor do ano anterior, o atual e o de AEE — que já acompanhava o aluno — para trocar experiências que colaborem a favor da aprendizagem de todos. 

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