Reabertura das escolas: o que podemos aprender com a experiência de outros países na pandemia

No debate sobre o momento certo para retomar as aulas, o Brasil pode se valer das experiências que deram certo (e outras nem tanto)

POR:
Victor Santos
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Mais de 1,5 bilhão de crianças e jovens foram afetados pelo fechamento das escolas em mais de 190 países desde o início da pandemia. Equivalente em angústia ao desafio do ensino remoto trazido pelo novo coronavírus, somente a perspectiva da retomada das aulas presenciais. Quando e como reabrir as escolas para esses estudantes? Como garantir a saúde de professores e alunos? O quanto o distanciamento social afetou a saúde mental? De que forma garantir o direito à aprendizagem e recuperar conhecimentos daqueles que não tiveram acesso ao ensino remoto?

No Brasil, governadores, prefeitos e organizações ligadas à Educação e à saúde pública estão discutindo a volta às aulas neste momento. Com o país ainda atravessando o pico da pandemia, não está claro se reabrir as escolas em setembro ou outubro será seguro. Uma simulação feita para o estado de São Paulo apontou que a reabertura seria segura com um limite de 20% dos alunos em aulas presenciais. E os outros 80%? Continuariam com as aulas no ensino remoto?



A discussão dos protocolos necessários para a reabertura das escolas, que consta em artigo publicado no site oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), orientou a experiência de vários países – e pode nos ajudar a encontrar apontamentos a partir de erros e acertos.

Os desafios na visão da ONU

O artigo da ONU destaca o cenário complexo causado pela evolução da pandemia em diferentes estágios ao redor do mundo. A preocupação com a interrupção das atividades escolares está diretamente relacionada às desigualdades educacionais entre países ricos e pobres – e se espelha dentro dos estratos da sociedade. “O fechamento das escolas acarreta altos custos sociais e econômicos para as pessoas nas diferentes comunidades”, comenta Vera Capellini, professora do departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru (SP). “O impacto, porém, é particularmente grave para os meninos e as meninas mais vulneráveis e marginalizados, assim como para suas famílias”.

Presidente da Associação Brasileira de Educação Especial, Vera ressalta a importância que o espaço escolar possui até mesmo para as condições de saúde, visto que a merenda oferecida por muitas escolas é a garantia de uma alimentação melhor para milhares de crianças. A escola é também um espaço de escuta atenta a problemas de natureza emocional, como crianças que sofrem violência física. “O contexto da pandemia prejudicou a saúde mental de professores, que viram seus territórios profissionais virarem de cabeça para baixo da noite para o dia, e também a saúde mental dos próprios pais”, aponta a professora. Isso significa que, em vez de apontar dedos, o momento é de unir forças. “Precisamos ter em mente que todos perdemos, e estamos em luto social. Para pensar e planejar o futuro, temos que prover recursos para minimizar os estragos ocorridos”.

Como conduzir a retomada das aulas presenciais

Estúdio Kiwi | NOVA ESCOLA

Para quem é útil: Professores e coordenadores pedagógicos do Ensino Fundamental.
Qual o objetivo: Debater os cenários previstos para a retomada das aulas presenciais - após o distanciamento imposto pela pandemia de Covid-19. E oferecer estratégias e recursos para o replanejamento.


Nesse processo de planejamento, a ONU pontua que os governos devem se antecipar e já colocar em prática as medidas de segurança, cujas condições básicas incluem o acesso a sabão e água limpa para lavar as mãos, a consolidação de protocolos de distanciamento social, e redução do número de estudantes em sala de aula.

Veja a seguir como foram as experiências em alguns países e o que podemos aprender com elas.

Israel: abertura traumática

Na primeira etapa da pandemia no país, entre março e abril, Israel realizou um trabalho competente no controle do número de casos da Covid-19, que incluiu fechamento de fronteiras e a interrupção de atividades presenciais em empresas, estabelecimentos e escolas.

Em maio, o governo optou por retomar as atividades em muitas frentes – como hotéis, bares, restaurantes e locais de culto religioso –, incluindo as aulas em todas as escolas. Veio o caos: um dos colégios de maior prestígio em Jerusalém, Gymnasia Ha'ivrit, identificou dois casos. A escola optou por fechar e recomendar isolamento, além de iniciar uma testagem em massa que levou a um resultado surpreendente: 178 pessoas (153 estudantes e 25 profissionais) foram contaminadas pelo novo coronavírus.

Casos foram registrados em outras escolas e, em pouco tempo, aproximadamente 250 instituições de ensino israelenses precisaram fechar novamente. Uma análise de especialistas identificou alguns pontos que colaboraram para o surto em Israel:

- Três dias depois da reabertura das escolas, com uma onda de calor com temperaturas batendo mais de 40 graus, o governo liberou que os alunos não utilizassem máscaras por três dias
- Na escola que foi o primeiro foco de infecção, o número de alunos por sala de aula superava 30, quantidade acima da recomendável por órgãos especializados
- Houve uma desatenção ao distanciamento social e à ventilação dos ambiente.

Não existe um consenso se foi a reabertura das escolas que ocasionou o surto de Covid-19, mas ainda assim é possível retirar alguns apontamentos dessa tentativa. “O meu entendimento da experiência de Israel é que não podemos relaxar nas medidas de segurança, enquanto não houver uma vacina”, afirma Tatiana Filgueiras, vice-presidente de Educação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. “É muito importante que as medidas básicas – uso de máscara, lavagem das mãos, distanciamento social – sejam mantidas”.

O fato enfatiza um alerta que vem sendo expressado por professores e epidemiologistas. “Ainda que tenhamos prejuízos acadêmicos, a vida deve estar em primeiro lugar. Enquanto não tivermos uma vacina, penso que seja pouco provável que as escolas consigam administrar um retorno às aulas presenciais com segurança”, afirma Vera Capellini.

China: protocolos rígidos

Na China, epicentro da pandemia do novo coronavírus, as escolas ficaram quatro meses fechadas. O retorno foi progressivo, entre abril e maio, e dividido por províncias e por faixas etárias dos estudantes – com priorização para alunos do Ensino Médio.

Os protocolos chineses para reabertura estabeleceram diversos requisitos:

- Só podem reabrir escolas localizadas em regiões sem nenhum caso de contaminação nos últimos 14 dias;
- Todos os alunos e funcionários passam por medição de temperatura diariamente pela manhã;
- As escolas distribuem máscaras, luvas e desinfetantes de mãos para todos os alunos e funcionários;
- Os espaços da escola passam por uma desinfecção diária;
- Os professores devem oferecer acolhimento emocional aos alunos;
- As escolas devem manter um mapeamento detalhado da situação epidemiológica; caso sejam confirmados novos casos, autoridades precisam ser notificadas e o isolamento social deve ser recomendado.

Na China, a medição de temperatura é prática diária para entrar nas dependências da escola. Crédito: Getty Images

Em maio, mais de 107 milhões de estudantes retomaram as aulas presenciais em maio. Nesse primeiro momento, apenas um caso “importado”, de um estudante que viajou ao exterior, foi registrado – dez outros assintomáticos ficaram em observação. Logo depois, 55 casos de viajantes entraram na conta. Em maio, escolas de outras regiões reabriram as portas, incluindo em Wuhan, uma das cidades que foi epicentro da Covid-19. Lá, além das medidas de higiene e distanciamento, os alunos encontraram divisórias de plástico entre as mesas, que podem ser desmontadas e levadas para outras salas, conforme a aula. O nível de risco voltou a ser elevado após a notificação do primeiro caso interno.

Em Pequim, que priorizou a volta às aulas para o Ensino Médio e Fundamental, os alunos receberam pulseiras para controle de temperatura corporal, que emitem um alerta se for detectada uma leitura elevada.

Coreia do Sul: retomada gradual

Considerada um dos países que melhor lidou com a pandemia, a partir da sua política de testagem em massa, a Coreia do Sul iniciou a reabertura das escolas no final de maio. Da mesma forma que a China, esse retorno foi gradual e começou pelos alunos do Ensino Médio.

As exigências da reabertura sul-coreana foram similares às chinesas:

- Uso obrigatório de máscaras em toda a escola;
- Escalonamento dos horários de aulas e intervalos;
- Medição da temperatura de alunos e funcionários da escola diariamente pela manhã;
- Regras claras de distanciamento social; os alunos se sentam sozinhos em mesas que anteriormente abrigavam dois estudantes.

Apesar de todo esse cuidado, houve alguns problemas: escolas da região da capital Seul precisaram fechar poucos dias depois da reabertura, enquanto mais de cem tiveram que adiar a reabertura, pois dois estudantes foram diagnosticados com o novo coronavírus.

França: retomada voluntária

A França iniciou a retomada, de forma voluntária, na primeira quinzena de maio, priorizando Ensino Infantil e Fundamental. No final de junho, a volta foi obrigatória para todos os alunos de Fundamental e Médio, ainda que por apenas duas semanas – pois logo se iniciaram as férias de verão por lá.

Na França, o distanciamento social determinado entre alunos foi de quatro metros quadrados. Com isso, a quantidade de alunos por turma precisou ser reduzida pela metade. Crédito: Getty Images

O ministro da Educação Jean Michel Blanquer alegou que reabrir era necessário por uma questão de “emergência social” – referindo-se a preocupações como fracasso escolar e evasão. Os protocolos franceses para reabertura foram rigorosos: medidas de desinfecção e higiene de todos os tipos, máscaras obrigatórias para professores e estudantes maiores de 11 anos, distanciamento social de quatro metros quadrados entre alunos, e redução do tamanho das turmas, de 30 para 15 estudantes.

Ainda assim, uma semana após a reabertura, 70 das 40 mil escolas francesas precisaram fechar novamente, por conta da identificação de casos da Covid-19 – não se sabe ao certo se o contágio ocorreu nas próprias escolas, pois o período de incubação é de 14 dias, podendo a contaminação ter ocorrido na semana anterior à reabertura.

Alemanha: retomada em etapas

Já na Alemanha, nação que, assim como a Coreia do Sul, foi considerada uma das referências no combate ao novo coronavírus, a reabertura oficial se deu mais tarde, nas primeiras semanas de agosto, e de forma faseada por estados (alguns voltarão apenas no início de setembro).

Os protocolos alemães incluem medidas bem definidas de distanciamento social e higiene, escalonamento de aulas, e em muitos estados, o uso de máscaras também é obrigatório. No entanto, mesmo com esse cuidado, duas escolas do norte do país precisaram fechar novamente, por conta da confirmação de novos casos de Covid-19 entre estudantes e professores.

Reino Unido: campanha do governo

No Reino Unido, o governo chegou a fazer campanha para a reabertura das escolas, com ministros discursando sobre a importância das aulas presenciais. As escolas reabriram as portas no início de junho, com mudanças que afetaram também a pré-escola. Em vez de assistirem às aulas sentadas lado a lado no carpete, as crianças foram acomodadas em carteiras, um modelo de sala de aula menos interativo. Todas as salas são equipadas com álcool gel e lenços umedecidos.

As aulas foram programadas para que apenas parte do corpo discente e docente esteja presente ao mesmo tempo na escola. Um grupo frequenta as aulas de segunda e terça, o outro de quinta e sexta-feira. Na quarta-feira, cada sala de aula é limpa passa por uma limpeza minuciosa.

As aulas foram interrompidas no meio de julho, seguindo o calendário escolar para férias de verão. Agora, o primeiro-ministro Boris Johnson quer retomar a todo custo as aulas em setembro, mas um estudo publicado em agosto aponta a alta possibilidade de uma segunda onda do novo coronavírus no inverno (no Hemisfério Norte), duas vezes maior que o primeiro surto, se não houver um sistema de teste e rastreamento rigoroso implementado.

A limpeza faz parte da rotina no Reino Unido, mas às quartas-feiras a limpeza é  minuciosa. Crédito: Getty Images

Dinamarca: medidas reforçadas

Na Dinamarca, a reabertura das escolas ocorreu em 15 de abril, com professores orientados a reforçar algumas medidas. As crianças têm de lavar as mãos de cinco a seis vezes por dia e as turmas de 20 alunos foram divididas em dois para garantir o distanciamento social. Ainda assim, eles são lembrados constantemente para manter distância entre si. Na hora do recreio, as crianças podem brincar em grupos de no máximo quatro e cada grupo fica em um canto do pátio.

Apesar da retomada ter sido bem planejada e executada, houve alguns registros de Covid-19 entre professores.

Portugal: preparação para reabertura

Como aconteceu em outros países, a volta às aulas em Portugal priorizou alunos dos dois últimos anos do Ensino Médio. Na segunda quinzena de maio, 200 mil estudantes seguiram as orientações sobre uso obrigatório de máscara, lavagem das mãos ao chegar e sair da escola, reorganização de horários e espaços.

Na pré-escola, as crianças retomaram atividades por apenas duas semanas, mesmo assim com muitos pais preferindo manter os filhos em casa graças à ajuda do governo. Os demais alunos seguiram com as aulas via internet e na televisão.

As Forças Armadas distribuíram mais de 4 milhões de máscaras, 17 mil litros de desinfetante e outros equipamentos de proteção e higiene para centros educacionais.

Como boa parte dos países europeus, o primeiro semestre vai de setembro a janeiro (com recesso no Natal e no Ano Novo) e o segundo, de fevereiro a junho. Além das medidas que seguem a cartilha da ONU, existe a possibilidade de divisão de turmas, os alunos deverão usar máscaras e ter álcool gel à disposição. As escolas devem ter corredores de circulação livres e regras claras sobre permanência e horários para as refeições.

Agora, o país vive um intenso debate sobre a retomada geral, marcada para setembro. A expectativa é que isso ocorra em um cenário "o mais próximo possível do início normal do ano letivo”, segundo a ministra de Estado e da Presidência do país, Mariana Vieira da Silva. O distanciamento social e o escalonamento na entrada e saída serão postos em prática para minimizar as chances de contágio.

Lições para o Brasil

A preocupação com medidas sanitárias tem sido uma constante nos debates sobre a retomada das aulas no Brasil. De acordo com epidemiologistas e especialistas da saúde pública, as diferentes realidades entre as regiões brasileiras fizeram com que escolas que sequer conseguiam garantir instalações adequadas enfrentem agora esse desafio. “Vai ter que ter instalações para lavagem de mão, higienização, distanciamento e vai ter que ter um programa de cuidado para reincluir, sobretudo, as crianças e adolescentes que ficaram desvinculados nesse período e não puderam estudar da mesma maneira como outras crianças. Tem que ter um cuidado individualizado”, afirma a representante do Unicef no Brasil, Florence Bauer, em entrevista à Agência Brasil.

Para a vice-presidente de Educação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Tatiana Filgueiras, há uma lição principal a ser assimilada a partir das experiências na França e Alemanha. “Existe um cuidado sendo tomado na Europa, que é observar, após a reabertura, como cada escola e como cada comunidade escolar se comporta – recuando quando necessário”, analisa. “Se após a reabertura, há um aumento da incidência da doença dentro da própria comunidade escolar, elas recuam e se organizam para fazer uma segunda reabertura”.

Dessa forma, na avaliação de Tatiana, não existe uma regra geral sobre como agir nessa situação, porque o comportamento da curva da doença vai se dar de forma diferente em comunidades diferentes. “É preciso ter uma ‘lupa’ para enxergar quais são as comunidades, quais são as escolas, e quais são os bairros que precisam ainda ter cuidados mais diferenciados. Abrir todas as escolas indistintamente de uma vez só, ou fechá-las da mesma forma, não é uma decisão sábia a ser tomada agora”, salienta a profissional. “A gente precisa enxergar, diagnosticar a curva da infecção para cada grupo, para cada território geográfico, e as medidas de abertura, reabertura e de segurança precisam seguir e respeitar as especificidades locais”.

Para consolidar esse cenário, a vice-presidente de Educação e Inovação do Instituto Ayrton Senna só visualiza uma saída. “É preciso fazer muito exame, ter muita pesquisa, ter muito dado, para que esse monitoramento possa ser feito em tempo real, garantindo que tanto a abertura quanto o fechamento possam ser feitos com base em dados reais de cada comunidade”.

Marco de ação e recomendações para a reabertura das escolas

A preocupação global com a questão da retomada das atividades escolares levou quatro órgãos vinculados à ONU – a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Banco Mundial e o Programa Mundial de Alimentos – a elaborarem o Marco de ação e recomendações para a reabertura das escolas.

O documento aponta seis dimensões principais que devem nortear o planejamento desse retorno: operações seguras; aprendizagem; inclusão dos mais vulneráveis; bem-estar e proteção; políticas públicas e financiamento – sendo os dois últimos itens essenciais para criar o ambiente favorável para a aplicação das outras quatro dimensões.

Entre os principais tópicos dessas recomendações estão:

- Aberturas escalonadas, protocolos claros e de fácil compreensão sobre medidas de distanciamento físico e de higiene, priorização das atividades ao ar livre e outras atitudes focando na proteção de saúde de alunos, professores e demais funcionários;
- Capacitação de professores e funcionários em relação a esses protocolos, e procedimentos claros em relação a possíveis infecções na comunidade escolar;
- Treinamento de professores para melhor lidarem com questões ligadas a mudanças comportamentais e cognitivas, sempre priorizando diálogo e comunicação clara entre os envolvidos;
- Incentivar o uso de substâncias higienizadoras para mãos, enfatizar o uso da máscara (quando recomendado por autoridades nacionais), e sempre disponibilizar informações sobre higiene e sobre a própria covid-19;
- Priorizar o financiamento que auxilie no suporte a novas necessidades de recuperação de aprendizagem, especialmente para estudantes desfavorecidos

Desse modo, o documento deixa clara a importância dessa reabertura ser orientada pelo melhor interesse dos estudantes e por considerações gerais de saúde pública, com as decisões sendo tomadas após análise de todos os benefícios e riscos, e em conjunto com todas as partes interessadas no âmbito dos estados e municípios. “Considerando as evidências científicas, e as experiências de alguns países que já voltaram às aulas, acredito que a autonomia das escolas deve prevalecer”, conclui a professora Vera Capellini. “Cada comunidade escolar deve refletir sobre as reais condições que cada contexto escolar tem de voltar ou não”.