Competências gerais e socioemocionais: como fazer o melhor uso delas?

Em um cenário em que é preciso estar aberto ao novo, trabalhar de forma colaborativa e desenvolver habilidades digitais, professores e alunos precisam recorrer ainda mais às competências para seguir com o aprendizado, mesmo à distância

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images


Quando foi a última vez que você se lembra de ter visto professores colaborando tanto uns com os outros para aprender coisas novas? E falando em aprender, teve alguma ferramenta que você achou que não fosse conseguir usar de jeito nenhum, sofreu um pouco, tentou, tentou, e no fim, dominou tanto que até ensinou os colegas a usar?

Pois é, o cenário trazido pela pandemia da Covid-19 lançou os professores num cenário inesperado de aulas remotas e ferramentas tecnológicas. “O professor precisou se organizar, ter foco, estudar, encontrar saídas diante dessa confusão toda”, comenta a formadora de professores Selene Coletti, colunista de NOVA ESCOLA e com ampla experiência na rede pública de ensino. “Foi preciso ter resiliência emocional, tolerar o estresse e a frustração, testar e manusear novas ferramentas – estando aberto ao novo – e também realizar a autogestão”.

Ou seja: foi preciso que os próprios professores desenvolvessem as tão faladas competências socioemocionais, que são essenciais para o desenvolvimento pleno dos estudantes, e se tornaram um tópico que merece especial atenção no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Afinal, de que competências estamos falando?

O termo "competências", de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), diz respeito à “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atividades e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”. Na prática, isso se refere à necessidade de os estudantes conseguirem articular seus conhecimentos no dia a dia, sempre seguindo preceitos como ética, sustentabilidade, direitos humanos e justiça social.

O próprio texto da Base indica que as competências socioemocionais estão entrelaçadas às competências gerais. Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare e que foi uma das leitoras críticas da BNCC a convite do Ministério da Educação (MEC), defende que "as socioemocionais são recortes das competências gerais". Em entrevista a NOVA ESCOLA, ela argumentou que não existe hierarquia entre competências gerais da Base e socioemocionais, já que "tudo faz parte da Educação integral". "A dica é: trabalhe as competências gerais que você trabalhará as socioemocionais", diz.

Fazer essa conexão entre competências de olho na vida que é construída dentro e fora da escola deve estar no radar do educador. "É importante fazer a ligação das competências socioemocionais com as competências gerais que estão na BNCC", concorda a formadora Selene. "Elas dialogam com as competências gerais Pensamento Científico, crítico e criativo (2), Projeto de Vida (6), Autoconhecimento e autocuidado (8), Empatia e cooperação (9) e Responsabilidade e cidadania (10). A competência 8, por exemplo, vai fazer toda a diferença para que ao conhecer-se eu consiga saber quem eu sou e, por conseguinte, entender o outro". 

Entendendo as competências socioemocionais

As competências socioemocionais vieram da área da Psicologia, quando, ainda nos anos 1930, começou-se a tentar descrever em palavras os traços da personalidade humana. Algumas décadas à frente, nos anos 1980, as socioemocionais foram consolidadas em forma de definição e organizadas em cinco eixos. Cada um desses eixos traz qualidades (ou traços de caráter) que podem se entrelaçar com competências cognitivas, criando capacidades híbridas, como por exemplo a criatividade e o pensamento crítico.

“As competências socioemocionais possibilitam a mobilização, a articulação e a prática de conhecimentos, valores e atitudes necessárias para se relacionar com os outros e consigo mesmo, estabelecer e atingir objetivos, e a enfrentar diferentes situações de maneira mais criativa e construtiva”, sintetiza Gisele Alves, especialista em Educação Integral do Instituto Ayrton Senna, instituição que trabalha ativamente a Educação Integral a partir das socioemocionais em projetos com governos municipais.

As competências socioemocionais estão constituídas da seguinte maneira: Abertura ao novo (curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico), Consciência ou Autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade), Extroversão ou Engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo), Amabilidade (empatia, respeito e confiança) e Estabilidade ou Resiliência emocional (autoconfiança, tolerância ao estresse e à frustração).

“A chave para entender as socioemocionais é saber que é importante que as crianças não tenham somente o aprendizado das diferentes áreas de conhecimento, mas que saibam também resolver os problemas que acontecem ao seu redor”, esclarece a educadora Selene Coletti. “Para isso, elas precisam saber trabalhar em grupo, ter empatia, responsabilidade, e uma porção de outras características que estão compreendidas nas competências socioemocionais”.

Como as competências se relacionam com o aprendizado

O que os pesquisadores e especialistas das áreas de Educação e Sociedade enfatizam é que essa preocupação com as socioemocionais não se restringe ao contexto atual da pandemia do novo coronavírus. O professor Luiz Scorzafave, que coordena o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), aponta que a literatura sobre a temática sempre demonstrou que o desenvolvimento das socioemocionais está ligado a vários aspectos da vida das pessoas.

“Elas estão relacionadas a questões como aprendizado escolar, melhor inserção no mercado de trabalho, menor envolvimento com criminalidade e com comportamentos de risco na adolescência, e melhores indicadores de saúde na vida adulta”, relata o professor. Ele explica que esse trabalho com as socioemocionais desde cedo é importante para ajudar os estudantes a se conhecerem melhor e, ao longo do tempo, se tornarem aptos a decidir no que querem se desenvolver, com liberdade, consciência e respeito à individualidade. “Vale destacar que esse processo é único e pessoal. O papel da escola é propiciar as condições para que essa reflexão ocorra, e que seja dado o suporte para que cada aluno possa dar esses passos”, afirma.

A temática de que o desenvolvimento das competências socioemocionais pode afetar a vida do indivíduo e propiciar uma situação de maior bem-estar no futuro foi analisada por um estudo recente realizado pelos pesquisadores da USP Ribeirão Preto. Em 2019, em mais de 80% das escolas públicas e privadas do município foram aplicados questionários bem diversos aos alunos de 3º e 4º anos. Eram questionários socioeconômicos sobre hábitos de estudo, apoio dos pais, contexto domiciliar, pertencimento à escola e questões trabalhando competências socioemocionais, além de avaliações de Língua Portuguesa e Matemática.

“As competências socioemocionais são muito importantes para que tomemos decisões e façamos escolhas em diversas esferas da vida que, com maior probabilidade, vão nos levar a uma situação de maior bem-estar no futuro”, diz. Cerca de 12 mil anos participaram da pesquisa. “Apesar de os dados ainda estarem sendo analisados com mais detalhe, fica muito clara a relação entre o desenvolvimento das competências socioemocionais e o desempenho nas avaliações cognitivas: alunos com maior autogestão, maior amabilidade e maior abertura a novas experiências possuem melhor desempenho em Português e Matemática”, afirma.

Competências socioemocionais na pandemia

Ainda que tenham sido tópicos importantes para o trabalho em sala de aula, é claro que em um contexto como o da pandemia, potencializar qualidades como empatia, tolerância a frustrações, foco e responsabilidade tornou-se ainda mais necessário – para todos os envolvidos nesse desafiador ensino remoto em 2020.

“Dentro do quadro da pandemia, a abertura ao novo e a curiosidade para aprender foram de extrema importância para todo mundo”, constata a educadora Selene Coletti. A partir do seu trabalho como formadora de professores, Selene avalia que equipes gestoras precisam estar um passo à frente para apoiar os educadores. “O professor teve que encontrar um jeito novo de trabalhar; o aluno, por sua vez, viu que precisava desenvolver outras capacidades e habilidades para se adequar a essa situação; e por fim a família, que mesmo sem ter formação docente, precisou assumir a responsabilidade para que seus filhos fizessem as propostas enviadas remotamente”. Tendo acesso ao maior número possível de informações, os docentes poderão desenvolver e fazer uso dessas competências — para se sentir seguros o suficiente para propor atividades que trabalhem esses atributos socioemocionais.

Essa constatação também é reforçada pela especialista Gisele Alves, do Instituto Ayrton Senna. “O desenvolvimento intencional das habilidades socioemocionais em ambiente escolar é mais efetivo se ocorrer de modo sequencial, ativo, focado e explícito, sendo necessário planejamento para que isso aconteça”, pondera. A definição das estratégias de apoio deve estar articulada sempre ao currículo, diz ela. A partir dessa perspectiva, o instituto desenvolveu, em parceria com o Conselho Estadual de Educação (Consed) uma iniciativa com conteúdos socioemocionais, visando apoiar as redes de ensino em meio ao desafio de aulas a distância e retomada das atividades.

Volta às aulas: fazendo bom uso das competências socioemocionais

O trabalho com competências socioemocionais, com intencionalidade e metodologias claras, será importantíssimo no momento de retorno dos estudantes às escolas, que está sendo discutido e realizado em algumas partes do país. “A escola deve estar preparada para dar suporte aos alunos, por meio de uma escuta ativa e de acolhimento”, afirma o professor Luiz Scorzafave, da Unesp. A razão é que muitas crianças e jovens têm sofrido com o isolamento social, alguns inclusive com questões sérias no ambiente familiar, ligados à violência doméstica.

"Não faz sentido que as escolas se preocupem em recuperar o 'tempo perdido' com a cobertura dos conteúdos curriculares se os estudantes não estiverem com saúde mental para retomar adequadamente o processo de aprendizagem", entende o professor. "Falar do contexto da pandemia, das dificuldades que cada estudante teve, de como conseguiu superá-las (ou não) pode ajudar nesse processo de retorno, de auto-conhecimento acerca das suas competências socioemocionais e de mitigação dos efeitos da exposição por um longo período a fatores de estresse tóxico".

Nesse ponto, fica mais evidente o quanto será fundamental fazer a ligação das competências socioemocionais com as competências gerais da BNCC. “As socioemocionais dialogam com competências como a 8, que trata de autoconhecimento e autocuidado, a competência 6, que trata da questão de fazer escolhas, autonomia e diversidade, e a competência 9, que fala de empatia, diálogo e respeito – e que eu considero a principal delas nesse momento”, diz Selene.

Assim, a educadora enfatiza como será essencial criar espaços em que os alunos tenham voz e vez: o professor deve ouvir os alunos, estimulá-los a expressar o que estão sentindo, e trazer propostas para incentivar a curiosidade e a busca por conhecimentos sobre determinados assuntos, sempre norteados pela escuta ativa e espaços de diálogo, que vão ajudar a lidar com as tantas dúvidas e indefinições desse contexto da pandemia. “Essa volta é um cenário de muita incerteza, e por isso, as competências socioemocionais farão muita diferença”, conclui. E, uma vez aprendidas, desenvolvidas e exercitadas, essas competências nos acompanharão pela vida.