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Como apoiar os jovens a pensar em seus projetos de vida?

Evento Jornada de Trajetórias de Vidas permite que jovens reflitam sobre o futuro a partir de experiências de 37 profissionais em diferentes carreiras

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Paula Salas
O estudante paraibano Kelson Adrian acompanha o evento Jornada de Trajetórias de Vidas, iniciativa da Fundação PoliSaber e Itaú Educação e Trabalho. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA 

Em um mundo em constante transformação, escolher uma carreira parece cada vez mais difícil. “Atualmente, trabalho como voluntário, mas também sou microempreendedor de uma papelaria personalizada, além de cursar o Ensino Superior com muitas dúvidas (sobre a carreira)”, diz Kelson Adrian, 18 anos, quase dois anos após concluir o Ensino Médio. Ele foi um dos mais de 17 mil jovens inscritos na 22ª edição do Jornada de Trajetórias de Vidas, que aconteceu entre os dias 20 e 26 de agosto. O evento visa trazer informações e experiências de profissionais que auxiliem os jovens a pensar em seus projetos de vida. Este foi o segundo ano em que a iniciativa da Fundação PoliSaber contou com a participação do Itaú Educação e Trabalho, instituição que atua com foco nos jovens, visando fortalecer espaços de discussão com a sociedade civil e políticas públicas de Educação Profissional e Tecnológica.

Em razão da covid-19, tudo foi realizado a distância e transmitido pela internet, o que permitiu alcançar jovens de todo o Brasil. "Essa conexão é muito potente porque mostra como são múltiplos os caminhos profissionais. Além disso, o evento a distância ampliou o alcance e permitiu que pessoas de vários estados do País participassem", afirma Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho. Foram 12 mesas sobre carreiras e 5 pockets (conversas mais breves), que abordaram competências profissionais, além da abertura e do encerramento, somando quase 20 horas de evento (veja no canal do cursinho da Poli).  

Gilberto Alvarez Giusepone Jr., diretor-presidente da Fundação PoliSaber, partipou da mediação das mesas de discussões durante o evento. Crédito: Paula Brandino/Divulgação

Kelson acompanhou toda a programação e leva para casa novas ideias para planejar seu futuro. Seguir carreira militar para se tornar bombeiro é uma possibilidade que chama atenção do jovem empreendedor que, hoje, cursa Publicidade e Propaganda. A reflexão dele sobre o projeto de vida chegou ainda na escola, quando cursou em Campina Grande (PB) no Ensino Médio o técnico de Equipamentos Biomédicos na rede estadual. Nesse período, ele teve experiências e discussões sobre projetos de vida e entendeu que a área da saúde não era o que desejava seguir. "Me deu um norte para pensar. Sem dúvidas, todo o apoio e incentivo na escola me abriu para o que eu sou hoje", reflete. Apesar de ainda não ter certeza da carreira, ele sabe que é protagonista da construção de seu próprio futuro.

Empreendedorismo e protagonismo

Entre tantas opções, Kelson divide-se por três trajetórias: carreira militar, o empreendedorismo e a comunicação social. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Basta uma boa ideia para fazer sucesso no empreendedorismo? Rafael Freitas, fundador da Numenu, e João Pedro Borges, CEO na DreamShaper, afirmam que se trata de mais do que abrir um negócio próprio, mas ser protagonista da própria vida. "Se tem um olhar atento para os problemas e tem vontade de resolvê-los, você possui espírito empreendedor. Não tem receita para o sucesso", afirma Rafael.

Para Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, o projeto de vida vem para ajudar a ampliar os horizontes dos alunos. Crédito: Ricardo Matsukawa/Divulgação 

Conhecimentos e experiências para construir um projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade é uma das dez competências gerais previstas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e uma competência específica do Ensino Médio. "O projeto de vida é fundamental porque coloca as decisões em perspectiva, ajuda a enxergar as trajetórias possíveis como algo que vai sendo construído. É o começo de um planejamento de vida", diz Ana. Atribuir sentido às aprendizagens e conectá-las com os desafios futuros é papel da escola. “Acho fundamental que, desde criança, se possa ressignificar o mundo do trabalho e desenvolver habilidades, tais como espírito de equipe, criatividade e empatia”, afirma Gilberto Alvarez Giusepone, diretor-presidente da Fundação PoliSaber.

Expectativa x Realidade: as profissões no futuro

Fausto Augusto, diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), e Rafael Camelo, diretor de Monitoramento e Avaliação no Plano CDE, discutiram as expectativas da escolha profissional. Entre as principais mensagens, colocaram a necessidade de não se prender a uma única trajetória e ser resiliente para aproveitar os diversos caminhos, abarcando a influência de diferentes atores da sociedade. "O sucesso é uma conquista coletiva. Juntos podemos construir um futuro melhor", afirma Fausto.

Construir uma trajetória não é uma linha reta
Trajetórias são construídas a partir de experiências e aprendizagens consolidadas ao longo do percurso da vida. Serginho Groisman, jornalista e apresentador, contou na mesa de abertura que, antes de chegar à Comunicação, passou por outros cursos e que nenhuma dessas experiências foi perda de tempo. “Também não acredite que erro é irreparável, que é um caminho sem volta.”

Quando somos jovens e vemos um profissional de sucesso, parece algo distante ou que ele chegou lá de uma hora para outra. Isso muda completamente quando ouvimos as trajetórias, o contexto, as oportunidades e dificuldades que os levaram até onde estão. "Eu gostei muito de poder me identificar com os palestrantes", conta Kelson. Como o estudante, quem participou do evento pôde ouvir histórias como a de Ana Paula Abi Daud, que hoje é gerente de relações governamentais no Itaú Unibanco. "Sou de uma família muito simples. Eu sonhava fazer Medicina, não conhecia oportunidades, mas era bonito ser doutor", contou, durante a mesa Comunicação e Marketing. Foi no cursinho que se deu conta de que seu sonho estava na Comunicação. "Um dos objetivos do projeto de vida é ajudar o jovem a perceber que o horizonte de possibilidades é mais largo do que ele imagina. E também menos linear”, diz Ana Inoue.

Competências do século 21

Para Marcelo Féres, as escolas devem preparar o aluno para ir além de saber o conteúdo, mas que ele saiba agir e mobilizar os próprios conhecimentos. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Adriano Bandini, especialista em diversidade e inclusão do Itaú Unibanco, e Marcelo Féres, professor do Instituto Federal de Brasília, abordaram competências necessárias para que os jovens se preparem para o futuro. "É mais do que estudar, mas ter capacidade de agir e mobilizar conhecimentos", diz Marcelo. Para ele, é preciso repensar o modelo educacional para que seja mais estimulante e vincule teoria e prática. Para Adriano, um dos principais pontos é o autoconhecimento.


Não foram compartilhadas fórmulas secretas ou atalhos a serem seguidos. Muitos convidados reforçaram e incentivaram o estudo ao longo de toda a vida. "Quem vai para a área da saúde tem de estudar sempre. Pega na alma da gente que é curioso. Todo dia é um aprendizado", reflete a enfermeira Maria Aragão. Ela conta que jamais pensou que chegaria aonde está hoje, mas que lutou e estudou muito para conquistar o lugar que ocupa.

Fato é que o futuro nem sempre se dá da forma que imaginamos, mas os relatos mostraram a importância de abraçar as oportunidades para se desenvolver. Durante a mesa Tecnologia da Informação e Ciências da Computação, Plínio Sobrinho Olinto, superintendente de Dados e Analytics de Tecnologia no Itaú Unibanco, contou como sua trajetória se desdobrou em caminhos que não imaginava a partir de uma escolha. "Meu sonho era jogar futebol. Era uma época que precisávamos de grana. Fui trabalhar como jovem aprendiz em uma rede de hotéis e tomei gosto pela Administração", conta. O acesso à universidade não foi um caminho simples. Mas com uma bolsa integral do ProUni, teve acesso ao Ensino Superior. "Foi um divisor de águas." A partir de então, saiu do Rio de Janeiro, trabalhou em diversas áreas do Itaú até receber a oportunidade de criar e liderar a área de TI do banco.

Na difícil tarefa de decidir a vida depois do Ensino Médio, o evento Jornada de Trajetórias de Vidas buscou apoiar e orientar os jovens a pensar em seu projeto de vida. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Construindo trajetórias 

Liedi Bernucci, diretora da Escola Politécnica da USP, e Anapatrícia Morales Vilha, professora na Universidade Federal do ABC, trouxeram a mensagem de que é preciso investir nos sonhos estudando. Para Anapatrícia, não há segredo: "É muita transpiração. Não tem o que fazer: estudo, bom planejamento e estratégia para alcançar seus objetivos", afirma. Outra mensagem foi não ter medo de mudar quantas vezes for necessário, independentemente de idade.


Outra mensagem forte das mesas foi de que a escolha do curso não determina uma carreira. “Economia, por exemplo, é mais uma forma de pensar, de alocar recursos da maneira mais eficiente. Tem muitas possibilidades de colocação no mercado", explica Gabriel Besbati, analista sênior de Relações com Investidores no Itaú Unibanco, na mesa Administração e Mercado Financeiro.

Estudantes perguntaram sobre a experiência das palestrantes mulheres no mercado de trabalho. O tema apareceu forte tanto na mesa Engenharia quanto no pocket Construindo Trajetórias, que contou com a participação da primeira mulher em 124 anos a assumir a direção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). "Uma meta que eu coloquei para mim foi inspirar mulheres de que é possível estar em qualquer lugar, em qualquer posição. É na diversidade que temos os melhores resultados", afirma Liedi Bernucci.

O encerramento também tratou do tema. "Nos livros de História estão registradas as histórias dos vencedores, mas o mundo não acontece se não tiver comida na mesa, roupa limpa, idosos e crianças cuidados. Não falamos do trabalho de reprodução [tarefas domésticas e de cuidados com os filhos, que não são remuneradas], só o de produção é importante", afirma Bianca Santana, jornalista, professora, escritora e ativista. Para ela, quando existir um equilíbrio na divisão dessas tarefas teremos mais mulheres em lugares de destaque. 

A professora Bianca Santana fala sobre Mulheres no Mundo do Trabalho" durante o fechamento do evento Jornada de Trajetórias de Vidas. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA 

Traçando um paralelo com sua própria carreira, Bianca valoriza o papel da Educação para transformação. "Ela nos apresenta possibilidades de mundo, nos ajuda a ter uma visão crítica. Sem Educação, ficamos vulneráveis." Mensagem importante para estudantes que estão na reta final da escola em um contexto de pandemia. Além dos temas destacados, as conversas também envolveram carreiras nas áreas de Artes e Design, Carreiras Militares, Comércio Exterior, Direito, Educação, Educação Física e Esportes e Psicologia. "Todos os convidados inspiraram os jovens para que tenham coragem de seguir", avalia Gilberto, da PoliSaber.

 Saber, querer, fazer 

"Onde vamos colocar nosso tempo e energia pelo resto da vida?", questiona Fernanda Caloi, gerente de programas do Google for Startups no Brasil. Em conversa com Paulo Tenório, CEO da Trakto.io, eles discutiram o que é ser empreendedor. Segundo os convidados, para pensar no futuro é impossível não pensar em impacto: "O que eu faço ajuda ou atrapalha o planeta? Se não for criar uma coisa que ajuda o mundo, vamos criar outra coisa?", reflete Fernanda. Com essa perspectiva, Paulo coloca que ao criar uma empresa é preciso ter persistência e um olhar para o futuro, a longo prazo.

É no presente que se constrói o futuro
O Ensino Médio possui alta taxa de evasão e é a etapa de ensino mais mal avaliada na Educação Básica. Aqueles que permanecem e concluem a escola são desamparados pelas políticas públicas. "Se queremos uma nação próspera precisamos dar as condições, possibilidades para que os jovens se desenvolvam", afirma Ana. "Para extrair ouro de uma mina  é preciso investir. Se não criar as condições, o ouro vai ficar lá. É o que ocorre com os nossos jovens. São ouro! E o que fazemos no Brasil é um desperdício de inteligência, criatividade e potência de milhões de jovens quando não investimos fortemente na Educação deles", reflete Ana. Por isso, é necessário pensar em políticas que apoiem o jovem a dar os próximos passos ao concluir o Ensino Médio. "Precisamos pensar em uma política para a juventude de forma integrada e intersetorial, a área da educação, trabalho, saúde, cultura, segurança e lazer."

Por isso, tratar sobre projeto de vida na escola e em eventos como a iniciativa da Fundação PoliSaber e do Itaú Educação e Trabalho é tão relevante para apoiar os jovens, ajudá-los a entrar em contato com diferentes profissionais e carreiras e trazer insumos para inspirá-los a pensar nas próprias trajetórias de vida.

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