A importância de nós, professores, nos cuidarmos e termos esperança

Busque alternativas para se sentir bem nesta pandemia e olhar a realidade que nos rodeia com serenidade, mas sem viver passivamente esperando por mudanças

POR:
Evandro Tortora
Foto: Getty Images

Queridos e queridas colegas, neste texto convido vocês a fazerem uma pausa e respirar. Isso mesmo, respirar bem fundo, de preferência com os olhos fechados e  sentado em um lugar confortável para colocar as ideias no lugar e refletir sobre sua rotina. Essa pausa relaxante seguida dessa reflexão é um convite para que preste atenção a sua saúde.

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Desde o início da pandemia temos passado por maus bocados, não é? Fomos obrigados a aprender muita coisa para dar conta de demandas novas que chegaram. Estávamos preparados para isso? Me atrevo a dizer que não.

Hoje produzimos vídeos, preparamos e assistimos lives, conversamos com as famílias e crianças pelo WhatsApp, Facebook, Instagram, Youtube, produzimos e pesquisamos materiais para as crianças... Quanta coisa!

Eu nem preciso falar aqui da própria rotina de casa, não é? Cuidar dos filhos, cozinhar, supermercado, limpeza... Coisas do dia a dia que, por mais comuns que possam parecer, também dão muito trabalho.

Aliadas a tantos afazeres pessoas e profissionais, as notícias que nos acompanham no cotidiano não têm sido boas. Aos ligarmos a tevê, presenciamos tristes cenas de violência e racismo gratuito. Sem falar no desrespeito às medidas de contenção à covid-19, com aglomerações que insistem em acontecer e desrespeito quanto ao uso de máscaras. Isso me deixa extremamente chateado, afinal, quanto maior for esse desrespeito, mais tempo ficaremos nessa situação estressante de pandemia.

Esta semana, chegamos a mais de 100 mil lutos causados pela pandemia, o que entristece qualquer um! São milhares de pessoas que se foram e muitos de nós podemos citar pessoas muito queridas que infelizmente estão entre estes que se foram.

Todo esse contexto tem me afetado muito, assim como tem acontecido com várias colegas de trabalho. Sentimentos de ansiedade, medo, esgotamento, estresse, tristeza etc. pairam no ar. É uma carga emocional que pode prejudicar, por isso aponto aqui a importância de estarmos atentos a nossa saúde.

Não sou especialista no assunto saúde mental, mas gostaria de  compartilhar com vocês algumas coisas que tem me feito bem e tentar, de alguma forma, dar algum suporte como alguém que entende perfeitamente que não é nada fácil ser professor (principalmente dentro de uma pandemia).

A primeira coisa que fiz foi perceber que não estava bem! Algo estava errado comigo, logo comecei a refletir sobre tudo o que estava acontecendo ao meu redor e cheguei a conclusão de que estava imerso num mar de pessimismo e ficando sobrecarregado dentro de trabalho num lugar que, antes da pandemia, era o local de descanso – a minha casa.

Parei e respirei fundo! Desliguei o noticiário por um tempo, conversei muito com as pessoas que amo, dediquei um período a fazer o que gosto. Lendo isso, talvez pareça meio óbvio tomar esse tipo de decisão, mas não é. Por conta de todo o trabalho, acabamos abrindo mão de coisas que nos fazem bem e isso não pode acontecer. No meu caso, apenas ter voltado a ler poesia, feito uma ligação de vídeo aos meus pais e assistido a um filme me fez incrivelmente bem.

Esse tipo de pausa serve para organizarmos nossas ideias e conseguir ler a realidade que nos rodeia com mais serenidade. É como se ela servisse para olhar a mundo com mais razão, visto que tantas notícias ruins podem acabar prejudicando a esperança que sempre deve habitar em nós, professores e professoras.

Sobre a esperança, não quero me remeter aqui ao ato de esperar, o que nos remete a um sentimento pior ainda. Viver em esperança no sentido da espera é aceitar uma realidade que sempre é ruim e viver passivamente esperando a mudança. Quero propor a você que reflita sobre a esperança como sentimentos necessários à docência, segundo Paulo Freire.

Já peço desculpas se cito Paulo Freire com tanta frequência em meus textos, mas encontro em seus textos tantas repostas que me sinto feliz ao compartilhar com aqueles que acompanham minha coluna. smile

Para Freire, a esperança é algo que faz parte da natureza humana (olha como isso é forte e significativo!). No livro Pedagogia do Oprimido, ele diz que “A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário, a desesperança é o aborto deste ímpeto”. Sendo citado por Mario Sérgio Cortela, Paulo Freire ainda ensina que:

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”

Nesta perspectiva, a esperança dá certo propósito ao nosso trabalho docente e para vida. A cada vivência planejada para minhas crianças, cada ensinamento que trocamos, cada discussão com outros professores, a cada palavra escrita nos meus textos eu carrego comigo a esperança de mudar realidades. Esse é o meu propósito quando penso em contribuir para uma sociedade diferente. Como nas palavras de Freire:

“Por tudo isso me parece uma enorme contradição que uma pessoa progressista, que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações, que se bate pela decência, que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante, não seja criticamente esperançosa”.

Ser criticamente esperançoso me faz pensar que não posso deixar de acreditar que tudo isso vai passar e que, mais do que nunca, preciso buscar alternativas para não adoecer mentalmente.

Ressalto aqui que, desta vez, eu consegui alternativas que me fizeram sentir bem e ajudam a passar por esse momento. As pessoas são, porém, diferentes e para você pode ser necessária uma ajuda a mais! Não deixe de conversar sobre seus sentimentos com as pessoas que lhe são queridas... Elas podem te ajudar! Ah, e ajuda profissional também pode ser necessária. Só não sofra sozinho, está bem? :)

Não perca a esperança, não só na sua profissão docente, mas na vida... 

Um abraço carinhoso e até breve,

Evandro

P.S. Dedico esse texto a uma queridíssima educadora que trabalhava em minha escola e está entre os mais 100 mil que nos deixaram por conta da pandemia. À minha colega Flordelis, mais conhecida como Flor... Uma pessoa amável, sempre muito prestativa, carinhosa e gentil! Sentiremos muita saudade de ti, Flor!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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