Quebra de padrões, modelos de ensino híbrido e as heranças da pandemia para a Educação

Em entrevista a NOVA ESCOLA, o pesquisador norte-americano Thomas Arnett diz que a pandemia requer modelos educacionais que tenham como base a aprendizagem autônoma

POR:
Soraia Yoshida
Crédito: Getty Images

O ano de 2020 tem sido marcado até agora pela pandemia do novo coronavírus e pela ampliação do debate racial promovido pelo movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter). A primeira trouxe o choque de trocar a sala de aula por atividades do ensino remoto (com todas as consequências para professores e alunos, incluindo falta de estrutura e treinamento) e a outra, a buscar maneiras de garantir que pessoas negras tenham, desde sempre, as mesmas oportunidades de se desenvolver até a vida adulta e crescer numa sociedade mais justa. Estamos falando de ensino híbrido e equidade, duas questões caras a Thomas Arnett, pesquisador norte-americano especializado em metodologias educacionais. “Quanto mais alunos e professores puderem construir relacionamentos com cuidado e confiança – em vez de obediência à autoridade – mais alunos negros serão ouvidos e mais professores trarão empatia e compreensão a esses relacionamentos”, afirma.

Em um artigo, o pesquisador sênior do Instituto Clayton Christensen diz que o ensino híbrido não é inerentemente mais equitativo do que a instrução convencional. “Mesmo quando o ensino híbrido é usado para tornar o aprendizado mais centrado no aluno, as melhorias para alguns alunos não se traduzem necessariamente em melhorias para todos os alunos”, diz. Thomas defende, porém, que a aprendizagem com foco no aluno pode ajudar a promover a equidade, desde que evitemos as armadilhas de ficar apenas no discurso e nos processos. “Se os modelos de aprendizagem centrados no aluno não forem formados com desenhos equitativos, eles continuarão permitindo que os alunos que estão nas margens caiam pelas rachaduras [do sistema]”.

Thomas Arnett fez parte do Education Pioneers, um programa que desenvolve futuras lideranças educacionais para operar em escolas públicas, trabalhando em uma rede de escolas públicas que adotam o modelo de gestão privada. Também foi professor de Matemática no programa Teach for America em escolas municipais de Kansas City, nos Estados Unidos. Com mestrado em Sistemas de Informação e Liderança Tecnológica pela Universidade Carnegie Mellon, ele se dedica ao estudo de inovações que podem ampliar a capacidade do educador e identificar as inovações disruptivas na Educação. Para os pouco familiarizados com o conceito, a inovação disruptiva é um processo em que uma tecnologia, produto ou serviço é transformado ou substituído por uma solução inovadora superior – que pode ser mais acessível, simples ou conveniente e resulta em mudança no comportamento de consumo do público. Na área da Educação, significa entender quais mudanças poderiam fazer a diferença no processo de aprendizagem e avançar no ensino que conhecemos hoje.

“Para garantir que o arco da inovação se incline para a equidade, todos nós, cujas ações e escolhas influenciam a inovação, precisamos estar sempre conscientes se estamos orientando inovações em direção à equidade ou apenas mantendo o status quo”, conclui. Para falar sobre o impacto do novo coronavírus e metodologias de ensino híbrido, Thomas Arnett conversou com NOVA ESCOLA. Leia a seguir os principais momentos da entrevista:

Em um de seus artigos sobre como colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, você fala também em uma aprendizagem equitativa. Poderia explicar mais sobre essa ideia? No Brasil, sofremos muito com a desigualdade em praticamente todos os aspectos de vida e a Educação não escapa desse mal. Estudantes com menos possibilidades acabam tendo acesso a escolas com menos recursos, têm mais dificuldade para aprender e não conseguem atingir metas de aprendizagem. Como garantir que Educação e igualdade venham no mesmo pacote e todas as crianças tenham as mesmas oportunidades?
THOMAS ARNETT Eu acredito que a aprendizagem com foco no aluno tem o poder de ser uma ferramenta muito, mas muito poderosa para promover a equidade. A Educação convencional adota a abordagem de que um tamanho único serve para todo mundo, apenas com algumas adaptações. Mas nós sabemos que estudantes têm diferentes necessidades e ensinar o mesmo conteúdo, esperando que obtenham resultados equitativos não é realista. O aprendizado personalizado ou aprendizagem com foco no aluno traz como ideia central reconhecer que estudantes são diferentes e, portanto, devemos oferecer o que é mais apropriado para as necessidades de cada um. Então, em princípio, a aprendizagem com foco no aluno pode ser algo muito poderoso para avançarmos em equidade, mas as escolas precisam ter cuidado na hora de traduzir esse princípio para a prática. É muito comum que, mesmo quando uma escola segue o princípio da aprendizagem centrada no aluno, isso acabe se traduzindo em uma série de práticas instrucionais, que os professores são treinados para usar com seus alunos na sala de aula. E essas práticas instrucionais podem não atingir de verdade os objetivos de dar aos estudantes o que de fato precisam aprender. Por isso, é importante para as escolas que estão construindo e replicando práticas de aprendizagem com foco no aluno se questionarem: quais são as inequidades que queremos trabalhar e solucionar? E à medida que implementam a aprendizagem centrada no aluno, será que as abordagens que estamos construindo estão endereçadas a acabar com essas desigualdades? Então, a ideia principal é que a aprendizagem com foco no aluno nos leve à equidade. As pessoas precisam ter a equidade em mente e estarem focadas nos objetivos para trazer essa igualdade e estar constantemente monitorando se estamos chegando lá. Esse é o caminho para não ficar apenas no discurso.

Thomas Arnett é pesquisador sênior do Instituto Clayton Christensen e especializado em metodologias educacionais    Crédito: Divulgação

Você enxerga algum modelo de ensino emergindo como o “favorito” nessa situação de distanciamento social que estamos vivendo ou será mesmo um período em que teremos um pouco de tudo até a crise passar?
Gostaria de ter essa resposta sobre qual modelo está funcionando, mas nós só teremos uma ideia melhor depois de ver os resultados da pesquisa que faremos a partir de setembro nas escolas públicas dos Estados Unidos. O que posso dizer é que a situação que enfrentamos no momento requer modelos instrucionais que tenham a base de seu trabalho na aprendizagem autônoma. É o professor capacitar sua turma, sem que esse educador tenha de ser o gargalo pelo qual todos os conteúdos precisam passar para chegar ao aluno. Em uma sala de aula tradicional, os estudantes vão até a escola e o professor é quem geralmente direciona a instrução. No cenário em que nos encontramos, creio que os modelos que se mostrarão os melhores para a aprendizagem serão aqueles em que o professor questionar “Como posso capacitar meus alunos a aprender o máximo possível por conta deles próprios? ”. E nos momentos de interação com os alunos, o foco do professor passa a ser expandir, melhorar e aprofundar a aprendizagem. Então, seja por meio do ensino mediado pela tecnologia – no qual os estudantes acessam a internet para suas aulas e o professor confere sua evolução e oferece intervenções sempre que necessário –, ou em uma aula tradicional a distância na qual os alunos usam textos e livros, a questão é descobrir como os estudantes podem aprender do modo mais autônomo possível e que os professores entendam quando e como devem estar envolvidos nesse processo. Como maximizar a maneira com que professores usam seu tempo em momentos síncronos com os alunos? Esse é o ponto.

Muitos professores são bastante críticos a modelos em que os alunos desenvolvem uma aprendizagem mais autônoma. O que eles dizem é que os alunos não são capazes de organizar seus estudos por conta própria e acabam não aprendendo nada.
Saber como gerenciar a si mesmo (autogerenciamento) é uma habilidade que a maioria dos alunos não desenvolve na escola. Para que tenhamos uma aprendizagem apropriada, uma das principais tarefas dos professores é treinar seus alunos a serem mais independentes e aprenderem de maneira autônoma. É importante lembrar que há coisas que os estudantes conseguem fazer muito bem sozinhos. Eles podem ler textos para discutir depois em aula e se a escola tiver um software que acompanha atividades para dar feedback, ele é capaz de entender um conteúdo básico. Mas quando se trata de oferecer um feedback aprofundado e incentivar uma aprendizagem mais completa, isso é algo que requer a interação entre professor e aluno. Portanto, o ponto a se pensar é como garantir o aprendizado de conteúdos fundamentais de maneira independente, para que o tempo que alunos e professores têm para interagir seja usado para as atividades que trarão uma aprendizagem aprofundada.

Essa interação normalmente acontecia na sala de aula, mas com a pandemia, os alunos e os professores estão em casa. Como garantir o engajamento dos alunos que estão do outro lado da tela e podem, a qualquer momento, desconectar da sua aula?
Você não consegue obrigar um aluno a fazer uma coisa que ele não quer, quando ele está em casa. Então nós, que trabalhamos com Educação, temos de descobrir como tornar o ensino mais interessante e motivador para esse aluno. É importante lembrar que crianças e jovens aprendem o tempo todo e se mostram muito motivados a aprender uma coisa desde que seja do interesse deles. Eu tenho três filhos, com dez, nove e sete anos. Se eu deixar, eles passam o tempo todo assistindo vídeos no YouTube e aprendendo a construir coisas no Minecraft. Ou seja, eles são muito interessados em aprender, só que tem que ser algo relevante e que desperte a atenção deles. Há um programa aqui na TV americana em que as crianças podem praticar suas habilidades matemáticas on-line e que tem um mundo virtual no qual você encontra gente que tem os mesmos interesses que você. Meus filhos acham extremamente motivador frequentar esse espaço virtual porque eles encontram os amigos e testam suas habilidades. E, nesse processo, eles aprendem Matemática. Então, um dos desafios é descobrir como podemos tornar o aprendizado não apenas uma junção de conteúdos que ditamos para nossos estudantes na sala de aula, mas algo realmente interessante e autêntico para eles. Eu entendo que pode ser uma tarefa frustrante, mas não podemos controlar um ambiente de aprendizagem apenas dizendo “Você tem que me ouvir”. Os estudantes mais jovens encontram motivação quando a comunidade à qual pertencem celebra algo. E os professores podem contribuir muito para celebrar a aprendizagem de uma forma que motive os estudantes.

A desigualdade educacional só aumentou com o novo coronavírus. Você enxerga alguma inovação disruptiva que poderia fazer a diferença para diminuir esse abismo na Educação?
Eu acredito que a disrupção causada pela covid-19 nos traz uma oportunidade. As organizações tendem a desenvolver processos e os mantêm para não quebrar seu status quo. O que a chegada do novo coronavírus fez foi tirar uma porção dos processos nos quais a Educação tem se apoiado e abrir um espaço no qual se pode ter novas abordagens. Ao mesmo tempo, o movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter) está colocando ênfase em priorizar a igualdade e justiça para pessoas negras, criando uma janela muito interessante para desenvolver novas soluções. Se as soluções vão acabar se materializando ou não depende do quanto as pessoas vão dar prioridade a resolver questões de equidade e justiça. Trata-se de se afastar dos processos que foram criados lá atrás e que não consideravam a equidade como um pilar fundamental e pensar: “O que nós deveríamos criar do zero?”. Existe uma oportunidade, mas não é uma garantia de mudança. É realmente importante que as pessoas entendam o valor dos líderes e educadores para concentrar esforços em aproveitar esta oportunidade.

Muitas das mudanças de colocar o aluno no centro do aprendizado passam pela formação de professores. Mudar processos, a maneira de dar aula, motivar e engajar os estudantes. Você acredita que basta mudar os cursos de formação inicial dos educadores ou é uma questão mais ampla, de mudança de mentalidade?
Eu acho que é uma questão de mudar a mentalidade e as práticas. Os professores não são ensinados a trabalhar com aprendizagem centrada no aluno. O que eles aprendem é o ensino tradicional – o que os faz se apoiar nas abordagens convencionais porque ao menos eles entendem como dar aula desse jeito. Mesmo que não funcione às mil maravilhas, o professor consegue dar aula dia a dia utilizando as abordagens convencionais. Mas é possível fazer o desenvolvimento profissional do professor de modo diferente, com o que chamamos de micro credenciais direcionadas ao aprendizado dos alunos e baseadas em competências. Em lugar de dar ao professor um certificado porque ele completou um curso, você dá a ele um certificado quando ele for capaz de demonstrar a habilidade que o curso pretendia ofertar. A esperança é que esse sistema possa facilitar a contratação de profissionais de Educação ou distribuição de aulas nas escolas, já que os certificados mostram quem possui um determinado conjunto de habilidades e está preparado para desenvolver certas atividades em sala de aula.

Uma questão que vem com a possibilidade de retorno às aulas é que será um processo gradual e lento, começando com 20% dos alunos e aumentando esse percentual de forma escalonada. Que metodologias poderiam ser usadas nesse momento em que ainda não temos todos os alunos juntos?
Há vários modelos de ensino híbrido que poderiam ser muito efetivos para a reabertura das escolas. Um é o modelo virtual enriquecido [o aprendizado é dividido entre componentes on-line e off-line, permitindo aos estudantes se apresentar no espaço físico da escola somente alguns dias na semana]. Outro modelo é a sala de aula invertida [formato do modelo de rotação em que o aluno se familiariza com a teoria em casa, por meio de atividades on-line, e a sala de aula é usada para discussões, resolução de atividades e outras propostas]. Temos também o modelo à la carte [o aluno é responsável pela organização de seu estudo, de acordo com objetivos gerais a atingir, contando com a parceria do educador e, portanto, contando com aprendizagem personalizada]. Na base de todos esses modelos está a ideia de pensar quais coisas funcionariam melhor on-line, e o que precisa ser feito olho no olho entre professor e aluno. Para a sala de aula invertida, os professores precisam se perguntar: “Como eu posso colocar meu conteúdo on-line e focar o tempo que tenho com o aluno em aprofundar o conhecimento e desenvolver as competências socioemocionais? E quais são os tipos de atividades que não podem ser feitas on-line?”. Com o modelo à la carte, é preciso pensar no tipo de estudantes que temos ali em nível de escola, em todos os conteúdos ensinados e no que pode ser feito on-line e o que necessita de aulas presenciais. É preciso decidir, por exemplo, quais disciplinas ou cursos são o coração da escola. Digamos que Matemática e Artes são muito importantes para aquela escola. Quando os estudantes puderem retornar, os professores vão focar nessas disciplinas – e os demais cursos podem ser eletivos e realizados on-line até o momento em que todos os alunos puderem frequentar a escola ao mesmo tempo. E os professores poderão chamar para aulas certos grupos de estudantes que precisam mais de intervenção, enquanto aqueles que se saem melhor no estudo independente teriam como base a aprendizagem autônoma.

Diante do cenário que temos hoje e pensando em todas as adaptações que educadores estão fazendo para continuar o processo de ensino e aprendizagem, qual você diria que deve ser o maior legado do novo coronavírus para a Educação?
Há um lado bom e um lado ruim. Grande parte dos estudantes está deixando de aprender muita coisa neste momento e, por causa da recessão econômica que virá como consequência da pandemia, as escolas irão enfrentar corte de gastos. Não podemos esperar que estudantes continuem se saindo bem na escola como antes, uma vez que não frequentam aulas e a escola terá menos recursos. O resultado é que os estudantes realmente vão perder muito e o impacto da covid-19 na Educação será enorme. No longo prazo, porém, acredito que este período vai nos empurrar em direção à inovação de um modo que nunca aconteceu antes. E acho que uma porção de ferramentas e práticas inovadoras, novos modelos e abordagens para instruir alunos e governança educacional poderiam resultar desse momento – que de outra forma não aconteceria. A maioria dos benefícios não traz consequências imediatas e provavelmente veremos bolsões em que coisas boas vão acontecer e a situação começará a melhorar até que, em cinco ou dez anos, nós possamos sentir um impacto maior. A criação de novas abordagens educacionais e a maneira de dar aula, que vai resultar do momento que vivemos, serão os grandes benefícios que vão nascer da necessidade que o mundo enfrenta hoje.

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