Volta às aulas: 78,3% dos educadores são contrários ao retorno presencial

Com o avanço das discussões pelo retorno presencial, educadores relatam receio de contaminação e cumprimento de protocolos

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

A pandemia da covid-19 levou as escolas a trilharem diferentes formatos. Houve quem optou por adiantar as férias, quem já partiu para o ensino remoto, os que precisaram de um tempo para se organizar para oferecer as atividades não presenciais e aqueles que fizeram a escolha de parar as atividades. De qualquer forma, a expectativa inicial, de ficar apenas algumas semanas longe da escola, passou longe de se cumprir. O isolamento já dura quase cinco meses – tempo que exigiu muita adaptação dos professores e instituições de ensino.

Para o segundo semestre de 2020, com a reabertura de comércios e outros estabelecimentos em algumas cidades pelo Brasil, há quem esteja planejando dar o próximo passo: voltar às aulas presenciais. Como em outros momentos da pandemia, há receio, incerteza e pouco consenso. Mas é inegável que a discussão chegou. Independente de qual for a decisão de redes e escolas, tanto o retorno presencial quanto a permanência no ensino remoto exigirão muito planejamento dos profissionais da Educação.

Pela extensão territorial brasileira, os cenários identificados são variados. Por isso, para o retorno exigirá orientações e políticas locais. "Não tem bala de prata, não tem política generalista. As secretarias vão precisar encontrar caminhos [de acordo com a situação local]", afirma Maria Amabile Mansutti, diretora de Tecnologias Educacionais do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC). Para a especialista é importante ter diretrizes, como as do parecer 11/20 do Conselho Nacional de Educação (CNE), mas não será possível copiar um modelo único.

O que pensam os professores
Entre 24 e 27 de julho, realizamos uma enquete no site de NOVA ESCOLA sobre a opinião dos educadores em relação ao tema. Entre os 8140 respondentes, 78,3% não concordam com o retorno presencial das aulas no segundo semestre.

Na cidade pernambucana de Rio Formoso, onde a professora Jackeline Xavier leciona para Fundamental 1, ainda não há previsão do retorno. A ideia da volta presencial nos próximos meses, entretanto, deixa Jackeline preocupada. "A escola não tem estrutura para atender todos. Por ser uma área rural, muitos alunos dependem do transporte escolar, por conta da aglomeração acho que não seja hora", afirma. "Sem vacina, não voltaria".

Se o retorno ainda parece distante para alguns, em outras redes, como na municipal de São Paulo, as discussões estão mais avançadas. "Como adequar estruturalmente em tão pouco tempo? Como vamos organizar isso no dia a dia?", questiona Priscila Arce, diretora de uma instituição de Educação Infantil na rede municipal de São Paulo (SP) sobre o anúncio do retorno em setembro. A gestora aponta a preocupação com o orçamento disponível para adequar a escola para cumprir os protocolos indicados pela secretaria. Ela também se posiciona contrária ao retorno antes da vacina. "Não é uma decisão política ou econômica, mas da saúde. Como vamos voltar se o país ainda não resolveu a pandemia?", reforça. "Não conseguimos ter estrutura nem física nem emocional para fazer um retorno sem correr riscos ou agravar a tragédia". A secretaria estadual de São Paulo também previa o retorno para setembro, mas no dia 7 de agosto anunciou que a volta presencial seria adiada para o dia 7 de outubro (leia mais aqui).

Para Maria Amabile, o temor das famílias e dos educadores é legítimo. "A secretaria tem que mostrar o que tem a oferecer para minimizar os receios, que [os educadores] vão ter apoio, que não correm risco e que terão as condições necessárias". Será necessário fazer um planejamento para curto, médio e longo prazo, e garantir que as escolas têm as condições e recursos para colocar na prática as medidas previstas, independente do momento que decidirem voltar. "Isso não vai se resolver em 2020, nem em 2021. Vamos viver [os efeitos da pandemia] por alguns anos. Vamos ter que nos reorganizar, saber trabalhar nesse cenário. Precisaremos ter muita informação, formação e recursos", avalia. O diálogo com os professores é essencial para um planejamento que considere como mitigar os receios e riscos e construir um ambiente de confiança para o retorno.

Por que estamos discutindo o retorno sem vacina?
A discussão da volta às aulas reúne diferentes aspectos sociais que aumentam a complexidade de uma realidade incerta e inédita. Para Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e membro do CNE, há duas forças principais nesse debate: a saúde e a pressão econômica. "De um tempo para cá, a pressão da economia acabou se sobrepondo ao momento ideal para voltar da pandemia. O Brasil ainda não atingiu esse momento [queda no número de casos] para voltar às atividades presenciais", avalia o conselheiro do CNE. No entanto, o especialista coloca que esse delicado equilíbrio de forças, interesses e pressões de diferentes setores não é visto apenas aqui, mas que outros países enfrentam um cenário semelhante.  Para Maria Amabile, ainda há muito desconhecimento e incertezas, mas a resposta deve ser baseada nas informações, na ciência e na realidade de cada rede. “Não dá para sair um contra o outro. Tem questões econômicas, políticas e de aprendizagem envolvidas, mas estamos falando de vidas. A questão ética é primordial”, afirma.

Diante desse cenário, algumas secretarias já avançam nas discussões do retorno. O Amazonas foi o primeiro estado a autorizar a volta presencial. Em maio, o governador do estado assinou um decreto que autorizava, a partir de 6 julho, a volta das instituições de ensino da rede privada. Em julho, a rede estadual de Manaus também anunciou a volta gradual às aulas a partir de 10 de agosto. Adotando o ensino híbrido, que mistura o presencial e o on-line, os primeiros a voltarem serão os alunos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), enquanto o Ensino Fundamental deve retornar no dia 24 de agosto. A medida deve atingir 220 mil alunos da escola pública.

No Maranhão, a rede privada também retornou às aulas presenciais, em modelo híbrido, no dia 3 de agosto. Outras secretarias que ainda não voltaram avançam para determinar o calendário de retorno, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Na contramão, o Conselho Estadual de Educação do Ceará aprovou um parecer que orienta que as aulas presenciais voltem apenas em 2021, mantendo o ensino remoto até o final de 2020, mas ainda não houve um posicionamento oficial do governo estadual.

Para pensar e planejar o retorno
Um dos pontos de insegurança dos educadores está no cumprimento dos protocolos por parte das escolas. "O improviso será desastroso. Não dá para ser ousado, tem que ter cautela", afirma Maria Amabile. Buscar uma estratégia para fiscalizar as condições sanitárias antes da reabertura é um ponto destacado por Mozart. "Eu criaria comitês que certificassem que as medidas foram tomadas, que a gestão da escola está preparada e que os professores estão orientados. Seria um selo de tranquilidade para o retorno", diz.

QUAIS AS RECOMENDAÇÕES PARA A VOLTA ÀS AULAS?

No parecer 11/2020, homologado pelo Ministério da Educação em julho, o Conselho Nacional de Educação (CNE) traz orientações para as aulas presenciais e remotas. Para planejar o retorno, colocam três frentes principais: acolhimento dos alunos, avaliação diagnóstica para verificar a aprendizagem dos alunos durante as atividades não presenciais; e a reorganização da escola e adoção das medidas de higiene. No documento, eles trazem experiências internacionais, os possíveis modelos de retorno e recomendações gerais para cada secretaria planejar o momento.

 Entre as orientações, o CNE coloca a importância de uma comunicação transparente e ampla do processo de organização do retorno entre toda a comunidade escolar; formação e capacitação dos professores e colaboradores; atividades de recuperação para os alunos que não tiveram acesso ao ensino remoto ou que apresentam defasagem do conteúdo trabalhado; flexibilização da frequência considerando que é importante dar a opção das famílias manterem as atividades não presenciais; e flexibilização acadêmica com possibilidade de integração curricular entre 2020 e 2021.

Para o plano de ação será necessário um planejamento sistêmico e multidisciplinar, envolvendo a área da saúde, pedagógica, assistência social e a comunidade escolar. A comunicação entre as partes terá que ser constante para fazer o acompanhamento do cenário. "Não é só a escola, é preciso ter diversas instâncias para dar conta da formação das crianças e do direito à Educação", afirma Maria. Por isso, a transparência e participação das famílias serão essenciais.

Ao decidir voltar, Mozart também coloca a importância de ser gradual. Fazer uma experiência com um grupo de alunos, tomando todos os cuidados necessários, e acompanhar a situação antes de decidir ampliar esse percentual. "Vamos ter que ter muita flexibilidade das atividades escolares. Em uma mesma rede vamos ter situações diferenciadas. Será necessário estar aberto ao novo e ter bom senso", afirma Mozart. 

Para além das medidas de higiene e pedagógicas, não é possível ignorar o desgaste emocional que o ensino remoto teve nos educadores. Pensando nisso, Mozart defende a importância de pensar o acolhimento – não apenas dos alunos. Para ele, a primeira semana do retorno deveria ser apenas para gestores e professores. Em parceria com a secretaria de Educação, esse momento deveria ser dedicado a garantir que estão todos seguros e alinhados sobre o retorno, verificar como está o estado emocional e físico dos educadores, e se estão preparados para receber os estudantes. Só após esta verificação, os alunos deveriam retornar.

Independente de quem voltar ou não, a tendência observada é a escolha por um modelo híbrido. Isto é, o ensino remoto permanecerá, pelo menos por enquanto, na realidade das escolas. Por isso, é necessário continuar pensando em formação para os educadores e em investimento em infraestrutura e conectividade. "O lápis e caderno do século 21 é a banda larga. Não tem como fugir, tem que resolver a conectividade", afirma Mozart. Para ele, é preciso garantir esse orçamento para as escolas públicas. Ele destaca a possibilidade de usar Fundo de Universalização das Telecomunicações (FUST), estimado em R$ 22 bilhões, para enfrentar essa questão.

Manaus: a experiência de quem já voltou
As escolas particulares de Manaus (AM) foram as primeiras a retornar no país. "A primeira medida foi consultar as famílias e os professores", conta a pedagoga Nelly Falcão, diretora-geral e proprietária do Pinocchio Centro Educacional, que atende a Educação Infantil, e Colégio Martha Falcão, com turmas do Ensino Fundamental ao Ensino Médio.

O processo de planejamento foi longo. Foram realizadas enquetes, consultas com a associação de pais para colher opiniões, reuniões com a equipe escolar, pesquisa e estudos da área da Educação e da saúde para planejar o retorno e criar os protocolos que orientaram a volta.

A partir do processo colaborativo decidiu-se que seria adotado o ensino híbrido com o revezamento de grupos. Isto é, cada turma foi dividida em grupos A e B, sendo que cada um dos grupos frequenta a escola duas vezes na semana. Existe um terceiro grupo (C) que é completamente on-line, e as sextas-feiras são dedicadas aos alunos que apresentaram defasagem dos conteúdos trabalhados no ensino remoto ou não puderam acompanhar a escola a distância.

Entre os protocolos de higiene adotados, foram instaladas pias móveis e dispensadores de álcool em gel na entrada das instituições. As crianças entram na sala de aula sem sapato e fazem troca de máscara durante o dia. Os espaços da escola foram demarcados para garantir o distanciamento social. Adultos que não sejamos professores e funcionários não podem circular pela escola, e há horários diferentes de entrada, saída e intervalo para cada turma a fim de evitar aglomerações.

A diretora-geral conta que os professores estavam apreensivos sobre como seria o retorno e se as famílias enviariam as crianças. No entanto, ao apresentar o protocolo elaborado e as medidas tomadas, Nelly diz se sentiram mais tranquilos – inclusive toda a equipe escolar fez o teste para covid-19 antes do início das aulas. "Passamos confiança para eles. Não tive problema com professores", explica.

A professora Yeda Vasconcelos, que dá aula para o 5º ano no Colégio Martha Falcão, relata a insegurança em relação ao retorno. "Eu tive muito receio. Meu esposo é do grupo risco, é diabético e tem uma lesão no pulmão, então levamos a quarentena muito a sério", afirma. No entanto, a educadora conta que já no início esse sentimento passou. "Mudou no segundo dia de aula. As coisas fluíram como planejado, tudo deu certo", conta. A professora Juracy Mota, que leciona o 4º ano na instituição, concorda: "Apesar dos receios, o retorno controlado tem se apresentado como a melhor opção", afirma.

Para as famílias, o retorno foi optativo. "Percebemos que na primeira semana 30% da turma apareceu. Quando [as famílias] viram que tudo estava acontecendo conforme o que havia sido proposto, outras começaram a mandar seus filhos", afirma Úrsula Menezes, coordenadora pedagógica no Pinocchio Centro Educacional.

O retorno às aulas foi escalonado. Na semana do dia 6 de julho, os alunos de Ensino Médio retornaram à escola. Nas semanas seguintes, o Fundamental. Para receber os alunos, foram propostas atividades lúdicas para refletir sobre a experiência dos últimos meses. Também nos primeiros dias de aula, os alunos realizaram uma avaliação diagnóstica. "O objetivo não foi apenas saber em que nível estamos, mas também adequar nossa prática e atender as crianças que possivelmente possuem lacunas de aprendizagem", diz Juracy. A partir dessa avaliação, foi possível fazer um planejamento pedagógico mais assertivo.

Para além do receio com a contaminação, as professoras concordam que é desafiador atender na modalidade híbrida, garantindo que todos os alunos – presencialmente ou a distância – tivessem as mesmas possibilidades. "Foi necessário pensar e desenhar como seria na prática a nossa abordagem dentro desse modelo", conta Juracy.

As aulas remotas e presenciais são simultâneas. Isto é, as professoras dão aula e interagem com os alunos na escola e em casa ao mesmo tempo. "Na prática, o que você tem nas mãos são duas salas de aula funcionando ao mesmo tempo com um único professor. Essa dinâmica não é simples, requer muito planejamento, estudo e tempo maior de produção de materiais", afirma Juracy. Uma estratégia adotada para ministrar a dinâmica é continuar utilizando ferramentas e recursos digitais durante a aula para garantir a mesma experiência.

Já na Educação Infantil, Úrsula conta que a maior dificuldade do retorno foram as crianças bem pequenas. "O que tem sido mais difícil é manter o distanciamento, já que elas têm essa característica da afetividade. Tem momentos que esquecem [do distanciamento]. O que fazemos é sempre fazer uma brincadeira para lembrar", afirma. Além das medidas de higiene citadas anteriormente, no Pinocchio o horário de parque foi reduzido e não há mistura das turmas.

Apesar das dificuldades, a coordenadora pedagógica acredita que precisavam retornar. "Era necessário para essa faixa etária que está começando com a rotina escolar. Os primeiros dias foram preocupantes, mas felizmente foi um sucesso. As crianças voltaram para seu ambiente, com os colegas, com a socialização e fazendo todo o desenvolvimento natural para a etapa", afirma Úrsula.

Com o equipamento tecnológico adequado, a infraestrutura oferecida pela instituição, o suporte da gestão e um retorno bem planejado em colaboração, a experiência da escola tem sido positiva, segundo as educadoras. Todo o processo antes do retorno e do dia a dia é desafiador e cansativo. "Não é fácil, é uma responsabilidade muito grande, são vidas de crianças, de professores e colaboradores, mas temos tomado um cuidado incansável", relata Úrsula. Até o momento, com mais de um mês após o retorno, as educadoras relatam que não tiveram nenhum problema ou um caso de contágio da covid-19. Nelly conta que a proposta é que, a partir de setembro, começar a diminuir o ensino remoto e ser mais presencial.

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