Como ser afetuoso com as crianças se não for possível abraçá-las

Se houver limites para o contato físico no retorno, é importante lembrar que afeto não é só carinho e colo: envolve também ter uma boa comunicação com os pequenos

POR:
Nairim Bernardo
É importante não advertir as crianças de forma severa se elas se abraçarem ou compartilharem objetos. Ilustração: Renata Miwa/NOVA ESCOLA

As crianças estão distantes de atividades presenciais há um tempo inédito, maior que o das férias escolares. Quando voltarem, muitas estarão mais sensíveis. Quando chegam à escola todos os dias, as crianças abraçam seus professores. Quando estão tristes, correr para o colo do adulto é ainda mais normal. Mas como lidar com essas situações se houver a necessidade de se manter o distanciamento físico em um futuro retorno?

“A primeira coisa a se esclarecer é o significado de afetividade: dar atenção ao que afeta o Ser. Ela não está direcionada à questão de toque e do colo necessariamente. É a forma como uma pessoa afeta a outra”, explica Tágides Renata Mello, coordenadora da Educação Infantil da Escola Educare e professora do Centro Universitário de São Roque. “Quando a gente fala de afeto há uma romantização da palavra, mas não é só a questão da ‘beleza’ de ser afetuoso. Afeto é algo muito sério, pois faz parte da saúde mental do outro”, diz ela. 

No caso dos bebês, é impossível não haver contato físico com os educadores. Isso porque as ações de cuidado, como troca de fraldas e alimentação, dependem do adulto. Além disso, eles se desenvolvem e constroem muitos vínculos por meio da troca de afeto, do toque, da mão dada e ao estar no colo de alguém. Mas será preciso que todos os profissionais de Educação utilizem máscaras para proteção pessoal e dos bebês, se o retorno ocorrer antes da produção e distribuição de uma vacina contra a covid-19. 

Segundo Vera Ferrari Rego Barros, presidente do Núcleo de Estudos da Depressão entre Crianças e Adolescentes no Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, as mudanças de comportamento agora necessárias têm de ser conversadas entre famílias e crianças antes que estas retornem à escola. Seus responsáveis precisam começar a prepará-las para a volta conversando sobre os cuidados de saúde necessários (não compartilhar objetos, não compartilhar comida, não abraçar o professor, lavar bem as mãos). “O contato físico é algo muito cultural dos brasileiros e muito utilizado para demonstrar afeto. A criança abraça a professora e se sente mais segura. Ele é, sim, importante, mas há outros modos de mostrar esse carinho. Em outras culturas, o contato físico é menor e as crianças não deixam de se desenvolver por isso”, comenta Vera. 

Na volta às escolas, o professor precisa estar ainda mais atento a diferentes aspectos de seu comportamento para demonstrar que gosta e se preocupa com a criança. “Às vezes, o profissional até dá o colo, mas não está realmente ali. Ele precisa escutar de modo atento a criança. Quando ela percebe que está sendo atendida pelo professor, sua segurança e autoestima são trabalhadas”, diz Tágides. Portanto, promova muitos momentos de conversa entre a turma, principalmente em momentos em que elas queiram contar o que fizeram durante a quarentena e como se sentiram.  

Para se comunicar com clareza e de modo afetuoso, o professor precisa se atentar ao seu tom de voz e palavras escolhidas para expressar o que deseja. Através da fala, as crianças podem perceber como ele se sente em relação a elas ou ao que está contando. Principalmente no caso dos bebês, o olhar também vai aumentar sua importância para a comunicação. 

Para se relacionar com os colegas, as crianças possivelmente terão de ser orientadas a evitar ficarem muito próximas e se abraçar. Caso elas façam isso ou compartilhem objetos ou comida, o professor não deve adverti-las de modo severo, mas sim, entender que absorver os novos comportamentos é muito difícil, até para os adultos. O ideal é explicar pacientemente os motivos de alguns comportamentos não serem indicados no momento. 

“As crianças precisam de experiências com os outros. Dentro de casa, ela está muito protegida, mas o desenvolvimento infantil precisa de muitos estímulos que foram limitados”, comenta a doutora Vera Ferrari. Portanto, mesmo que o contato físico diminua, isso não significa que as crianças deverão permanecer sentadas em suas cadeiras dentro da sala o tempo todo. Adapte experiências relacionais e em ambientes externos (veja aqui uma sugestão de atividade).

Segundo Roberta Tavares Lopez, psicóloga clínica e educacional e terapeuta de crianças, adolescentes e famílias, o afeto e o acolhimento também são importantes na medida em que muitas crianças tiveram suas rotinas alteradas radicalmente e têm muito medo do coronavírus. 

“O nosso foco tem sido em nos proteger da contaminação. Mas nós, profissionais da saúde mental, estamos preocupados com uma possível pandemia de transtornos mentais. Estamos falando até da possibilidade de desenvolvimento de ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo [TOC], transtornos alimentares e do sono”, alerta Roberta. “Os educadores têm de estar preparados. Mas o adulto não consegue cuidar da criança se ele mesmo não estiver bem. Por isso, a força-tarefa é grande: cuidar dos professores, dos pais e das crianças.” Ela orienta que, caso não estejam conseguindo lidar com tudo, os educadores podem procurar os serviços gratuitos de atendimento psicológico para obter ajuda pessoal ou para atender seus alunos e familiares.