As competências socioemocionais e a Matemática

Como podemos estabelecer um diálogo entre o conhecimento dos números e as habilidades socioemocionais

POR:
Selene Coletti
Foto: Getty Image

O início de um ano letivo nos traz muitas expectativas e alguns medos diante da nova turma que temos pela frente. No entanto, nesse ano não tivemos muito tempo para isso e fomos arremessados para um cenário que talvez nunca pudéssemos ter imaginado: aulas remotas, mergulhos na tecnologia, buscas para promover a aproximação de todos da escola.

Como já dissemos aqui e ouvimos em diferentes contextos, tivemos que reinventar o nosso fazer pedagógico, procurando novas alternativas para ensinar e aprender, num ir e vir de buscas e descobertas.

Para essa reinvenção acontecer as competências socioemocionais precisaram ser ativadas e, evidentemente, não só por nós, mas por todos os envolvidos, alunos e suas famílias. Cada um do seu jeito precisou buscar caminhos para lidar com as incertezas do momento e encontrar as soluções.

Mas o que são as competências socioemocionais mesmo?
De acordo com o material disponibilizado pelo Instituto Ayrton Senna, as competências socioemocionais “são capacidades individuais que se manifestam nos modos de pensar, sentir e nos comportamentos ou atitudes para se relacionar consigo mesmo e com os outros, estabelecer objetivos, tomar decisões e enfrentar situações adversas ou novas”.

Foram e são muitas as situações adversas e novas que enfrentamos diariamente nesse quadro de pandemia. Colocamos em ação as nossas melhores habilidades e atitudes para gerenciar nossas emoções diante do novo para alcançar nossos objetivos, tomando decisões assertivas e responsáveis levando em consideração a nós e aos outros. Parece ser difícil, contudo é isso que estamos fazendo diariamente para exercer nossa função de professor. É claro que há exceções!

Você já percebeu que estão em jogo a determinação, a organização, a persistência, a confiança, a responsabilidade, a empatia, a abertura ao novo... Essas são algumas das competências socioemocionais.

Pautado em pesquisas, o Instituto Ayrton Senna organizou uma matriz de cinco macrocompetências (autogestão, engajamento com os outros, amabilidade, resiliência emocional e abertura ao novo) que se subdividem em 17 competências socioemocionais como pode ser observado no quadro seguinte:


Retirado do material “Ideias para o desenvolvimento de competências socioemocionais” do Instituto Ayrton Senna, disponível em https://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/BNCC/desenvolvimento.html

Podemos perceber que essas competências dialogam perfeitamente com as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Elas podem ser aprendidas, praticadas e ensinadas.  Primeiramente precisamos exercitá-las para podermos ensinar aos nossos alunos e este é mais um desafio que temos pela frente: colocar em prática.

E como fazer?
Alinhar as nossas propostas de ensino à BNCC, mais especificamente a Matemática, é um enorme desafio. Alinhá-las às competências socioemocionais pode se tornar outro maior ainda.

Entretanto, um desafio possível e necessário: pesquisas mostram que os alunos mais responsáveis, focados e organizados aprendem em um ano letivo cerca de um terço a mais de matemática do que aqueles que têm essas competências menos desenvolvidas. Precisamos começar desde já e por nós próprios!

Vamos organizar um diário de bordo com todas as nossas conquistas nesses quase cinco meses que estamos trabalhando de casa. Ao escrever no papel, vamos enxergar quanta coisa conseguimos fazer e nos superar em tantas outras. Vamos exercitar nosso registro (a escrita nossa aliada de todas as horas) para refletir sobre o processo vivido e desenvolver nossas habilidades socioemocionais.

Esse registro permitirá refletir sobre a nossa prática da Matemática. As propostas que estamos enviando estão desenvolvendo as competências socioemocionais? Estamos permitindo que nossos alunos desenvolvam as competências de autogestão, por exemplo?

Você deve estar pensando: “mas se não conseguimos atingir as questões relativas ao conhecimento matemático, como vamos fazer para atingir as questões do conhecimento emocional?”. Precisamos nos abrir ao novo, rever nossa forma de trabalhar a Matemática e trazer propostas que sejam desafiadoras. Alguns exemplos:

> Uma situação problema que tenha diferentes possibilidades de resolução;
> Criar um desafio para o outro resolver, como a proposta que conversamos no artigo anterior;
> Jogos (minha paixão e são tantas as opções!) nos quais tenham que registrar suas jogadas por meio de um desenho ou da escrita para que o outro possa entender. Ou ainda, a criação de um jogo de percurso a partir de um tema;
> Um jogo em que precisem explicar a melhor estratégia para ganhar. Para isso terão que jogar muitas vezes, colocando em ação tudo o que sabem;
> Analisar dados procurando entender o que está acontecendo e o que pode ser feito para melhorar a situação.

É preciso criar espaços para que nossos alunos discutam, expliquem suas ideias, troquem experiências de como resolveram as propostas, ouçam e respeitem o outro, exercitem a escuta ativa.

Na atual situação por meio dos grupos de WhatsApp, pelo Google Classroom, pelo Meet... enfim pelas inúmeras ferramentas virtuais que vamos descobrindo dia a dia desde que nos abramos para o novo.

Quando voltarmos, vamos criar espaços de discussão, exercitando ouvir o nosso aluno e a forma como ele pensou, abrindo-se para o diálogo em todas as circunstâncias. Como digo sempre: dando voz e vez para cada estudante.

Olhar nosso percurso nesse ano letivo atípico nos ajuda a perceber que ao voltarmos nada será como antes. A tecnologia estará presente, nossos alunos precisam (e precisarão) das habilidades cognitivas e das socioemocionais para enfrentar esse mundo de incertezas no cenário pós-pandemia.

Vamos começar, então, revendo as propostas que estamos enviando para nossa turma, enxergando e ouvindo os estudantes, usando o nosso diário de bordo a tiracolo. Comecemos...

Namastê e até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 39 anos na rede pública. Atua na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada do município. Atualmente é formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba.