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Teste: Professor, como anda a sua saúde mental?

Cuidar do equilíbrio mental dos professores é cuidar também da Educação, por isso é importante estar atento aos sinais de angústia, ansiedade e exaustão antes que se tornem um sofrimento maior

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Anna Rachel Ferreira
Ilustração:  Julia Coppa

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é." A frase conhecida pela música Dom de Iludir, de Caetano Veloso, cabe perfeitamente na vida do professor. O trabalho em si, como atividade individual e coletiva, passa tanto pelo prazer quanto pelo sofrimento. Até aí, está tudo bem. O problema é quando o sofrimento ultrapassa o prazer, adoecendo o trabalhador. A pandemia do novo coronavírus obrigou todos a se adaptarem a uma nova realidade de isolamento e diferentes maneiras de trabalhar e se comunicar. Esse "novo normal" pode intensificar o mal-estar no exercício profissional e evoluir para quadros de ansiedade, somatizações, depressão e até mesmo burnout (síndrome do esgotamento nervoso). "A pandemia aumentou o sofrimento e fez muita gente perceber a importância da escuta", afirma o psicanalista Christian Dunker, que fala sobre este momento no e-book A Arte da Quarentena para Principiantes. O medo é uma reação natural à nova situação. Precisamos estar atentos aos sinais de alerta que o corpo e a mente nos dão no dia a dia para administrar as demandas e não chegar aos extremos causados por esse mal-estar.

Em maio, NOVA ESCOLA realizou uma pesquisa para verificar a situação dos docentes durante a pandemia. Dos 8.121 profissionais da Educação Básica que responderam às perguntas, apenas 8% afirmaram sentir-se ótimos ao comparar a própria saúde emocional antes e depois da quarentena. Outros 28% avaliaram como péssima ou ruim e 30% como razoável. E como anda a sua saúde mental nessa pandemia? Faça o teste respondendo abaixo às questões para identificar o quanto a nova rotina de trabalho tem influenciado o seu emocional.

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Para entender a saúde docente

Para entender como essas situações afetam os docentes, é útil observar quem é esse professor. Na maioria das vezes, estamos diante de um chefe de família, que foi preparado na universidade para lidar com o modelo de aluno ideal. Quando esse profissional chega à escola, não é exatamente isso que encontra. "Há excesso de responsabilidades e de demandas, excessivo número de horas de trabalho, indisciplina dos alunos, violência na escola, recursos humanos e pedagógicos precários, sobretudo nas escolas públicas", enumera a psicanalista e doutora em Ciências da Educação (Psicologia), Sandra Francesca Conte de Almeida. Com um trabalho cujo foco está na Psicanálise e Educação, ela afirma que essas situações deixam nos profissionais de sala de aula o sentimento de desamparo, de quem não é escutado em suas demandas. 

As cobranças são altas, já a valorização fica a dever, inclusive no salário pago. "Nós não valorizamos o suficiente o trabalho do professor para remunerar nas dimensões do que precisa ser realizado", comenta

Vera Iaconelli, doutora em Psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar, que oferece tratamento e pesquisas na área do bem-estar mental. Essa realidade gera um ciclo de queixas dentro da comunidade docente que pode levar ao ressentimento no sentido de que o professor "re-sente" essas dores dia após dia, em um ambiente em que outros se queixam das mesmas coisas o tempo todo, o que dificulta encontrar um caminho para se tornar agente da solução. 

"O professor lida com uma realidade difícil e acaba atribuindo a causa do problema a algo que está externo a ele", explica Viviane Neves Legnani, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). A sensação é de estar sozinho e de que a resposta só pode vir de fora, com a atuação do Estado, das famílias ou até mesmo da sociedade como um todo. Esse pensamento, além de não ser verdadeiro, vai gerar um mal-estar psíquico que pode se traduzir em quadros de ansiedade, tristeza, angústia, medo e desamparo. Esses quadros podem, ou não, desenvolver doenças. 

Escutar, entender e apoiar o outro

Para entender se o que estamos sentindo é um sofrimento possível de lidar ou se precisamos pedir ajuda, é essencial entender que o ser humano é, sim, capaz de lidar com uma grande  quantidade de estresse, mas que sintomas não devem ser ignorados e normalizados. "Fadiga física, esgotamento mental, estresse, ansiedade, apatia, dificuldade de se manter concentrado e de comunicação, absenteísmo ou faltas frequentes por meio de atestados médicos são sintomas muitas vezes questionados pela própria comunidade escolar", comenta a psicanalista Sandra Francesca. Esse não reconhecimento de que o professor precisa de apoio acompanhado de acusações de irresponsabilidade, chatice, resistência à colaboração etc. faz com que muitos educadores não procurem ajuda e adoeçam, tendo como única opção vislumbrada o afastamento do ambiente escolar.

Nesse contexto, professores negros são ainda mais impactados. "Todas as questões que impactam as pessoas negras na nossa sociedade vão impactar as pessoas negras dentro da escola porque a escola é a sociedade. Se há preconceito na sociedade, há preconceito dentro da escola", reflete Viviane Neves. Essa infeliz rotina de lidar com preconceitos e diminuição do seu valor perante a sociedade traz consigo uma carga de estresse e baixa autoestima muito forte que pode se intensificar na realidade escolar. Pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC) sobre a Educação em Tempos de Pandemia mostra que 66,8% dos professores se sentem apoiados pela escola, mas esse número cai quando falamos de professores negros: 63,5% para as professoras negras e 60,2% para professores. São números aos quais todos devemos estar atentos e que devem guiar nosso empenho pela busca da equidade orientando nosso pensamento e nossas atitudes diárias.

Hora de fazer o melhor que é possível

O confinamento social impactou a rotina de todos. "Os professores viram-se obrigados a trabalhar com ferramentas para as quais não foram treinados, as crianças estão tentando se adaptar a esse formato. E os pais tiveram de entrar na sala de aula, o que é algo novo e que causa constrangimento para professores, pais e alunos", afirma a psicanalista Vera Iaconelli. 

Houve uma "corrida" entre os próprios docentes de quem se adapta melhor a essa nova realidade, o que acabou se tornando mais um fator de estresse, como explica a professora Viviane Neves: "Se você fica ali se empenhando para mostrar o quanto é adaptável e capaz de lidar com as novas ferramentas, vai causar sofrimento para si mesmo e para o outro. O melhor é trabalhar no coletivo e apoiar a comunidade para encontrar caminhos possíveis de abordagem e atuação".

Um caminho possível, de acordo com Vera, estaria na conversa entre educadores, pais, alunos e instituições para o que chama de "redução de danos psíquicos" de todos os envolvidos na Educação. "Temos de baixar um pouco as expectativas, respeitar as limitações das crianças e de quem ensina e fazer o que é possível", diz. Por possível, ela entende que é "fazer aquilo que cada um reconhece como algo que pode ser feito sem adoecer a si próprio e aos demais".

Caminhos saudáveis para percorrer

Neste momento em que a tendência é ficar cada vez mais horas trabalhando, é preciso estar atento para que o tempo de trabalho remoto não comprometa quase 100% do seu dia. O ideal é distribuir o tempo para que todas as áreas da vida sejam contempladas e não deixar que o trabalho invada os momentos de descanso. "Outro ponto importante é entender que o virtual é diferente do real e que ambos são diferentes do ideal", afirma a psicanalista Vera Iaconelli. Parar de se cobrar por um ideal inatingível ("Eu costumava dar três atividades por dia") e trabalhar com a realidade apresentada ("Consigo fazer três em dois dias") é algo que acalma as ansiedades da vida profissional.

Também é necessário unir forças. "Criar práticas de formação permanente, encontros de escuta ativa entre professores, espaços para detecção de problemas e construção coletiva de soluções e mecanismos para o fortalecimento de laços com a comunidade escolar é uma ferramenta muito útil para o desenvolvimento de um ambiente de trabalho saudável", defende Sandra de Almeida. Além desses aspectos, Sandra salienta que é primordial ter uma rede de apoio. "A colaboração e a ajuda recíprocas fortalecem as relações pessoais e profissionais, auxiliam a construir e manter laços sociais, valorizam a circulação da palavra e amenizam os sentimentos de solidão, de desamparo e de impotência em face das incertezas", explica.

Encontrar alguém com quem dividir as angústias pode aliviar essas tensões. Mas não se esqueça de manter um olhar atento para si mesmo. Caso perceba que a tristeza, angústia, medo, estresse estão te consumindo a ponto de o trabalho se tornar algo tão pesado que te faz sofrer, é o momento de buscar ajuda profissional. Muitas faculdades de psicologia e coletivos de psicoterapeutas oferecem atendimentos gratuitos. Mais recentemente, houve o lançamento do projeto "Apoio Emocional", parceria da Quero na Escola e a Fundação SM, para conectar professores e profissionais da área da saúde mental por meio de encontros virtuais.

Para ajudar professores e outros profissionais da Educação a atravessarem este período excepcional, NOVA ESCOLA, em parceria com a Fundação Tide Setubal, vai trazer uma série de conteúdos especiais voltados à saúde mental. Acompanhe todos os conteúdos clicando aqui na página especial do projeto. Dentro do Nova Escola Box, vamos ajudar professores do Ensino Infantil e do Fundamental a refletirem e lidarem com essas questões. No dia 13 de agosto, o psicanalista Christian Dunker e a psicóloga Roberta Federico vão debater em uma live os cuidados que professores devem ter com sua saúde mental ao longo da pandemia. E, para fechar, um especial com dicas práticas para se cuidar melhor. Porque cuidar do equilíbrio mental dos professores é cuidar também da Educação.

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