Professores na pandemia: “De repente, nossas vidas mudaram da água para o vinho”

Longe das salas de aula por conta da pandemia do coronavírus, educadores relatam difícil cotidiano no ensino a distância, mas também a esperança de dias melhores

POR:
Lucas Santana

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamada com a professora Maria Cristina Moreira

Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Se pudéssemos eleger o sentimento do ano de 2020, ele seria a falta. O dicionário a classifica como ato ou efeito de faltar; de não estar em um lugar onde se poderia ou deveria estar; ausência. A pandemia do coronavírus isolou as pessoas em suas casas, fechou comércio, fronteiras entre países e também as escolas. Os pátios, antes tão barulhentos, ficaram silenciosos. As salas de aula, antes tão cheias de olhares curiosos e interações, foram preenchidas pelo vazio do distanciamento social.



Embora a falta seja um sentimento muito conhecido de todos os seres humanos, poucas vezes paramos para refletir: afinal, por que sentimos tanta falta das pessoas do nosso convívio, dos colegas professores, do ambiente físico da escola e dos alunos? “A razão da nossa falta é não saber como funciona aquilo que para nós ainda é desconhecido e que encaramos como ameaça. É a perda daquele lugar aconchegante que eu já sabia como era que causa essa estranheza, a falta”, explica a psicóloga especialista em terapia familiar Louise Madeira, dona de um popular podcast de falas terapêuticas chamado New Me. No seu canal, Louise faz reflexões sobre temas que afetam a todos nós: a culpa, o tédio, a ansiedade, nossas dificuldades de agir, entre outros tópicos. “O mundo para nós é uma construção. Nós sentimos falta porque temos uma tendência a criar familiaridade e segurança com aquilo que a gente conhece”, pontua a psicóloga.

Na escola, a falta não é só de contato físico. Ela é também da ausência do contato. De acordo com a pesquisa “A situação dos professores no Brasil durante a pandemia”, realizada pela NOVA ESCOLA na segunda quinzena de maio com mais de 8,5 mil professores, apenas 32% dos respondentes afirmam que todos os alunos têm participado das atividades remotas.

Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

A docência longe da escola

Em Piraí, no interior do estado do Rio de Janeiro, a professora do 1º ano do Fundamental, Maria Cristina Moreira convive com essa falta que têm marcado a pandemia do coronavírus. Há mais de 30 anos na rede pública fluminense, foi a primeira vez que recebeu a notícia de que as aulas não tinham prazo para voltar. “Estive na escola em uma sexta, dei aula, me despedi dos alunos, dos colegas e, de uma hora para outra, chegou a ordem de não reabrir mais a escola. Ficamos um mês completamente parados, sem atividades”, relata Cristina. Além da falta, ela revela outra companheira muito presente: a sensação de impotência.  Tantos sentimentos e o futuro incerto levaram a educadora a escrever um diário de bordo como forma de externalizar o que estava sentindo sobre a experiência de educar durante a pandemia.

O anúncio da mudança veio sem aviso prévio. “De repente, nossas vidas mudaram da água para o vinho. Senti medo e insegurança diante de um vírus desconhecido que transformou nosso cotidiano”, desabafa Iara Schmidt, professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio na rede estadual do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

A insegurança de Iara é compartilhada pela professora Karen Nunes, educadora do 5º ano do Fundamental na rede municipal de Campinas, no interior de São Paulo. “Foi um sentimento de dúvida total. No começo imaginava que seria algo rápido, que em 14 dias estaríamos de volta. Hoje já são mais de 100 dias de quarentena”, diz. “Sinto muita falta da minha rotina, do meu trabalho. Já passei por situações de ficar deprimida, angustiada”, conta a professora, emocionada. A docente revela que após a primeira transmissão ao vivo que fez com os alunos, depois de quase um mês sem vê-los pessoalmente, finalmente se deu conta da difícil situação que estava vivendo. “Desabei”, confessa a professora.

Antes da quarentena, Maria Cristina não tinha nenhuma planta. O tempo em casa, entretanto, fez com que buscasse uma nova rotina que incluiu criar uma horta

Aceitar a nova rotina é um exercício importante

Se antes a rotina dos educadores envolvia o agitado ambiente escolar, com o anúncio das medidas sanitárias de combate ao coronavírus, a sala de aula calorosa deu lugar a telas frias do computador e do celular. Desse choque de realidades surgiu uma profunda sensação de solidão, como explica a psicóloga Louise Madeira. “O professor nesse momento é um herói. Ele, que se via diante de uma sala lotada, agora está diante de uma tela, muitas vezes sozinho. O primeiro momento do aprendizado digital é de extrema solidão”, reflete a terapeuta.

O momento é difícil, mas Louise lembra que é necessário fazer uma reflexão para não se deixar tomar por sentimentos ruins. “A primeira coisa é admitir que há perdas, quando, em geral, tentamos negar a perda. A segunda orientação é de que precisamos ser humanos uns com os outros, sendo menos rígidos”. A psicóloga lembra que a superação desse momento do ensino remoto só será possível com muita humanização dos professores, dos alunos e dos pais e responsáveis, com leveza e empatia entre todos os envolvidos.

Depois do choque inicial, a busca pelo vínculo

Quando o primeiro choque passa e o educador se reconhece na nova realidade, a sensação de isolamento diminui e começa um novo momento: o trabalho de educar a distância. Nesse processo, o primeiro passo foi conseguir os telefones dos alunos para tê-los no WhatsApp. “Percebi logo que teria que fazer alguma coisa pelos meus alunos, pois eu tinha em casa um adolescente a mesma situação dos meus alunos: perdido e deprimido e queria enviar mensagens de conforto”, conta Iara. Muitos alunos responderam sua tentativa de contato relatando que não havia como entregar atividades por falta de qualquer meio de comunicação. Sensibilizada com a situação das crianças, doou alguns aparelhos que estavam sem uso para os alunos que tinham mais dificuldades financeiras.

O abismo social tão presente nas escolas públicas brasileiras se mostrou especialmente feroz durante a pandemia. “Temos uma plataforma em que postamos as atividades para os alunos, mas o acesso tem sido baixíssimo. A maioria dos pais têm apenas um celular, alguns sem um plano de dados bom, outros não sabem mexer muito bem. Menos de 25% dos alunos acessam a plataforma online”, explica a professora Maria Cristina. Na rede em que atua em Piraí, a prefeitura deu aos pais com dificuldades de acesso à internet a opção de retirar os materiais impressos na escola, para onde Cristina envia semanalmente as mesmas atividades que disponibiliza online. “Procuro me colocar presente de alguma forma para a família para apoiar esse pai que também não é professor, essa criança que está aprendendo sozinha”, lembra. 

Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

No interior paulista, Karen conta que a prefeitura também optou pelo ensino remoto como forma não de entregar conteúdos novos, mas de manter algum vínculo professor-aluno. A estratégia adotada por ela foi tentar manter um grupo no WhatsApp com seus alunos para trocar mensagens, tirar dúvidas e manter um mínimo de contato. Embora existam dificuldades técnicas, ela agradece por ainda conseguir ver parte dos alunos ali nas lives (transmissões ao vivo) que faz uma vez por semana. “As transmissões é o que tem mantido meus alunos próximos. Eles aguardam ansiosos, é o dia em que eles mais esperam na semana” conta a professora.

Afeto também é aprendizado

A falta de convivência com os alunos, a sensação de isolamento e impotência não têm a ver apenas com distância para a psicóloga Louise Madeira. Ela explica que uma parte importante do processo de aprendizagem está no vínculo, no contato e na experiência diária entre professores e alunos na escola. “O grande elemento da aprendizagem é afetivo. Para a criança pequena, a ação de chegar na escola e a professora abraçar já é aprendizagem. O jeito que a professora explica, a voz, tudo isso fica marcado na aprendizagem da criança. No digital, o vínculo momentaneamente se enfraquece”, explica.

Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Esperança em uma volta segura ao cotidiano da escola

O Brasil tem, na data de publicação desta matéria, mais de 80 mil mortes por coronavírus notificadas oficialmente pelo Ministério da Saúde, com uma taxa de pelo menos mil mortos por dia. Ainda assim, governos estaduais e municipais em todo o país já discutem o retorno às atividades escolares nos próximos meses, algo que desperta preocupação nos educadores. “É um risco muito grande colocar a criança na escola e também nos expor ao perigo. Eu não estou preparada para voltar”, confessa a professora Maria Cristina. Mesma preocupação de Iara, lá em Porto Alegre. Ela trabalha em duas escolas bem diferentes, ambas da rede pública. Uma delas, mais urbana, tem boa estrutura, internet, uma grande equipe de limpeza. A outra escola, afastada do centro, conta com apenas um funcionário responsável pela higienização e outro pela monitoria. “Eu particularmente tenho muito medo dessa volta, principalmente na escola em que trabalho com os pequenos. Entre os grandes, não vejo também como dar certo pois tenho 47 alunos que não conseguem nem se mexer na sala”, desabafa.

Apesar dos receios, o retorno à escola é um horizonte vislumbrado por todas elas. Encontrar os alunos, ver a escola animada, cheia de vida e voltar à rotina é um desejo presente. Os cuidados para o retorno, porém, terão que ir além da aguardada vacina. A psicóloga Louise Madeira recomenda que, quando for seguro a volta à escola, o ambiente seja de acolhimento. “Eu instruiria os professores a receberem esses alunos devagar, conversar muito, para que as crianças cheguem de verdade, falando o que estão sentindo. Afinal, é um outro momento de ruptura, agora com a casa onde as crianças passaram a maior parte do ano. A palavra chave da volta é acolhimento”, analisa Louise. “A expectativa do retorno é muito grande. Quero dar aulas e estar com meus alunos. Retomar o que foi paralisado e dar meu máximo, principalmente com os alunos com mais dificuldade. Se preciso, também fazendo atividades de reforço, para que o impacto não seja tão grande”, deseja Karen.

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