“Valorizar o professor é uma tríade de formação, carreira e salário”

Maria Alice Setubal fala sobre como a pandemia amplia desigualdades e aborda a necessidade de um olhar intersetorial para as políticas educacionais

POR:
Camila Cecílio
Neca Setubal. Crédito: Reprodução/Facebook

“O Brazil não conhece o Brasil”. Em entrevista a NOVA ESCOLA, a frase de Querelas do Brasil, imortalizada na voz de Elis Regina, é citada por Maria Alice Setubal, doutora em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), socióloga e educadora, para descrever o momento pelo qual atravessa o país. Para ela, a pandemia do novo coronavírus, que já dura quase cinco meses, escancarou desigualdades sociais e raciais que já assombravam o Brasil antes da crise sanitária, mas que, agora, gritam aos quatro cantos.

A concentração de riqueza, as desigualdades sociais, de gênero e raça são alguns dos desafios elencados por Neca Setubal, como é conhecida, que a sociedade precisa enfrentar agora e nos pós-pandemia. Algumas dessas desigualdades ficaram, inclusive, evidentes na Educação, especialmente diante da dificuldade de acesso de milhares de jovens à internet e aos equipamentos eletrônicos para participar de aulas remotas.

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Para a presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), que é a favor de uma renda básica cidadã e da expansão de uma banda larga de qualidade para todos, no horizonte há esperança de mudanças. Apesar da tragédia – como Neca se refere à pandemia – é possível ter um olhar otimista. “Tem momentos históricos nas sociedades em que há a aceleração de algumas políticas e eu vejo o Brasil com esse potencial”, conta.

Isso não quer dizer que as mudanças acontecerão amanhã ou logo após o fim da pandemia, por mais incerto que isso seja. Neca Setubal acredita que esse é o momento do Brasil fazer a lição de casa, conhecer o “Brazil”, como sugere a música, e avançar. “Temos potência para uma aceleração histórica, com uma mudança no sistema de tributação, com renda básica cidadã, com medidas concretas, como a busca por internet de qualidade para todos”, ressalta.

A pandemia escancarou a desigualdade no Brasil e mostrou que o acesso à internet e a equipamentos eletrônicos, como computadores e celulares, não é realidade para todos. Quais serão os impactos dessa discrepância social na Educação?
MARIA ALICE SETUBAL As desigualdades sociais e as educacionais não são uma novidade no Brasil. O que nós temos é uma dificuldade de enfrentá-las e, como muitas pessoas têm dito, a pandemia escancarou essas desigualdades, por dois motivos principais. O primeiro é porque a mídia mostrou isso o tempo todo e não tínhamos como não olhar as histórias. Todo mundo ficou muito ligado para entender o que estava acontecendo, principalmente nas comunidades de alta vulnerabilidade social. Segundo porque, por conta da pandemia, todo mundo foi atingido de alguma forma por essas desigualdades, óbvio que de formas diferentes. Tudo isso foi se acumulando e essas questões foram sendo apropriadas entre as pessoas.

Acredito que o primeiro e mais óbvio impacto é na aprendizagem dos alunos. Alguns estudos feitos durante a pandemia mostram que crianças fora da escola por um determinado período de tempo têm perdas não só relacionadas ao que estão deixando de aprender como também nas aprendizagens já adquiridas. Principalmente se considerarmos que, para os estudantes da escola pública, que representam 80% das nossas crianças e jovens no Brasil, a escola pública ainda é o grande espaço de aprendizagem e acesso ao conhecimento, diferentemente dos outros 20% que estão em escolas privadas e têm acessos a conhecimentos a partir de variadas formas. Alguém pode dizer “mas as crianças e jovens também têm internet e celular”, sim, têm, mas pesquisas também mostraram, antes da pandemia, que crianças e jovens mais pobres usam internet e celulares para questões de conversas, de trocas, e muito pouco para pesquisa e acesso ao conhecimento, como jovens de classe média alta usam. Esse impacto na aprendizagem é grande. Sem falar no impacto na saúde emocional desses jovens.

Além disso, é uma ilusão achar que todo brasileiro tem acesso à internet e a equipamentos eletrônicos como o celular. Enquanto não tivermos uma internet banda larga boa para o Brasil como um todo, não temos a menor condição de falar, por exemplo, em um ensino híbrido decente, digno, porque vai atingir, no mínimo 30% da população. Estamos num momento que é divisor de águas.

Você disse recentemente que a desigualdade atinge a sociedade como um todo, não só aos pobres e que isso faz diferença na conscientização das pessoas. Você acredita que no pós-pandemia teremos uma sociedade mais consciente sobre essas desigualdades? Como isso pode refletir na Educação pública?
Vejo essa questão com otimismo, ainda que dentro de toda essa tragédia. Tem momentos históricos nas sociedades em que há a aceleração de algumas políticas e eu vejo o Brasil com esse potencial – o que não quer dizer que vai se realizar, mas é o potencial de acelerar políticas que combatam as desigualdades sociais e raciais. Temos potência para uma aceleração histórica, com uma mudança no sistema de tributação, com renda básica cidadã, com medidas concretas, como a busca por internet de qualidade para todos.

A pandemia escancarou as desigualdades e mostrou para a sociedade, em geral, que a gente tem uma responsabilidade na inclusão das minorias. Claro que não vamos mudar de um dia para o outro, não acredito nisso. Mas acredito no potencial para mudarmos algumas coisas e uma delas é a solidariedade, não só da sociedade civil organizada, mas das pessoas em geral. Acho que vai aumentar a cultura de doação e olhar para o outro.

A sociedade civil está sendo bem ativa. Conquistas já foram alcançadas, como a aprovação do novo  Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que ocorreu graças à sociedade civil articulada com os partidos e com o Congresso Federal. Assim como o auxílio emergencial foi uma pressão da sociedade.

A criação de uma renda básica solucionaria o problema da desigualdade social no Brasil?
Com certeza ajudaria. Uma renda básica é condição para a gente começar a virar um pouco o jogo da desigualdade, que é lento, mas, se conseguirmos estabelecer uma renda básica cidadã, é uma condição. Sem isso, a gente não consegue nem dar o segundo passo, levando em consideração que o primeiro passo foi dado com várias outras políticas anteriores, como o Bolsa Família, por exemplo.

Uma das maiores preocupações da Educação nesse momento é o aumento da evasão escolar, especialmente em relação aos alunos do Ensino Médio, que costumam abandonar a escola por necessidade de apoiar financeiramente suas famílias, situação agravada pela crise sanitária. O que é possível fazer para manter os jovens na escola em um contexto que muitas vezes passa pela sobrevivência?

Essa é uma preocupação de todas as organizações ligadas à Educação e, nesse sentido, há diversas iniciativas para buscar ativamente os alunos. É muito importante para essas crianças que a escola tenha uma relação mais próxima com os pais e responsáveis, que as acompanhe e vá em busca desses alunos. Outro ponto essencial é o vínculo dos professores com os alunos, um olhar mais amoroso, de afeto e de acolher nas condições que forem possíveis. A relação mais próxima com a família é um ponto fundamental que a escola precisa considerar para não perder o contato que for possível durante a pandemia, mesmo que esse contato seja feito por meio de grupos de WhatsApp. De todo modo, é importante lembrar que a evasão dos alunos no Ensino Médio, por exemplo, já acontecia antes e tudo que era anterior à pandemia, acelera agora para o bem ou para o mal. A escola vai ter que ter uma conversa mais próxima com as famílias e um olhar atento para o acolhimento. Esse não é o momento de querer recuperar todo o currículo. Se a escola fizer isso agora, acredito que vamos perder muito. Nesse momento, o mais importante é o acolhimento, aprendizagens fundamentais e ponto. Estamos vivendo outra lógica.

Em plena pandemia, o assassinato de George Floyd, um homem negro morto por um policial branco nos Estados Unidos, fez surgir uma onda de protestos em diversos países, inclusive no Brasil para dizer que vidas negras importam. A pandemia também amplia a desigualdade de oportunidades para os estudantes negros? Como essa desigualdade racial se dá no atual cenário da Educação, em que as aulas acontecem a distância?

O impacto das desigualdades educacionais, sem dúvida, é maior na população negra. O indicador de desigualdade IDeA já mostrava que antes da pandemia as desigualdades, no recorte racial, são maiores para os meninos negros. E pandemia acelera as desigualdades para a população negra. Sobre isso, há um estudo da professora Marília Carvalho, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), chamado Marcadores de Desigualdade na Educação - Gênero e Raça, que é muito interessante. 

Com a suspensão das aulas em decorrência do risco de contaminação pelo novo coronavírus, milhares de professores brasileiros tiveram diminuição de salário, suspensão de benefícios e gratificações. Mas, para muitos, o trabalho, por sua vez, aumentou com o ensino remoto. Qual a importância da motivação dos professores em um momento delicado como o que vivemos? Como podemos valorizá-los?
O principal ativo da Educação é o professor. Valorizar o professor é uma tríade de formação, carreira e salário. Se não tivermos essa conscientização da formação dos professores e da necessidade de melhores salários, não vamos mudar. Isso não quer dizer que um salário melhor hoje vai resolver a Educação já amanhã. Mas, a longo prazo, não só motiva o professor como atrai mais talentos para a carreira do magistério. Acredito que mais adiante vamos ver que o ensino remoto também trouxe um novo olhar das famílias para os professores, de perceber a complexidade da tarefa de ensinar. Mesmo os pais de classe média, que se viram com muita dificuldade de acompanhar seus filhos e com a clareza de que se não estivessem ao lado não aconteceria o ensino remoto. Me parece que a situação da pandemia trouxe, de forma espontânea, uma maior valorização do trabalho dos professores. Agora, com a pandemia, os professores tiveram que se reinventar quase que da noite para o dia, muitas vezes sem condições, com filhos e com uma internet ruim. Portanto, aplausos e valorização para os professores.

Quando falamos de algumas questões transversais à escola, mas essenciais de se considerar nesse momento, como o cuidado com a saúde mental dos alunos e mesmo dos professores no ensino remoto e no retorno às aulas presenciais, esbarramos no que é papel da escola e no que transborda essa relação. Você acredita que será necessário criar parcerias mais fortes com outras áreas além da Educação para conseguirmos superar os desafios e obstáculos trazidos pela pandemia? Quem são os parceiros chaves nesse processo?
Várias organizações têm apontado a importância de ter, no mundo todo, um olhar sistêmico e intersetorial das diferentes políticas. No caso da Educação, a política da assistência social, saúde, cultura e esporte são fundamentais de estarem articuladas. Acredito muito fortemente que esse olhar sistêmico e essa intersetorialidade só acontecem nos territórios. Então, são as organizações dos territórios que têm essa possibilidade de se organizarem de forma sistêmica. Daí a importância de que as políticas públicas, ao serem desenhadas, levem em conta o território. Caso contrário, têm muitas dificuldades de serem implementadas.

É possível tirar algumas lições desse momento que vivemos?
Muitas lições na Educação, mas não só. Um tema que tem aparecido de forma muito recorrente é a importância da saúde emocional. Acho que essa é uma das principais lições da pandemia. Outra lição é esse olhar sistêmico de que o território importa, aprender a olhar para diferentes realidades e buscar articular nos territórios políticas que considerem as diferenças de cada um.

Para você, qual mundo teremos no pós-pandemia?
É difícil responder a essa pergunta. Acho que sou otimista no sentido de acelerar algumas políticas que enfrentem as desigualdades, enfrentem o racismo e enfrentem as questões fundamentais da Educação e da saúde. Agora, o dia a dia real não sabemos como será, mas acredito da potência das mudanças propostas pelo contexto que estamos vivendo. 

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