Gratidão aos professores e professoras do Brasil

Em meio a tantas dificuldades, muitos de nós estão fazendo o impossível. Os heróis de alguns usam capa e sabem voar, os meus usam livros e sabem ensinar

POR:
Evandro Tortora
Foto: Bruno Concha / Secom Prefeitura Municipal de Salvador

Recentemente recebemos um convite muito especial! Foi sugerido que utilizássemos um tempinho da nossa sexta-feira, dia 31 de julho, para aplaudir os professores brasileiros. É uma homenagem mais que merecida. Professores e professoras Brasil afora têm se reinventado para dar conta do seu trabalho nesses tempos tão difíceis.

Confira planos de atividade para uso a distância
alinhados à BNCC de Educação Infantil

Eu me lembro de quando optei por cursar Pedagogia e no primeiro dia de aula minha professora nos deu os parabéns por termos escolhido a profissão mais bonita que existe! Naquele momento não estava muito certo daquela afirmação, mas hoje, 14 anos depois daquela conversa, tenho a mesma opinião que minha professora.

O dia 31 de julho me fez pensar no que já conquistamos para nossa profissão, mas também pelo que ainda precisamos lutar para alcançar. As palmas são muito mais que merecidas. Apesar de todas as dificuldades, os professores estão há muito tempo dando o seu melhor para oferecer uma educação de qualidade às crianças, adolescentes e adultos brasileiros.

Com esse sentimento de gratidão e reconhecimento pelo trabalho docente, proponho algumas reflexões sobre o que ainda precisamos conquistar para nossa profissão. Há vários aspectos a serem pensados. Aqui, proponho alguns diálogos com a formação de professores, com questões salariais e com nossas condições de trabalho.

Acredito que a formação inicial e continuada dos professores precisa ser repensada e não é de hoje que percebemos esses problemas. Você mesmo, colega professor(a), poderia apontar muita coisa que gostaria de ter aprendido na graduação e que não teve oportunidade, não é?

Não sou só eu que estou dizendo que precisamos repensar a nossa formação inicial. Diversos pesquisadores já apontaram essa necessidade. Bernardete Gatti, respeitada pesquisadora que investiga formações de professores, já aponta há muito tempo em suas pesquisas a necessidade de rever diversos aspectos da formação docente. Recomendo a leitura de um dos artigos desta professora, no qual aponta fundamentos para discutir a qualidade formativa de professores e, portanto, a qualidade educacional, com ênfase dos seguintes aspectos:

  • Que o fato educacional é cultural;
  • Que o papel do professor é absolutamente central;
  • Que o núcleo do processo educativo é a formação do aluno;
  • Que é preciso considerar a heterogeneidade cultural e social de professores e alunos;
  • Que as práticas educativas institucionalizadas determinam em grande parte a formação de professores e, na sequência, de seus alunos.

Além da formação inicial, temos os cursos de formação continuada. Acredito que hoje estamos em melhores condições nesse aspecto, mas muitas das nossas formações precisariam vir mais ao encontro das nossas necessidades, não é? Por exemplo, se eu e minhas colegas professoras temos dificuldades em propor vivências com artes com as crianças, deveríamos ter oportunidades de formação nesse sentido. Infelizmente, essa não é uma realidade para muitos colegas docentes.

Quanto às condições de trabalho, muitas conquistas foram conseguidas ao longo do tempo, porém ainda há muito a se exigir. Tomando a minha realidade como exemplo (professor de Educação Infantil), sabemos que ainda temos que conquistar o direito a termos menos crianças em nossas turmas ou, em alguns casos, de termos materiais de qualidade para proporcionar vivências às crianças. Sem falar na valorização da Educação Infantil como importante para o desenvolvimento da criança, o que passa por uma valorização do professor desta faixa etária. Há ainda outras tantas demandas referentes à Educação Básica de uma maneira geral, para as quais esse espaço se mostra pequeno demais para discuti-las com a merecida dedicação, mas que devem ser ouvidas e consideradas pelo poder público.

Nossos salários também precisam de atenção, afinal temos contas para serem pagas. Da mesma forma que se exige um trabalho docente responsável por meio de uma formação adequada, as redes de ensino (particulares e públicas) deveriam remunerar os docentes de forma digna. Porém, muitos de nós ainda ganhamos pouco... muito pouco! Em uma matéria de capa de NOVA ESCOLA de janeiro de 2019, temos relatos de colegas que precisavam de uma segunda jornada para complementar sua renda.  Além, obviamente, dos colegas que abraçavam várias aulas e dividiam seu trabalho em várias escolas para poder conseguir ter um salário melhor pois, com a carga horária mínima, não conseguiriam pagar suas contas.

A fim de conseguir um salário mais justo, precisamos que a legislação e o poder público garantam ao professor um salário digno. Para mim, isso mostra o quão desvalorizados ainda somos perante alguns municípios, visto que muitos não pagam o mínimo previsto pelo piso nacional.

O professor deveria ter condições salariais de trabalhar em apenas uma escola, se dedicar ao projeto pedagógico de apenas uma instituição, bem como ter tempo para conhecer melhor o seu aluno e ter um espaço para refletir sobre sua prática docente, junto dos seus colegas, e aprimorá-la com o passar do tempo. Tudo isso só é possível quando um professor ganha suficientemente bem para ficar na mesma instituição. Infelizmente, ainda precisamos desta conquista.

Pra finalizar, aponto que, além da formação inicial e continuada, dos salários e condições de trabalho, ainda vivemos numa sociedade que precisa defender melhor seus professores. Não vamos conseguir tais conquistas sem ações que valorizem o professor e combatam as violências verbais e físicas que alguns colegas sofrem. Eu conheço colegas que sofreram estas agressões há anos e carregam as marcas dessa violência até hoje.

Escrevi esse texto, colegas, apenas para dizer que reconhecemos sim que há muito o que ser feito pela carreira docente, mas que, mesmo com todas essas dificuldades, muitos de nós estão fazendo o impossível! Os professores se reinventaram, utilizam da sua própria internet para levar conhecimento aos seus alunos, pegam bicicletas ou vão a pé levar a lição aos seus alunos que não podem ir buscá-las, fornecem seus números particulares para seus grupos de WhatsApp, se expõem nas videoconferências para que seus alunos possam aprender...

Os heróis de alguns usam capa e sabem voar, os meus heróis usam livros e sabem ensinar. O sentimento de gratidão ganha significado quando penso nos professores e professoras desse país.

Pensar num Brasil mais justo e digno é pensar na qualidade do trabalho do professor.

A vocês, minhas palmas, meu carinho e meu eterno reconhecimento!

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.