Como estão as escolas de referência no Ideb na quarentena?

Com suporte técnico, pedagógico e no planejamento, professores relatam importância da parceria com a gestão e as famílias

POR:
Ana Paula Bimbati

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamada com as professoras Maria Suely de Oliveira e Luciana Sturnik.

Maria Suely se encontra com seus alunos pelo Whatsapp todos os dias no horário da aula presencial. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

A rotina de Maria Suely de Oliveira, professora do 5º ano da EMEF Francisco Benício de Vasconcelos, em Barroquinha (CE), mudou com a pandemia. Ela faz parte de uma rede e de uma escola que obtiveram uma média no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) maior do que a nota nacional. Segundo dados do QEdu, a proporção de alunos que aprenderam o adequado na competência de leitura e interpretação de textos até o 5° ano na escola de Maria Suely é de 92%, enquanto a média nacional é de 56%.

Mas e em meio a pandemia? Como ficam essas escolas? Há fatores no planejamento dessas escolas que colaborou para que estivessem mais preparadas para esse momento? Como elas estão lidando com o ensino remoto emergencial? “Nesse momento, a gente se preocupa em atender a todos os alunos. A gente sabe que a qualidade não é a mesma da sala de aula, mas nos esforçamos todos os dias”, conta. Apesar de ter sido pega de surpresa e da necessidade de se adaptar ao ensino remoto, acredita que está se saindo bem.

Nesta reportagem, conversamos com as professoras Maria Suely, Luciana Sturnik, de Jales (SP) e Ruthielle Martins, de Sobral (CE), para entender como tem sido a experiência dos professores de escolas referências e como as práticas pré-pandemia das escolas estão ajudando nos desafios do ensino remoto.

O dia a dia do ensino remoto
Assim que as aulas a distância foram anunciadas no município, Maria Suely contou que a gestão escolar se reuniu e preparou um roteiro de trabalho, que já era feito antes da pandemia, mas que agora recebeu propostas para o ensino remoto.

“Recebemos em nosso e-mail o número de todas as crianças, de suas famílias, e no dia seguinte montamos grupos no WhatsApp”, conta. Toda semana ela monta um roteiro e envia para as crianças pelo aplicativo. A professora se “encontra” com sua turma no mesmo horário da aula presencial. Ela diz que é a mesma rotina, mas no virtual. “São 4 horas de aula. Eu passo o cronograma do dia e eles enviam as atividades no privado. Usamos também o Google Meet para leitura uma vez por semana”, relata.

Os alunos que não têm acesso à internet recebem os materiais em casa e a professora faz uma ligação semanal para tirar dúvidas, conversar e ajudá-los.

Luciana edita seus próprios vídeos e aposta em estratégias de orinetações para chamar atenção dos alunos do 1º ano. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Já as professoras Luciana e Ruthielle preparam vídeos e enviam via WhatsApp. “No começo não foi fácil, porque o professor é dentro da sala de aula e se imaginar fora gerou um pouco de ansiedade”, conta Luciana. A educadora de Jales explica que a gestão deixou em aberto o formato da aula para que cada professor escolhesse e se adaptasse ao que fosse melhor para o seu perfil.

“Programo toda minha aula, porque no início tinha uma preocupação sobre o que falar, como falar, o tempo do vídeo”. Entre as estratégias que usa, está o tom das orientações que traz e o formato inspirado em um encontro presencial com a turma. “Eu converso com eles no vídeo, como se eles fossem me responder na hora mesmo. Dou um tempo para eles responderem, peço para pausarem o vídeo e pensarem naquela pergunta e, logo em seguida, sigo o vídeo”. Desta forma, a professora acredita que os pais e responsáveis não precisam perder tanto tempo explicando, já que ela dá todos os detalhes no vídeo.

Ruthielle segue a mesma estratégia dos vídeos, mas a aula é ao vivo com seus alunos do 5º ano da Escola Francisco Aguiar. “Toda semana trabalhamos com mais foco em uma competência socioemocional”, diz.

Apoio da gestão escolar e da família
Desde o início, Maria Suely tem reforçado para as famílias a importância de suas participações durante esse período. “O empenho dos pais e responsáveis é parte fundamental [dos nossos resultados], porque se não existisse isso, o trabalho não estaria rendendo”, afirma.

Ela conta que tem recebido ideias dos responsáveis sobre como usar a tecnologia durante o dia a dia. “É um momento novo e importante para abrirmos essas oportunidades para os pais. Às vezes, eles sabem como mexer nas plataformas, por exemplo, e nos ajudam”.

Para a professora, o apoio e empenho da família é fundamental para que o ensino remoto funcione no dia a dia. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Além da proximidade e parceria com as famílias, o apoio técnico e pedagógico da gestão escolar e da secretaria de Educação fazem toda a diferença para minimizar o impacto das mudanças desse período que os professores passam. “Nossa escola tem uma equipe muito fortalecida e aumentou ainda mais na quarentena. Nossos HTPCs [horário de trabalho pedagógico coletivo] continuando acontecendo e vemos a valorização do nosso trabalho”, conta Luciana.

Segundo Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), o apoio nesse momento é essencial. “A atuação do professor é mais complexa. Ele precisa planejar, se organizar, fazer contatos individuais com alunos [...] e para o professor conseguir dar conta, ele precisa estar motivado”, diz.  “A motivação também tem a ver com quanto ele acredita que o trabalho que ele faz naquela escola pode ser decisivo para aprendizagem”. Por isso, o suporte de uma escola ou rede pode fortalecer a atuação docente – seja no ensino remoto ou no presencial.

“Não tem uma fórmula mágica ou um fator específico para essas escolas serem referências”, explica Ernesto sobre as escolas que se destacam nas avaliações externas brasileiras. Para ele duas características, entretanto, se destacam entre essas instituições de ensino: a capacidade de gestão de pessoas e o monitoramento da aprendizagem. Ambas acabam auxiliando gestores e professores na adaptação do ensino remoto emergencial.

A parceria entre os diversos agentes da escola é fundamental. Nos encontros virtuais, a professora Luciana relata que a coordenação pedagógica sempre deixa um espaço para que os educadores compartilhem suas práticas. “Um professor contribui com o outro. Tenho uma companheira que dá aula para 1º ano também e sempre trocamos”. Para Ruthielle o apoio da rede de ensino é essencial para execução do seu trabalho. “Nós sabemos que a gestão está capacitada para nos auxiliar em um momento como esse”.

Trocar experiências com outros professores nos HTPCs ajuda Luciana a lidar com os desafios atuais e pré-pandemia. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Busca ativa dos alunos
A preocupação com o abandono dos estudos durante a pandemia também atinge as professoras. Para evitar que as taxas cresçam, Ernesto diz que as redes vão precisar fazer uma busca ativa dos alunos que não estão em contato e colocá-los como prioridade. “A grande preocupação é perder alunos do sistema e isso tem que ser mais importante do que o Ideb. Não pode uma criança ou um jovem estar fora da escola”.

Para evitar a situação, Maria Suely sempre está em contato com a turma. “Todos os dias escolho cinco crianças para acompanhar mais de perto”, conta. “Havia alunos que não falavam tanto e eu considerava que não precisavam de ajuda, mas agora com essa atenção mais focada consigo ajudar pontualmente”.

Na maioria das vezes, ela usa um tempo (alguns dias) da aula para falar com os alunos que não têm acesso à internet. “No início da pandemia foi uma luta para encontrar todas as crianças, porque algumas foram para as casas dos avós. Mas continuamos até hoje mantendo e fortalecendo essa relação”, afirma.

Maria Suely disse que também vai de carro, seguindo todas as orientações de prevenção, para falar com as famílias que interagem menos ou quase nada nos grupos. Luciana também tem colocado esforço para manter as famílias motivadas. “As atividades, da maioria dos alunos, vão para o celular dos pais, então preciso do apoio deles para fazer o dia a dia funcionar”, conta.

Com seu próprio carro, Maria Suely vai até a casa das crianças que não estão interagindo ou não têm acesso à internet. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Já Ruthielle usa a motivação dos alunos mais engajados para incentivar os estudantes que interagem menos. Para isso, criaram um projeto chamado Monitores Online do Saber. “As crianças que participam auxiliam os professores fazendo ligações para os colegas que estão mais desestimulados”, explica. Essa é uma forma de fortalecer os vínculos entre as turmas também.

Projetos que engajam a turma
Professora de Sobral, umas das principais redes de referência no Ideb, Ruthielle conta que aposta no desenvolvimento de projeto com seus alunos no ensino remoto. Nos últimos meses, ela desenvolveu a semana virtual da poesia, em que as crianças podiam expressar seus sentimentos e os mais diversos temas. Depois, os textos foram publicados no Facebook da escola. “É uma maneira de gente trabalhar o necessário para aquela turma, mas sem deixar de conectá-los com a comunidade escolar, por exemplo”, conta.

Em junho, a professora desenvolveu o projeto “Rei e Rainha do Milho” e trabalhou a cultura nordestina com os alunos. “Também teve uma interação pelas redes sociais com as famílias e abordamos conteúdos interdisciplinares”.  Para Ruthielle esse é um momento em que o professor precisa se reinventar. “Se a gente já era criativo, precisamos ser mais agora, superar nossa prática de antes.”

Luciana também acredita no que a colega de profissão fala. Ela tem trabalhado com seus alunos do ciclo de alfabetização o desafio da leitura. “Todos os vídeos de aula eu insiro os vídeos deles lendo em casa”, conta. Com isso, os alunos também podem acompanhar os colegas nas tarefas.

No final do dia, a preocupação das professoras é a mesma: garantir a aprendizagem dos alunos em meio a um cenário cheio de desafios. “Aqui na nossa cidade a gente valoriza muito as crianças e sua aprendizagem. Se todos os gestores puderem fazer o mesmo, a Educação e os alunos só têm a ganhar”, aponta Luciana.