Leo Burd: “O desenvolvimento da criatividade não depende necessariamente da tecnologia”

Em entrevista a NOVA ESCOLA, Leo Burd fala entre outros temas, sobre criatividade em tempos de pandemia e como ela pode ser estimulada em casa e do papel central da tecnologia na Educação daqui em diante

POR:
Camila Cecílio
Leo Burd

Quando se fala em criatividade na Educação, um dos nomes de peso no Brasil e no exterior é Leo Burd, diretor-executivo da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa (RBAC) e pesquisador no MIT Media Lab (EUA). Há anos ele trabalha com formação continuada de educadores para acabar com o modelo quadrado da sala de aula, em que professor fala e demonstra, e alunos tomam notas, calados. 

Agora, diante da crise provocada pelo do novo coronavírus, criatividade se tornou uma das palavras do momento. Ninguém duvida que é preciso que os professores sejam muito criativos para manter a turma estudando, interessada em aprender. Apesar dos desafios e das perdas neste cenário, Leo está entusiasmado com o momento e com as chances que surgiram para mudar como se ensina e como se aprende. Para ele, que estuda aprendizagem criativa há pelo menos 20 anos, estamos diante de uma oportunidade de rever como se ensina e usar a tecnologia para empoderar os professores, transformar as salas de aula e o jeito de ensinar. “Quando as aulas presenciais forem retomadas, não faz sentido colocar todo mundo numa sala e fingir que nada aconteceu”, diz ele, em uma crítica clara ao esquema educacional ultrapassado em voga até o coronavírus virar o mundo do avesso.

Formado em Ciências da Computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leo defende que daqui em diante, as atividades propostas realmente despertem interesse nos alunos, fazendo deles protagonistas; que tenham espaço para brincar de forma mais solta, sem medo de se sujar ou quebrar algo, tocar em objetos perigosos ou valiosos, e que família e escola criem um laço forte e responsável. De acordo com ele, ainda existe uma tendência de os pais delegarem a Educação dos filhos para a escola e lavarem as mãos. “Ao mesmo tempo, a escola assume que os pais não têm um papel crucial”, explica. 

Confira os principais momentos da entrevista para NOVA ESCOLA.  

Em tempos de crise sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus e de tantas incertezas sobre o futuro, como a aprendizagem criativa pode colaborar com a Educação no Brasil?
LEO BURD As escolas foram colocadas de pernas para cima, a ideia que tínhamos sobre elas já não existe mais. Mas, independente do momento que vivemos, precisamos de uma Educação mais alinhada às necessidades contemporâneas. Qualquer pessoa ou país, para ter sucesso hoje em dia, precisa ser criativo, saber lidar com os recursos que têm à disposição de forma criativa, consciente e colaborativa. 

Mesmo em casa, longe da escola, é possível colocar em prática a aprendizagem criativa?
Sim. A criatividade é como um músculo que todos temos e precisamos exercitar. No caso das crianças, precisamos criar espaços para que explorem materiais diversos e trabalhem em projetos significativos para elas. Esses espaços e oportunidades podem ser em casa, na escola ou em outros lugares e com os materiais que estejam à disposição. No início do ano, a  Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa (RBAC) lançou o site Aprendizagem Criativa em Casa, com exemplos de atividades que famílias podem colocar em prática, usando brinquedos velhos, utensílios de cozinha, sucata e materiais recicláveis, entre outros. Também há dicas sobre como criar “cantinhos mão na massa”, para juntar  materiais para brincar de forma mais solta, criar livremente, sem medo de se sujar ou quebrar algo, tocar em objetos perigosos ou valiosos. Um canto importante para a criança desenvolver sua autonomia criativa. 

O que dizer sobre protagonismo, conceito defendido pela aprendizagem criativa, num momento em que cada um está na sua casa, sem contato olho no olho com o professor e com os colegas? 
O protagonismo depende da forma como as atividades são propostas: se não há espaço para ele, não acontece. Um aluno ser protagonista ou não tem a ver com o seu nível de engajamento na tarefa. Ele se engaja mais se consegue se enxergar na proposta, ter voz ativa e ser reconhecido pelo o que faz, estando ou não na escola. 

Em tempos de isolamento social e que certamente vai resultar em grande evasão escolar quando as aulas presenciais forem retomadas, como fazer para que a escola, agora distante literalmente dos alunos, ainda que se faça presente de forma online para alguns, não deixe de ser interessante e mantenha vínculo com todos? 
É fundamental que as atividades propostas sejam relevantes, façam sentido para os alunos. E, durante as aulas remotas, precisa existir a escuta ativa e o incentivo à participação deles nas discussões. Diante do atual cenário, também é preciso fazer com que eles reflitam sobre a importância da escola para cada um e sobre quais aspectos poderíamos melhorar essa experiência educacional, conversando tanto com a turma quanto com as as famílias. 

De que forma a tecnologia pode ajudar na aprendizagem e como driblar as dificuldades de acesso à internet e a dispositivos eletrônicos, tão escancaradas durante a pandemia? 
A internet e os dispositivos eletrônicos, em geral, permitem que a gente explore temas que dificilmente conseguiríamos explorar sem a tecnologia. Um microscópio eletrônico nos permite olhar a fundo uma matéria, um telescópio nos permite olhar distante no universo. A internet nos permite conectar com pessoas, casos e elementos em várias partes do planeta. Então, a tecnologia é realmente muito enriquecedora e importante para a Educação moderna. Mas a Educação e o desenvolvimento da criatividade não dependem necessariamente da tecnologia. Dependem muito mais das atividades desenvolvidas, se são criadas oportunidades para a criança e o adolescente se expressarem ou pensarem sobre conceitos de uma forma diferente, com ou sem tecnologia. 

Agora que o modelo da Educação a distância está mais em alta do que nunca, existe a possibilidade de a tecnologia substituir os professores? 
Não. Pelo contrário. Defendo usarmos  a tecnologia para empoderar o professor naquilo que ele já faz. Não se trata de usar tecnologia para gravar um vídeo de uma aula e apresentar para os alunos. A ideia é criar materiais que permitam aos professores utilizar vídeos e outros recursos na relação deles com os alunos, de formas variadas. São eles quem conhecem seus alunos melhor do que ninguém e sabem como adaptar os conteúdos e objetivos curriculares ao contexto da turma. A tecnologia, por si só, não consegue fazer isso. Ainda assim, é inegável que, neste momento de isolamento social, uma das grandes contribuições da tecnologia tem a ver com recursos para que os professores se comuniquem com os estudantes da melhor forma possível. Talvez a pandemia seja uma oportunidade para voltarmos para o futuro ou, pelo menos, para o presente. Sabemos que o retorno às aulas terá que ser diferente porque os estudantes vão voltar com níveis diferentes de motivação e aprendizado. Vamos aproveitar esse momento para implementar novas ideias e trabalhar juntos nas mudanças. Muitos professores que antes tinham receio em usar a tecnologia se viram encorajados e descobriram potenciais interessantes de uso para ensinar. Quando as aulas presenciais forem retomadas, não faz sentido colocar todo mundo numa sala e fingir que nada aconteceu. 

Quais outras lições podemos tirar desse período de pandemia, isolamento social e ensino remoto? 
É um período difícil para todos e não podemos de jeito nenhum minimizar as perdas e os desafios. Ao mesmo tempo, algumas lições e oportunidades que apareceram ficaram muito claras. A pandemia mostrou, por exemplo, que a escola sem a família não consegue fazer um trabalho decente. É preciso o envolvimento da família para motivar, acompanhar, facilitar a comunicação e viabilizar a Educação. Vejo isso como uma grande conquista. Há uma tendência, não só no Brasil, de os pais delegarem a Educação dos filhos para a escola e lavarem as mãos. Ao mesmo tempo, a escola assume que os pais não têm um papel crucial. A pandemia está mostrando que precisamos ter os dois juntos nesse processo para dar uma Educação de qualidade para as crianças.