Sem tempo para recuperar: os desafios e preocupações de quem é professor no Ensino Médio

A fase final da Educação Básica é cheia de barreiras a serem derrubadas pelos professores e alunos, mas o cenário fica ainda mais difícil em meio a pandemia

POR:
Ana Paula Bimbati

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamada com os professores Fabrício Antunes e José Guilherme.

Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

“Os problemas que a pandemia traz para o sistema de Educação são gigantes, são uma série de desafios a serem enfrentados. E para aqueles que estão no último ano da escola, é inegável que o desafio será ainda maior”, afirma Rossieli Soares, secretário de Educação do estado de São Paulo e coordenador da Frente de Currículo e Novo Ensino Médio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).

O Ensino Médio é considerado um gargalo da Educação. A etapa permaneceu estagnada por três edições do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Em 2017, avançou 0,1 ponto na avaliação, atingindo a nota de 3,8 – distante da meta prevista de 4,7. Além disso, um em cada quatro estudantes abandonam a vida escolar ao longo do Ensino Médio, segundo dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nesta reportagem, falamos com os professores Fabrício Antunes, José Guilherme Zago, Cleiziane Bispo da Silva e Lucenir Lucena Ferreira para saber como eles têm lidado com tantas outras particularidades do Ensino Médio.

Criatividade que surge da necessidade
Quando houve o decreto do estado dizendo que as escolas seriam fechadas, por volta do dia 14 de março, o professor de Física Fabrício, de Aracruz (ES), foi surpreendido. Foram 15 dias em casa pensando em como poderia estar próximo de seus alunos. “Como não havia nenhuma orientação nesse período, tomei a iniciativa de criar grupos de WhatsApp com meus alunos. Criei uma sala de aula no Google Classroom e comecei a postar atividades”, relembra.

Depois de duas semanas, a rede de ensino adotou a plataforma do Google e Fabrício transferiu seus alunos para as salas oficiais. No entanto, outros desafios apareceram: nem todos os alunos conseguiam se conectar ou possuíam uma boa internet. “Criei um aplicativo do zero! Com atividades, dicas para o ENEM [Exame Nacional do Ensino Médio], um espaço para divulgar o comércio local e também disponibilizei um campo para recuperação e criação do e-mail para o Classroom, já que muitos alunos tinham dificuldades em fazer isso”, conta o professor.

Professor Fabrício produziu um aplicativo para os seus alunos do zero no início da quarentena. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

A ideia era que o aluno conseguisse encontrar o que ele necessitasse com apenas alguns toques. “Meu foco desde o início era a equidade, era chegar nos alunos que tinham um celular antigo e não conseguiam acessar os conteúdos [por incompatibilidade entre aparelhos e apps]”, explica. Hoje o Android já está na décima versão, mas o aplicativo de Fabrício foi produzido para que smartphones com a versão do Android 4 pudessem acessar. Apesar do esforço e empenho do professor e da escola (que aderiu o app para todas as turmas), os obstáculos continuam. “Nosso desafio não é criar ferramentas digitais. Nosso maior desafio é buscar o aluno desmotivado”, afirma Fabrício.

As professoras Cleiziane Bispo da Silva, de Simões Filho (BA), e Lucenir Lucena Ferreira, de Boa Vista (RR), também seguem a rotina de manter os alunos motivados e presentes nas aulas pela plataforma do Google. “Eles são estudantes mais velhos, teriam uma independência maior, mas tem outras dificuldades que os afetam como a pobreza, falta de alimento, ausência de equipamentos necessários”, conta Cleiziane. A turma do 3º ano, segundo a professora da Bahia, está praticamente inativa nos grupos de WhatsApp ou na plataforma online.

Lucenir costuma chegar até 60% dos alunos nas atividades postadas no Classroom, mas não sabe se todos têm de fato entendido o conteúdo e realizado as tarefas. “Hoje, nas minhas aulas, procuro buscar conteúdos mais significativos e que vão fazer um diferencial na vida do meu aluno”, explica a educadora sobre alternativas que tem adquirido durante o ensino remoto.

Na região Sudeste, em São Paulo (SP), o professor de História José Guilherme tem tentado dar suporte para os seus alunos a distância. “Falo para eles assistirem as aulas do Centro de Mídias e depois faço uma live, uma vez por semana, para passar o conteúdo”, conta. O educador tem quatro salas, que somam cerca de 120 alunos. Já tiveram aulas em que menos da metade dos estudantes participaram.

Professor José Guilherme oferece uma aula ao vivo por semana para cada turma. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Para manter uma boa média de alunos engajados, José Guilherme conta que precisa correr atrás dos alunos toda semana. “Tem que encher o saco mesmo. Ligar toda semana, falar da aula, porque ou eles não se importam ou estão extremamente preocupados com o vestibular”.

Entre os desabafos, os professores também reclamam da falta de direcionamento por parte do Ministério da Educação (MEC) no período de aulas a distância. “Não temos um posicionamento efetivo e parece que eles estão empurrando com a barriga”, aponta a professora Lucenir.

Para Maria Julia Azevedo, gerente de implementação de projetos no Instituto Unibanco e mestre em Educação, a pandemia deixa nítida a importância de um caminho de aprimoramento da política de Educação. “A ausência de coordenação do MEC mostra pra gente que desenhar e fazer funcionar a Educação traz respostas mais coordenadas. Um sistema único de Educação ajudaria muito nesse momento”.

A preocupação com a evasão
“Muitos supermercados contrataram durante essa época de pandemia e muitos alunos já me disseram que estão trabalhando”, relata o professor José Guilherme. “Antes da pandemia, a evasão já era alta no 1º ano do Ensino Médio, mas depois disso, o problema será agravado, sem dúvidas”, pontua.

O educador enviou um formulário para entender porque os alunos não estavam participando das atividades. Entre os motivos apareceram fatores como cuidar do irmão mais novo, ajudar em casa e até o esquecimento de entrar na plataforma.

É comum a preocupação dos educadores em relação ao abandono dos estudantes pós-pandemia. Lucenir conta que não recebe notícias de dois alunos há dois meses. “Quando as aulas retornarem teremos um grande trabalho de buscá-los”, diz.

Evasão escolar é uma das principais preocupações do professor José Guilherme para os seus alunos do Ensino Médio. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

O professor Fabrício também entrou em contato com estudantes que disseram não participar das atividades remotas porque estão trabalhando. “No horário letivo? Perguntei pra eles e a resposta foi apenas um sim.”. 

Para Maria Julia, será preciso “insistir” de muitas formas para mostrar aos alunos a importância da Educação. “Precisa trabalhar na ação programática de busca ativa, mas acho que tem uma coisa de cada escola olhar para o conjunto de estudantes e realmente abrir um campo de acolhimento”, explica.

Além disso, Maria Julia afirma que é importante apostar em campanhas de comunicação. “É necessário mostrar que continuar com os estudos é extremamente importante”, explica. “O governo federal gastou dinheiro com a campanha do ENEM, dizendo que deveria acontecer na mesma data mesmo com a pandemia. Essa verba poderia ter sido gasta para mobilizar a sociedade em relação à evasão”, exemplifica a especialista.

Os dados do IBGE apontam que entre as causas de abandono da escola estão a necessidade de trabalhar (39,1%) e a falta de interesse (29,2%). Entre as mulheres, gravidez (23,8%) e tarefas domésticas (11,5%) são os principais motivos. “Nosso desafio é fazer com que eles acreditem que o processo de estudo é válido”, diz a professora Lucenir.

Dificuldades financeiras, faculdade depois
A procura por emprego tem raízes mais profundas do que a simples busca por uma independência. Grande parte dos alunos precisam trabalhar para garantir uma renda para suas famílias, principalmente aquelas que perderam seus empregos durante a pandemia.

“Eu não vou cobrar uma atividade, sabendo que meu aluno está passando necessidade. Vejo que no momento muitos jovens estão com necessidades mais urgentes do que sonhar com uma faculdade, por exemplo”, afirma a professora Cleiziane.

Fabrício tem tentado aos poucos trabalhar na escola sobre a questão cultural que a Educação vem primeiro. “O aluno que a gente trabalha é um aluno que aprendeu desde pequeno a importância de trabalhar. Ele não valoriza o ensino superior”, relata. “Nosso desafio, entre tantos, é mostrar que a Educação abre portas”.

Professor de Física, Fabrício tem auxiliado seus alunos com questões do ENEM em seu aplicativo e fomenta o desejo nos jovens pela universidade. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Como uma oportunidade a mais, São Paulo e Minas Gerais têm estudado a criação de um 4º ano do Ensino Médio opcional para aqueles que desejam se preparar melhor para o vestibular. “O filho de alguém da classe média mais alta quando termina os estudos, entra em um cursinho. No caso do estudante que não tem condições, que vai aumentar após a pandemia, como fica? Precisamos dar a oportunidade para ele também”, explica Rossieli.

Para a mestre em Educação, Maria Julia, é preciso pensar em políticas públicas para já. “A proposta do 4º ano tem muitas dependências, que, portanto, implicam que cada sujeito administre seu prejuízo. Cada estudante e cada família tem um campo de responsabilidade. Mas, do ponto de vista da política pública, acho que a gente precisava pensar em alternativas para agora”.

O desafio da transição do Fundamental 2 para o Ensino Médio
Além de todos os obstáculos, muitos professores precisam lidar com o desafio da transição dos alunos que acabaram de sair do 9º ano e entraram no 1º ano do Médio. “Uma das grandes diferenças é que no Fundamental você liga pra mãe, manda mensagem, mas agora [no Médio] não faz muito sentido”, explica o professor José Guilherme. 

Além disso, muitas escolas suspenderam as aulas presenciais um mês após o seu início em fevereiro. Logo, grande parte dos professores do 1º ano do Ensino Médio tiveram quase nenhum contato com suas turmas. “Isso faz com que a nossa relação com eles seja mais distante também”, explica a educadora Cleiziane.

Professor do Fundamental 2 também, José Guilherme relata que o Ensino Médio é ainda mais desafiador. Foto: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Essa transição também marca uma virada de etapa de vida. Os alunos são adolescentes, passam a perceber o mundo de forma diferente. “Trabalhar com o Ensino Médio é um grande desafio! Em uma única semana, recebi a mensagem de uma aluna que havia tentado suicídio, porque brigou com a mãe, e de um outro aluno me oferecendo droga”, conta o professor José Guilherme.

Lucenir conta que em alguns momentos sente que virou “psicóloga de mãe”, porque os alunos não atendem, não querem falar com ninguém.

Retorno das aulas presenciais
Para Cleiziane e José Guilherme, será necessário uma preparação para receber os alunos, que estarão com o estado de saúde mental abalado. “Não vai dar para chegar passando uma montanha de conteúdos. A Educação é uma máquina e quando ela para, a gente precisa girar a engrenagem aos poucos para ela voltar a girar”, diz o professor. 

Os danos da pandemia podem ser mais fortes para os alunos do Ensino Médio no retorno já que entendem melhor o que tem acontecido do lado de fora de suas casas. Segundo Maria Julia, há um efeito subjetivo do ponto de vista da sociabilidade, mas também um impacto objetivo do que já é possível ver de aprendizagem. “A pandemia dá nitidez para desigualdades que estão aí faz tempo, mas que ficaram mais visíveis para todos, não só para quem está dentro da Educação.” 

Com tantos desafios e preocupações, os professores focam para o retorno primeiramente no acolhimento. “Terei pouco tempo para me reaproximar. Não vou levantar temática irrelevantes, minha função pós-pandemia é fazer uma discussão sobre o futuro desses jovens”, explica Fabrício.

José Guilherme segue na mesma linha: “a gente precisa incentivá-los a sonhar, tem que falar das faculdades, mostrar o caminho e manter a esperança desses alunos”.

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