Conheça os vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2020

Cultura africana, protagonismo juvenil, democracia e literatura são alguns dos temas dos projetos da 23ª edição da premiação

POR:
Camila Cecílio
Cerimônia do Prêmio Educador Nota 10, em 2019. Crédito: Mariana Pekin/Nova Escola

A 23ª edição do Prêmio Educador Nota 10 já tem seus vencedores. Foram selecionados 10 projetos entre os 3.761 projetos inscritos. Neste ano, em decorrência da pandemia de covid-19, o prêmio recebeu iniciativas realizadas apenas em 2019, uma vez que a crise sanitária paralisou as aulas presenciais e prejudicou o desenvolvimento de muitos projetos, segundo a organização.

Entre os temas trabalhados pelos 10 vencedores desta edição, destacam-se identidade cultural, protagonismo juvenil, incentivo à leitura, democracia, inclusão, diversidade e gestão escolar.

O Prêmio Educador Nota 10 é uma iniciativa da Fundação Victor Civita (FVC) em parceria com a Fundação Roberto Marinho (FRM), com apoio da NOVA ESCOLA e patrocínio da Fundação Lemann (mantenedora de NOVA ESCOLA) e da Somos Educação. Os projetos inscritos são avaliados pela Academia de Selecionadores e Jurados, composta por especialistas em cada área do conhecimento.

Os 10 vencedores são premiados com uma assinatura digital de NOVA ESCOLA, diploma de participação e R$ 15 mil, enquanto as escolas recebem R$ 1 mil. O Educador do Ano, que será escolhido na premiação no dia 27 de setembro, é contemplado com um prêmio de R$ 15 mil e sua escola com R$ 5 mil. A cerimônia, em função dos riscos da covid-19, será virtual e poderá ser acompanhada pelo Youtube ou Facebook do Canal Futura. Conheça os 10 projetos premiados na edição 2020 do Educador Nota 10:

Parabéns aos professores vencedores! Crédito: Reprodução/Divulgação Prêmio Educador Nota 10

Lucia Cristina Cortez de Barros Santos, diretora da EM Prof. Waldir Garcia (Fundamental 1), em Manaus (AM). Projeto: Acolher para todos envolver e aprender. Na gestão da diretora Lucia, o princípio da inclusão é o que norteia todas as ações. A escola, que funciona em tempo integral, recebe alunos de todas as partes e condições sociais: haitianos, venezuelanos, estudantes com deficiência e em situação de risco. Para entender os alicerces da Educação Integral e construir uma gestão democrática na sua unidade, a educadora visitou escolas públicas inovadoras em São Paulo. Ao deixar para trás os moldes de uma gestão tradicional (leia mais aqui), ela conseguiu desburocratizar relações, estabelecer vínculos, engajar e dialogar com todos os atores da comunidade escolar. Para se ter ideia, a escola trocou as cadeiras individuais enfileiradas por mesas redondas e criou assembleias, em que os alunos são os protagonistas e tomam decisões. Além disso, cada estudante escolhe um tutor que vai acompanhá-lo até o final do 5º ano. Em uma parceria com a gestão, a Unidade Básica de Saúde acompanha a saúde dos alunos e uma Organização da Sociedade Civil apoia as tutorias e formações da equipe. As mudanças possibilitaram que a escola avançasse em avaliações internas e externas fazendo também uma revisão do processo de ensino, uma vez que o foco central é a aprendizagem.

Rita Marta Mozetti Silva, professora de Língua Portuguesa do 5º ano (Fundamental 1) da EE Adalgisa de São José Gualtiéri, em Franca (SP). Projeto: Projeto: Pé de livros entre amigos. Dom Quixote, Iracema, Os Três Mosqueteiros, Romeu e Julieta. Esses são alguns dos livros que andam permeando o universo dos alunos da professora Rita. A ideia do projeto surgiu durante uma sessão das terças-literárias (atividade de trocas de comentários, recomendações e retiradas de títulos para leitura individual) em que ela lia trechos de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Os alunos se interessaram pela história e o gosto pela leitura logo se espalhou. No projeto, as crianças produzem indicações de livros e resenhas em um processo cuidadoso que inclui etapas coletivas e revisões para aprimorar o texto. Com esse movimento, a escola ganhou uma árvore em que os livros são pendurados e ficam disponíveis para colegas de outros anos e visitantes de unidades próximas. Os encontros de leitura, às terças, contam com a participação das famílias dos alunos, que mantém um vlog literário (resenha literária em vídeo). Os  principais frutos do Pé de Livros são um projeto de leitura em voz alta nos recreios e em unidades escolares do entorno e um “pedágio literário”, local em que as crianças entregam livros arrecadados em doações.

Lidiane Pereira da Silva Lima, professora de Língua Portuguesa do 6º ao 9º ano (Fundamental 2), na EMEF Anna Silveira Pedreira, em São Paulo (SP). Projeto: Eu posso ser poeta! Apresentando de Castro Alves a um rap dos Racionais MCs, Lidiane fez com que os alunos de uma escola na periferia de São Paulo mudassem o olhar sobre a herança africana e o território que habitam. Para desconstruir o imaginário sobre a África, ela propunha a discussão sobre um tema e lia poemas e histórias de resistência do povo negro escravizado. Tudo isso traçando um paralelo com a identidade do negro do século 21. Os alunos se aproximaram da poesia e, depois de cada leitura, se expressavam com performances, declamações, danças, reflexões e outras formas de arte. Com isso, a professora decidiu convidar escritores e poetas negros, jovens e periféricos para compartilhar suas experiências com os estudantes. Logo os alunos se envolveram na organização do Sarau Heranças Afro, ocasião em que escreveram e reescreveram poemas, debateram traços de estilo dos diversos gêneros poéticos abordados em aula e refletiram sobre a variação linguística e sua conexão com a identidade e as relações de poder. O projeto cresceu e se transformou em um livro intitulado Eu também posso ser poeta!

Mirtes Ramos dos Santos Melo, professora de crianças bem pequenas (2 e 3 anos - Educação Infantil), na Creche Municipal João Eugênio, em Recife (PE). Projeto: Aprendizagens das crianças: maravilhamento e experiências. A professora Mirtes usou materiais simples do dia a dia para convidar as crianças a interagir e aprender. Papéis e caixas foram os primeiros elementos na sequência de atividades semanais planejada por ela. Depois, pendurou papéis higiênicos no teto da sala, o que deu início à brincadeira de puxar, pular e olhar para cima. Enquanto isso, alguns dos pequenos usavam o buraco do rolo de papelão do papel higiênico para observar os papéis caindo e outros se enrolavam noeles, se transformando numa espécie de esculturas vivas de papel. As vivências não pararam por aí. Mirtes também explorou panelas, copos, colheres de pau e bule para estimular batucadas. Ao ar livre, sugeriu aos alunos o uso de tampas que, apertadas, na areia, formam desenhos dos mais variados. Os pequenos também investigaram flores e frutas de uma árvore da creche, exploraram o corpo e o movimento correndo entre lençóis e brincando com bacias e sacos com água.

Camila Josefa Nunes Rossato, professora de Arte do 9º ano (Fundamental 2), na EMEF Profa. Marina Melander Coutinho, em São Paulo (SP). Projeto: Corpo performático: imagens e palavras. Três turmas de 9º ano se arriscaram em performances artísticas, esquetes, vídeos e sequências fotográficas para expressar ideias e criar uma sensibilização em torno de temas que consideravam importantes. Ao propor situações autônomas de aprendizagem, a professora Camila formou grupos para investigar a linguagem performática e desafiar o corpo como meio de expressão e pesquisa. Os alunos trabalharam com temas como depressão, racismo e saúde pública para embasar suas criações. O projeto se tornou um modelo de inclusão e respeito à diversidade, de modo que permitiu aos estudantes que fizessem suas próprias trajetórias no sentido de construir experiências estéticas e refletir sobre elas. Camila acompanhou todo o processo dando referências artísticas para seus alunos, conforme a necessidade de cada um.

Suzi Dornelas e Silva Rocha, professora de Educação Física do 5º ano (Fundamental 1), na EE Professor José Ranieri, em Bauru (SP). Projeto: Viajando pela cultura africana. A professora-pesquisadora Suzi fez seus alunos viajarem pela África por meio de jogos e brincadeiras originários daquele continente. Da sala de aula, a turma expandiu seus conhecimentos e vivências sobre a história e a cultura do povo africano e mais: passou a valorizar a identidade afro-brasileira. Ao longo do trabalho foram utilizadas múltiplas linguagens (corpo, oralidade, escrita e audiovisual) para descrever as ações dos alunos e da professora. As crianças criaram um caderno de registros, em que guardam, por exemplo, explicações sobre os jogos, desenhos e informações sobre os países. Suzi também registrou tudo em um diário de campo e documentou todo o processo em vídeo. O planejamento pedagógico da pesquisa tem 20 sequências didáticas sobre o tema. O trabalho culminou na realização do festival “Viajando pela cultura africana”, que contou com o envolvimento das famílias e da comunidade escolar. 

Luiz Felipe Lins, professor de Matemática do 7º ano (Fundamental 2), na EM Francis Hime, no Rio de Janeiro (RJ). Projeto: Geometria e construção. As moradias populares que começaram a ser construídas na região da escola inspiraram o professor Luiz Felipe a usar as construções para explorar com os alunos as unidades temáticas de geometria e números. Para desenvolver o projeto, a turma foi dividida em grupos e, em seguida, iniciaram tarefas como analisar uma planta baixa, idealizar uma casa e calcular áreas e o custo para colocar piso nos cômodos. Para calcular a quantidade necessária de argamassa por m² e fazer orçamentos, os alunos pesquisaram na internet, visitaram lojas de materiais de construção, conversaram com pedreiros, arquitetos e engenheiros e perceberam que existe muita matemática no cotidiano desses profissionais. Atento ao processo, o professor orientou a divisão de tarefas e as responsabilidades e valorizou a diversidade de habilidades de cada integrante. As discussões sobre dificuldades e busca de soluções aconteceram durante as aulas e, ao final do projeto, os alunos produziram planilhas e um vídeo para a apresentação final do estudo.

Diogo Jordão Silva, professor de Geografia do 2º ano (Ensino Médio), na CE Nelson Pereira Rebel, em Campos dos Goytacazes (RJ). Projeto: Nos trilhos da democracia. No Distrito Travessão, os jovens do 2º ano identificaram as carências estruturais e as demandas sociais da região para analisar as políticas públicas que faltavam e propor soluções. Assim, o professor Diogo ensinou para a turma que o sistema democrático é feito de sujeitos atuantes e não só de votantes. As pesquisas feitas pela internet, saídas de campo, documentários e debates permitiram aos estudantes conhecer mais sobre os direitos básicos garantidos pela Constituição Federal do Brasil, como saúde, Educação e transporte. A turma passou a entender o funcionamento do regime político brasileiro e suas tensões também por meio de leituras, produção de dados, discussões e atividades práticas. Com isso, compreenderam os princípios das reivindicações. Para apresentar para toda a escola os dados da pesquisa na comunidade, os alunos e Diogo criaram o evento “Café com Política”, que contou com a presença de uma vereadora. As reivindicações de autoria dos estudantes se desdobraram em audiência pública na Câmara Municipal. Posteriormente, as demandas de saúde pautadas pelo projeto foram atendidas.

Maria Isabel dos Santos Gonçalves, professora de Filosofia do 1º ao 3º ano (Ensino Médio), no colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal (BA). Projeto: As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos. Formar jovens conscientes de seus direitos, de sua cultura e identidade foi uma conquista importante do projeto realizado em um povoado em que 80% são negros. Até o início de 2019, nenhum trabalho abordava a cultura africana no local, o que levou a educadora a resgatar a memória afrodescendente para seus alunos. Essa iniciativa tem ligação direta com o campo do direito à memória, ao patrimônio, ao pertencimento à terra e à preservação de culturas. Por isso, ela trabalhou com as turmas pensamentos de Hannah Arendt (memória como um ato político) e de Bergson (memória como hábito e o instante marcante) e a Filosofia Ubuntu (o que vale é o nós, o coletivo, eu sou o que sou porque você também é). Com um roteiro de perguntas, os jovens entrevistaram seus avós, utilizando vídeos, escrita e fotos e constataram que os relatos eram retratos da resistência de seus ancestrais nas comunidades quilombolas. “As memórias são a expressão de um grito sufocado de toda uma vida de direitos negados”, diz a professora.

André Luís Miranda de Barcellos Coelho, professor de Física do 3ª ano (Ensino Médio), na escola SEB Dínatos, em Brasília (DF). Projeto: Óptica com Ciência. Investigação, análise e tratamento de dados, debate e sistematização. Essas foram as três etapas das sequências didáticas utilizadas pelo professor André Luís nesse trabalho cujo intuito era estimular os alunos às investigações científicas. Na primeira parte do trabalho, divididos em grupos, os alunos passaram por estações rotativas, em que cada uma delas havia um experimento a ser feito e investigado. Os estudantes anotavam observações, faziam interferências e produziam questionamentos. Em seguida, já na segunda etapa, os dados coletados eram compartilhados com o restante da turma e tratados como estatística para ajudá-los a formular conclusões. Na última etapa, a partir dos dados e observações dos alunos, o professor fazia mais perguntas e dialogava com a turma para debaterem as conclusões. Os ciclos foram repetidos para estudar conceitos da óptica quanto às características da luz e seu comportamento ao incidir em instrumentos como espelhos planos, esféricos e lentes. Em todas as etapas, os estudantes foram envolvidos de forma interativa, dinâmica e desafiadora.

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