No topo do mundo, um olhar para o futuro

Na cordilheira do Himalaia, crianças percorrem longas distâncias para ter aulas em inglês e de informática

POR:
NOVA ESCOLA, Caio Vilela
Na cordilheira do Himalaia, crianças percorrem longas distâncias para ter aulas em inglês e de Informática. Foto: Caio Vilela

Amanhece no vale do Khumbu, nordeste do Nepal. Dali se aprecia a silhueta de algumas das montanhas mais altas do mundo. Sentado sobre o terraço da Shree Himalaya Primary School, situada a 3,6 mil metros de altitude, no vilarejo de Namche Bazaar, o professor de Inglês Bikumar Bishkwarma enxerga um grupo de crianças caminhando e calcula que levarão mais 20 minutos para chegar. Demonstrando zelo com o mobiliário simples, ele termina de arrumar uma sala acompanhado dos professores de Matemática e Ciências.

Enquanto isso, o estudante Omraj Bishkwarma, 12 anos, percorre com os colegas a trilha de duas horas que faz todos os dias. Eles vêm de um vilarejo rural no fundo do vale, onde não há escola. Outros alunos também vencem trajetos semelhantes diariamente, mas no caso deles não é por falta de opção, e sim porque o ensino em inglês, oferecido nessa instituição desde 2005, e a qualidade de suas aulas são diferenciais para a região. "Buscamos formar jovens bem preparados e comunicativos. No futuro, essas crianças poderão conseguir bons empregos na capital, Katmandu, graças ao conhecimento dessa língua e de Informática", comenta Bikumar, também diretor e responsável pela decisão de dar ênfase a esses conteúdos. Alguns ex-alunos já vivem na capital, trabalham com turismo ou prosseguem os estudos.

A escola é mantida pelo governo, mas também recebe recursos da Himalayan Trust. A fundação, criada pelo neozelandês Edmund Hillary, o primeiro alpinista a alcançar o topo do Everest, mantém o laboratório de computadores conectado à internet banda larga. "Gosto bastante de ficar na sala de Informática e até ajudo os mais novos. Sou o aluno que mais passa tempo aqui", gaba-se Dorjee Dhamala, 10 anos. "Aprendo muito na internet e também na sala de aula."

Rotina combina tradições locais a disciplinas regulares

Diante das distâncias percorridas pela criançada, as atividades começam às 8h30. Na chegada, os estudantes uniformizados fazem juntos uma prece budista, cantam o hino nepalês e se aquecem com meia hora de exercícios físicos e alongamento. Depois vêm as aulas de disciplinas como Matemática, Inglês, Nepali e Artes. Ao assisti-las, os alunos sentam nas carteiras de madeira arrumadas por Bikumar, na sala cheia de cartazes e com o quadro à frente.

Para o almoço, os maiores trazem arroz com lentilha, receita comum na mesa de toda família nepalesa. Os pequenos recebem o mesmo prato das mães que moram próximo à escola ou são alimentados pelos funcionários. À tarde, as aulas são retomadas, com foco em esportes diversos, danças e músicas típicas.

Namche fica em uma inclinada escarpa rochosa. Ao fundo do vale, ergue-se imponente o monte Everest. A maioria da população é de origem tibetana, com exceção de integrantes de algumas castas hindus. O povo sherpa, famoso por sua intimidade com as montanhas, compõe o grupo mais presente na escola. Dos 136 estudantes, 80 são dessa etnia. Considerados os mais ambiciosos, eles sonham em trabalhar nas expedições anuais, ganhando bem por isso. E a fluência em inglês é essencial para tais planos.

A mensalidade varia de acordo com a situação da família. Os que têm melhor condição, como os sherpas, desembolsam 9 dólares. Os mais pobres não pagam. O professor Bikumar pertence a uma dessas castas baixas e carregou peso por 12 anos para custear os seus estudos. Mas, hoje, se orgulha do resultado. "Graças a nossa visão, voltada para o futuro, somos um modelo na região", diz.

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