Parceria das famílias nas aulas de Matemática

Vamos refletir e buscar caminhos para enfrentar esse grande desafio de envolver os responsáveis no processo de aprendizagem

POR:
Selene Coletti
Foto: Getty Image

Estabelecer uma boa parceria entre a escola e as famílias é um grande desafio para as equipes escolares em todos os tempos: antes, durante e será também após a pandemia.  

A escola sempre esperou que as famílias fossem parte do processo de ensino e aprendizagem e, atualmente, essa expectativa ficou ainda mais forte. Evidente que não se quer que as famílias sejam professores, mas se espera que elas se interessem por aquilo que os filhos estão aprendendo e possam garantir-lhes o direito da educação, ou seja, frequentar a escola.

Na semana passada, a professora Mara Mansani, colunista de NOVA ESCOLA, escreveu sobre como os educadores do ciclo de Alfabetização podem estreitar esse relacionamento. Confira mais aqui.

No atual momento, a frequência da escola está atrelada a realização das tarefas enviadas a distância, por meio de aulas remotas, banco de atividades, aulas por aplicativos, atividades impressas, aulas pela rádio comunitária (sim, uma iniciativa da cidade de Mulungu, no interior do Ceará, por exemplo). E é isso que é preciso ser garantido.

Os responsáveis pelas crianças precisam garantir que as atividades remotas cheguem até os alunos e que os mesmos as realizem em casa. É essa a expectativa que a escola tem em relação a participação dos pais nesse atual processo.

Vi uma pesquisa, por esses dias, mostrando que muitos alunos não estão devolvendo as atividades remotas. Chamou minha a atenção o dado do estado de São Paulo, onde vivo, cerca de 53%. É um índice muito elevado. Tal fato mostra que mais da metade dos nossos alunos não está tendo o seu direito à educação garantido.  Um efeito colateral dessa pandemia: aumentar as desigualdades educacionais.

Mas como mudar isso?
A pandemia não veio com manual de instruções de como agir nos seus diferentes momentos e para completar todos entramos nela na mesma situação: sem muito saber o que ou o como fazer. Cada um foi construindo, ou para se usar uma palavra mais atual, se reinventando para desempenhar melhor o seu papel.

A escola e os professores estão se tornando experts nesse quesito de reinvenção. Penso também que da mesma forma as famílias têm procurado fazer o mesmo.

No entanto, as famílias precisam de ajuda para entender esse papel, o de ser pai, mãe e também responsável pelo processo de aprendizagem de seu filho.  Estão acostumadas a ver somente os resultados da aprendizagem quando vão às reuniões de pais. Agora precisam reinventar-se, pois nesse momento elas estão fazendo parte do resultado ao garantir que suas crianças realizem as propostas e em muitos casos, ajudar a fazer (e acabam por fazer ao invés de ajudar, e não podemos culpá-las já que não têm o conhecimento para tal).

Essa ajuda precisa partir da escola – da equipe escolar -  por meio de um acolhimento dessas famílias. Acolher tem o sentido de “oferecer refúgio, proteção, amparo”. Esse acolher será feito estabelecendo-se uma boa comunicação. A conversa é sempre o melhor caminho, pois se aprende a ouvir o outro, a considerar o ponto de vista da família.

Se você e sua equipe escolar ainda não haviam pensado nesse acolher, dá tempo de rever e traçar novos percursos. Se você possui alunos que não estão entregando as atividades é hora de redirecionar as ações. É hora de sensibilizar as famílias mapeando os problemas, procurando descobrir as dificuldades para acessar a internet quando se optou pelas atividades via aplicativos ou redes sociais.

Se você optou por banco de atividades que os alunos fazem e depois entregam na escola e isso não está acontecendo é preciso procurar saber o porquê. Embora acredito que você já esteja fazendo isso, já que o professor nunca quer “perder” nenhum de seus alunos.

Enquanto escrevia esse texto, me lembrei de um filme antigo, aqueles da minha idade tenho certeza que já assistiram, inclusive na escola, “Nenhum a menos”. Não vou contá-lo aqui, mas é a luta de uma menina para manter todos os alunos até a volta do professor que precisou se ausentar, sem perder nenhum, diante das adversidades que enfrentava. É um lindo filme e que continua atual. Fica o convite!

Sugestões de como fazer
O caminho é o encontro com as famílias por meio de ligações telefônicas ou por meio de reuniões online, valorizando de uma forma ou de outra, a ideia de encontrar-se, de estar diante do outro para assim compreendê-lo, para poder entender o porquê de não estar garantindo o direito de seu filho fazer as lições. É nessa conversa, nesse ouvir, que você pode buscar as soluções. Se for o caso, criar um espaço para as famílias, mediadas por você,  professor e professora, trocarem as suas dores e buscarem as soluções, construindo com os pais como serem atuantes nesse mar turbulento.

É a oportunidade de trazer talvez aquele pai que nunca ia à escola ou quando ia era para reclamar de algo. Quem sabe, se ao ouvi-lo você não descobre o porquê disso? Já pensou que é a oportunidade única de mudar o seu olhar a respeito daquele pai?

É uma construção, na verdade, uma reconstrução das relações. Para isso, professor e professora, você precisa ser o parceiro mais experiente, precisa estar um passo à frente, para ajudar e não aumentar o muro de lamentações que pode vir a formar. Esteja aberto a ouvir os pais, sem pré-conceitos estabelecidos. Pesquise sobre as relações de parcerias entre a escola e as famílias. Aqui no site de NOVA ESCOLA há várias opções. 

Nessa conversa, você poderá reforçar o que já deve ter falado: a importância da rotina na vida das crianças nessa quarentena e para isso os pais precisam aprender a gerir o tempo. Será necessário ensiná-los a organizar a vida de trabalho e a vida escolar do(s) filho(s), o que a princípio é difícil.

Para entender a realidade das famílias nesse quesito é só olharmos para a nossa. Muitas vezes temos dificuldades em acompanhar nossos próprios filhos e o nosso trabalho, por exemplo, mas buscamos soluções. É essa ajuda que precisamos oferecer aos pais.

Se puder realizar as reuniões online, essas trocas serão bastantes valiosas para todos, pois ao conversar sobre as dificuldades, seguramente, vão aparecer soluções. A solução de uma família poderá ajudar a outra.

Reflexos nas atividades remotas de matemática
Certamente essa conversa subsidiará o seu planejamento de novas propostas envolvendo as famílias, que por sinal já tratamos disso nesse nosso espaço de diálogo quinzenal. Lembram da Matemática na vida real? Que tal revisitá-lo para pôr em prática?

Você poderá trazer os jogos, as receitas, o desenho, a observação do ambiente que os cerca, propor atividades mais práticas como ajudar os pais a arrumar a mesa, a organizar o quarto. Vários conceitos matemáticos estão em jogo, dependendo do foco que irá dar. Tem ainda as sugestões da participação das famílias em muitas adaptações de planos de aulas que também já conversamos aqui.

Aproveitar o cotidiano da casa e os materiais nela presentes para elaborar as propostas de matemática e das demais áreas, permitirá aos pais ou responsáveis se envolver e se encantar com as conquistas das crianças. A sua intenção, professor e professora, será fundamental.

Você estará promovendo possibilidades de criar vínculos tanto da sua parte com os pais, como, e sobretudo, deles com as crianças. Que oportunidade única para os aproximar por meio de um jogo ou uma brincadeira? Ou de um almoço carregado de “receitas” feito a quatro mãos? E de quebra estarão trabalhando uma porção de conceitos matemáticos!

Estamos num momento de flexibilidades e de muito apoio.  O teor das suas conversas irá mostrar o quanto de redirecionamento das propostas será preciso. Investir nesse aspecto permitirá encontrar as famílias para poder encontrar as crianças e reverter o quadro de não retorno das propostas de trabalho.

Arregaçar as mangas uma vez mais para envolver as famílias e juntos desenhar uma parceria de sucesso visando o bem maior de todos: a criança.

E então, vamos aceitar esse novo desafio?

Namastê! E até a próxima,
Selene

Selene Coletti é professora há 39 anos na rede pública. Atua na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada do município. Atualmente é formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba.

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