"Chegou o momento de exercitar as competências socioemocionais da BNCC"

Sempre com explicações simples e claras sobre o funcionamento do cérebro humano, a neurocientista e especialista em Psicopedagogia da Educação Marta Relvas defende que, para formar cérebros pensantes, é preciso perder o medo de usar e permitir o uso da tecnologia nas aulas

POR:
Soraia Yoshida
Marta Relvas é coordenadora do Programa de Pós-graduação de Neurociência Pedagógica na AVM Educacional e professora convidada no curso de Pós-Graduação de Neurociência do IPUB/UFRJ Crédito: Arquivo pessoal

Marta Relvas é professora e neurocientista e, tal como outros docentes, tem se deparado com as mesmas questões de outros milhares de docentes sobre como seguir lecionando durante o isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus. Como planejar uma boa aula? De que maneira equilibrar conteúdo e conversa para compreender as dificuldades e medos dos alunos? Ao mesmo tempo, ela está encantada com as possibilidades tecnológicas para continuar trabalhando de casa. Marta está desenvolvendo um projeto de neuroanatomia na Universidade Estácio de Sá, instituição onde leciona. "Como não é possível ir ao laboratório, estamos trabalhando com holografia. É incrível", diz ela, ao mesmo tempo que lamenta que a vivência esteja muito longe da experimentada por tantos professores e alunos da rede pública. 

Entusiasta das metodologias ativas, a docente alerta para não se confundir novas formas de ensinar com o uso básico de ferramentas digitais. "Por mais que antes falássemos em metodologia 4.0, ensino híbrido e novas metodologias, estávamos diante de uma realidade muito diferente da que vivida atualmente. O que está sendo feito agora não é metodologia 4.0 nem híbrida. É ensino remoto", diz. 

Pesquisadora na área de Neurociência Aplicada à Aprendizagem Cognitiva e Emocional no Desenvolvimento Humano, Marta é bióloga com mestrado e doutorado em Psicanálise pela Faculdade de Educação Teológica de São Paulo, PhD em Educação pela Emil Brunner World University (EBWU). Ela é membro da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento e autora de vários livros que tratam da neurociência e da Educação, dentre eles,

Neurociência na Prática Pedagógica - Que cérebro é esse que chegou à escola?, discutindo práticas pedagógicas que estejam mais alinhadas à maneira com que crianças e jovens aprendem. 

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida a NOVA ESCOLA. 

Quais os maiores impactos provocados pela pandemia do novo coronavírus na maneira de ensinar e de aprender?

O ensino remoto, em que compartilhamos saberes em uma sala de aula digital ao vivo, foi uma mudança muito grande para a maioria dos professores. Tenho recebido relatos que descrevem o que chamamos de burnout de tela, uma exaustão [pela longa exposição em frente ao computador ou ao celular]. Praticamente de um dia para o outro, os educadores tiveram de mudar seu processo de trabalho: passaram a gravar e transmitir aulas em plataformas digitais. E o que aconteceu com o cérebro de todos? Teve de se adaptar. O processo cognitivo, que ocorre no sistema nervoso central, tem de fazer uma nova plasticidade cerebral [a capacidade adaptativa do sistema nervoso central é a habilidade para modificar a organização estrutural e funcional em resposta aos estímulos ambientais], ou seja, o cérebro cria rotas alternativas. O ideal é que elas sejam feitas com base na melhor emoção possível, que é do prazer, da descoberta. Mas não foi isso que aconteceu. O cérebro de todos nós sofreu um susto emocional com a pandemia que não sabemos quando vai terminar. Estamos vivendo mais a emoção do medo e isso acaba por nos paralisar. 

Quais os riscos da associação do aprendizado com o medo ou com outros sentimentos negativos, no contexto de isolamento como o que estamos enfrentando?

Quando os estímulos não são favoráveis, a tendência do cérebro é bloquear o aprendizado. No momento que estamos vivendo, temos de respeitar eticamente quem está do outro lado da tela. Quando estamos em uma sala presencial, os alunos até podem escolher ficar na deles, mas não têm como se esconder. Agora, eles podem até estar presentes, mas podem desligar a câmera e o professor não vê o rosto deles. Nos relatos que chegam até mim, muitos estudantes dizem que preferem desligar a câmera: “Quando o professor diz ‘fulano, agora é com você’, tenho vontade de sumir". Neste caso, o estímulo que está sendo enviado ao cérebro do aluno é o medo de aparecer, de ser exposto em uma situação de vulnerabilidade. Ele não consegue nem falar. 

O que o professor pode fazer para ajudar os estudantes nesse caso?

Ele tem de propor atividades que demandem compartilhar, fazer com que a turma se sinta à vontade e entenda que a aula é um espaço de troca. Em situações de compartilhamento entre duas pessoas de uma experiência agradável ou interessante, a rota de produção cerebral é do neurotransmissor [espécie de mensageiros químicos que transportam, estimulam e equilibram os sinais entre os neurônios, ou células nervosas e outras células do corpo] dopamina, associada ao prazer, ao que é agradável . Não podemos fazer na sala virtual o mesmo que na presencial: ela tem de ser uma sala de aula de bate-papo, o professor precisa perguntar o que os alunos pensam sobre o assunto, convidá-los a participar. E investir na afetividade, pedir aos estudantes para ligar a câmera, dizer que está com saudades. 

Isso tem a ver com empatia e com tentar compreender o outro? 

Sim. Chegou o momento de exercitar as competências socioemocionais da BNCC [Base Nacional Comum Curricular], autoconhecimento, empatia, confiança e autoestima. Elas têm de deixar de ser encaradas como teóricas. Autoconhecimento é a relação intrapessoal do indivíduo, das habilidades e da inteligência com ele mesmo. Confiança é a relação que ele, por meio do seu próprio conhecimento e do autoconhecimento, desenvolve confiança no que está fazendo. A relação de confiança só se constrói por meio da empatia, ou seja, quando consigo me colocar no lugar do outro. E desenvolvemos a autoestima por meio da colaboração positiva. Em outras palavras, por meio dos elogios. 

Por estarmos distantes uns dos outros, estamos deixando de desenvolver alguma competência socioemocional?

O corpo humano aprende por meio de diversos estímulos sensoriais, não necessariamente só pelo toque. Se o educador consegue mostrar o que quer com seu tom de voz ou com o olhar diante da tela, também está enviando estímulos ao alunos e eles podem aprender. Se compartilha respeito e afetividade, os alunos percebem. Tenho notado que as pessoas nem sempre respeitam o espaço do outro na sala virtual. Então, o professor tem de cuidar de um processo de gerenciamento para pacificar a turma – seja porque a conexão da internet caiu ou porque um estudante não consegue ouvir o que um colega está dizendo. O cérebro humano não nasce com paciência. É uma questão cognitiva, aprendemos a ter paciência.

Na sala de aula virtual, o professor consegue ensinar resiliência aos alunos? É possível explicar para eles como lidar com frustrações ou o que resta a ser feito é ouvir o que eles têm a dizer?

Antes de qualquer cabedal de teorias, precisamos dar suporte emocional para eles. Temos de perguntar como têm passado, como estão vivenciando estes dias, e dar espaço para que façam perguntas. Estamos todos com medo. De pegar o novo coronavírus, do relacionamento com as pessoas, do que vai acontecer pós-pandemia. Para chegar ao que chamamos de maturação cerebral [modificações observadas no nível comportamental], em que alcançamos maturidade emocional, as conexões da área do córtex pré-frontal têm de estar fortalecidas por experiências, aprendizados e valores. Então, o profissional da Educação tem muita coisa para trabalhar no cérebro em formação da criança e do adolescente: como compreender e lidar com frustrações, perguntar o que e por que cada um está se sentindo e explicar que as frustrações e as negações têm uma razão: medo. E, então, trabalhar a paciência. 

O que o educador tem de fazer por si mesmo para dar conta de tudo o que se espera dele em tempos de aulas remotas? 

Ele tem de ser capaz de fazer uma autogestão emocional muito grande. Não está sendo fácil para ninguém e não é certo jogar tudo somente nos ombros dos educadores. Quais são as condições de trabalho dele? Muitos professores não passaram por um aprendizado prévio para dar aulas remotas. Todos precisamos exercer a escuta emocional e a empatia, e nos colocar no lugar do outro, inclusive para ouvir suas frustrações. Este é o momento de um grande abraço emocional entre professores, famílias, escolas. Todos junto, para não perdermos o fio da meada. 

E a respeito da prática pedagógica propriamente dita? O que é esperado? 

Nós, educadores, vamos ter de estudar muito. Eu, por exemplo, sou professora de neuroanatomia e, no momento, estou em treinamento online para acessar o laboratório holográfico da universidade onde leciono, que incorpora robótica e plataformas digitais. Mas esta não é a realidade do ensino público brasileiro. Temos uma dicotomia muito séria em relação aos recursos das universidades federais e privadas, por falta de políticas públicas sérias. Precisamos aparelhar toda a rede pública para poder pensar na possibilidade de usar novas tecnologias. A Educação 4.0 chegou em várias partes do mundo, mas aqui ainda estamos na 1.0 e na 2.0. Vejo professores repetindo os modelos da sala de aula de anos atrás, eles penduram um quadro na sala de casa e escrevem ali como se estivessem na aula presencial, a diferença é que estão diante do computador. Eles só estão trocando o espaço físico pelo virtual, continuam dando aula da mesma maneira. É preciso deixar muito claro que isso não é ensino 4.0. É preciso estudar e pesquisar para inovar. Tantos aplicativos legais e sites interessantes que podem ser usados… É preciso ser um grande fuçador para conhecer plataformas que oferecem possibilidades para tornar as aulas mais dinâmicas. 
 

Diante da necessidade de os professores construírem competências, habilidades e desenvolver a sensibilidade para entender a aprendizagem cognitiva e emocional no trabalho com os alunos, o que precisa mudar na formação docente para isso acontecer? 

Os educadores precisam ter uma formação real em tecnologias para saber como usar cada uma e entender para que elas servem, desenvolver seu lado pesquisador para compreender o que está sendo feito em outros países que está dando certo e o que não está funcionando. Precisam ter uma postura investigadora para incorporar práticas inovadoras. Eles não podem encarar a tecnologia como barreira. Ela não veio para ocupar o espaço do professor. Outra questão é que se pretendemos formar cérebros pensantes, temos de estudar o funcionamento cerebral humano, compreender como as habilidades são formadas, como estimular as inteligências e reconhecer as emoções para saber como lidar com as pessoas. E, se desejamos uma escola humanizadora, que faça o sujeito pensar, tem de haver também o resgate do lúdico, do corpo, do olhar, do respeito ao outro, da empatia. Os alunos têm de poder refletir diante da problematização. As crianças fazem isso muito bem. À medida que crescemos biologicamente, o cérebro tem o que chamamos de período crítico: nossas conexões biológicas vão se ajustando, ficamos mais criativos. Porém, a formatação curricular também vai ajustando e a escola atual não permite criatividade. O que acontece, então? O cérebro faz menos conexões neuronais. Ele copia e cola. Para que usamos o cérebro, então? Essa "máquina" tem de ser usada para que cada um possa, diante do uso de ferramentas digitais como Google Acadêmico, por exemplo, se tornar reflexivo. O aluno tem uma biblioteca diante da tela para pesquisar e depois descrever com as próprias palavras o que entendeu. Para isso, precisa ter o poder de argumentação e linguagem. Cabe ao educador elaborar as perguntas para que ele possa fazer pesquisas e citar de onde tirou a informação. 

É fato que o processo de passar para aulas online foi assimilado mais rapidamente pelos alunos porque foram adotadas ferramentas digitais já conhecidas por eles, como WhatsApp e Facebook. Apesar disso, a turma tende a associar esses recursos com entretenimento e não com os estudos e tem certa dificuldade para virar a chave. Como se explica isso?

É o que se chama flexibilidade cognitiva, o fato de eu entender que tal aplicativo, antes usado para jogar e falar com amigos, também é usado para o meu aprendizado. Mas acho que essa novidade tem mais a ver com os professores, porque os alunos já usavam esses aplicativos para fazer trabalho em grupo, mandar links para pesquisar, só não eram uma ferramenta escolar oficial. A questão que quero levantar é o que vai acontecer depois da retomada das aulas presenciais. O professor vai dizer que é proibido usar o WhatsApp? Por que antes podia e de repente não pode mais? O aplicativo é sim uma ferramenta de uso escolar para o professor enviar informação para a turma, trabalhar conteúdos ou responder dúvidas. 
 

A necessidade de flexibilizar a maneira de dar aulas provocada pela pandemia pode se tornar o novo normal da Educação? Teremos um ensino híbrido ou que combina o formato o presencial com as atividades em casa, já que dificilmente existirá uma volta às aulas com todas as turmas presentes ao mesmo tempo?

A combinação entre o remoto e o presencial pode ser uma opção. O ensino e a aprendizagem híbrida já existiam antes, quando o professor passava links para o aluno pesquisar em casa e depois discutir o tema em classe. Isso pode continuar e o professor passar a atender a turma com chamadas de vídeo. Mas acredito que a maioria dos professores escolheria a aula presencial, se pudesse. Eu faço parte desse grupo. A escola é um lugar bom de se estar, trocar experiências com outros professores, conversar com alunos no corredor. Isso está fazendo falta.

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