Por que devemos começar a discutir uma futura volta à escola na Educação Infantil

Embora o retorno não deva ser apressado, cabe a nós professores, profissionais da saúde e da assistência social pensarmos juntos em como viabilizá-lo quando chegar o momento

POR:
Evandro Tortora
Foto: Acervo pessoal/Evandro Tortora

Olá, colega professora ou professor! Primeiro, gostaria de dizer que você não vai encontrar nesse texto uma defesa sobre a necessidade de voltarmos às atividades presenciais na Educação Infantil o quanto antes. Pelo contrário! Este retorno não pode acontecer de forma aligeirada e deve ser pensado para um momento que haja segurança para adultos e crianças. Não vejo cenário para isso no momento, por isso digo que devemos ir com calma.

Começo meu texto desta forma porque algumas colegas têm evitado participar de um diálogo sobre o assunto, dizendo ser inviável pensar num retorno às atividades presenciais. Isso gera uma resistência para se discutir o assunto. Porém, cabe a nós, em conjunto com profissionais da saúde e assistência social, pensarmos na viabilidade desse retorno.

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alinhados à BNCC de Educação Infantil

Mas, por que devemos pensar hoje num retorno que nem sabemos quando acontecerá? Porque precisamos conversar e estabelecer demandas sobre assuntos que são propriedade na Educação Infantil. A saúde, por exemplo, entende bem das questões transmissivas do vírus e a assistência social sabe indicar formas de assistir as famílias mais necessitadas. Dentro do nosso ofício, entendemos bem que precisamos avaliar e replanejar diversos tempos e espaços que garantam os direitos fundamentais de crianças e dos adultos, bem como prezem pelas aprendizagens das crianças.

Pensem comigo: ao ouvirmos propostas de distanciamento social em ambientes educacionais, é possível pensar nesse distanciamento em uma turma de bebês ou até de crianças pequenas? Acho que você concorda comigo que não. Cabe a quem dar esses indicativos? A nós, profissionais que entendem de Educação Infantil. A seguir trago uma série de reflexões sobre as avaliações que tenho feito e sugiro replanejamentos necessários para garantir um retorno seguro às atividades presenciais.

Primeiramente, falemos de estrutura física das instituições de Educação Infantil. Vamos fazer um exercício juntos? Pense nos espaços físicos da sua instituição: nos locais onde vocês trocam os bebês, nos bebedouros, no espaço onde as crianças costumam fazer suas refeições, nas áreas onde os pequenos costumam brincar juntos, no banheiro das crianças e no dos adultos, no local onde há atendimento ao público externo, no parque de areia, na cozinha... Tenho quase certeza que, quando você pensou nesses espaços, pensou também nas condições de higiene e aglomerações de crianças e adultos que podem ocorrer nesses locais.

Antes da pandemia, muitos de nós já encontrávamos problemas com esses locais e que tinham relação com a higiene, falta de acessibilidade pelas crianças, segurança dos adultos e das crianças em sua utilização etc.  São problemas que já afetavam não só a vida das crianças, mas também os adultos envolvidos nos cuidados aos pequenos e que já passou da hora de serem resolvidos.

Docentes, diretores, profissionais da limpeza, zeladoria, cozinheiras, orientadores pedagógicos podem aproveitar este momento e se reunirem (por videoconferência) para discutirem o que precisam fazer para melhorar as condições físicas do prédio e, inclusive, aproveitar para discutir as possibilidades de ampliar a autonomia das crianças na utilização destes espaços. Neste período em que as crianças estão em suas casas, encontramos o melhor momento para planejar e executar estas reformas, estabelecer planos de alocação, recursos financeiros e levantar estes orçamentos. Possivelmente seremos os últimos a voltar às atividades presenciais, logo podemos pensar inclusive numa possível agenda para execução das obras antes do retorno das crianças (pensando na segurança dos trabalhadores envolvidos na obra).  

Ao retornarmos, fica claro que as condições de higiene local precisam ser avaliadas: há água e sabão sempre disponíveis para a lavagem das mãos? Como é feita a higiene dos ambientes dos brinquedos das crianças? Onde as crianças costumam beber água (canecas, garrafinhas, copos...) e como é feita a higiene destes objetos? As salas estão arejadas e tem um espaço amplo? Percebam que aqui não estou falando nem do uso de máscaras, por exemplo, que é uma demanda mais atual (e confesso que me incomoda muito), mas de outras situações que já precisavam de uma atenção especial por servirem de espaço para propagação de doenças. Tudo o que já pensávamos para higiene do ambiente, precisará de uma atenção mais especial ainda.

Sem falar de uma luta antiga dos professores e professoras de todas as etapas da Educação Básica: contar com um número limitado de crianças por turma. Se já não era possível concordar com uma sala abarrotada, agora será inviável. Eu, trabalhando com as crianças pequenas, tive turmas que chegavam a 35 matriculados com uma frequência de 30 crianças por dia. Outras colegas, em situação pior ainda chegavam a trabalhar com turmas de bebês com 35 matriculados. Como dar atenção individual que as crianças e bebês precisam e merecem nessas condições? Se já não tinha cabimento antes, no momento pós-pandemia será inviável!

Além das características do espaço físico, higiene e número de crianças, devemos refletir sobre como os pequenos serão recepcionados no seu retorno e pensar em contextos de acolhimento.  Muitas famílias perderam pessoas queridas e carregam consigo a dor de um luto vivido num contexto de pandemia. Outras tantas não vão querer colocar suas crianças em uma sala de Educação Infantil por medo de expor as crianças ao contágio. Haverá aquelas famílias que vão querer um retorno o mais breve possível, pois estão preocupadas com a ausência da Educação Infantil nesse período. Algumas vão querer recuperar o “tempo perdido na alfabetização” (palavras de familiares), ou vão estar preocupados com a socialização das crinas, ou ainda, com a necessidade trabalhar e não ter com quem deixar sua criança.

Estes são motivos que foram elencados em uma breve pesquisa que fiz com algumas famílias e todas estas ansiedades precisam ser ouvidas e planejadas num retorno futuro. Além disso, as famílias têm voz e precisam ser escutadas desde já para entenderem que estamos trabalhando pelo bem das crianças, inclusive neste período. Percebam que algumas destas preocupações já podem ser discutidas (como o caso do “tempo perdido na alfabetização”) porque envolvem, inclusive, uma série de ideias e concepções sobre a Educação Infantil.

Refletir sobre o retorno das crianças é também refletir sobre o não retorno das crianças! “Como assim, Evandro?”. Em linhas gerais, só poderemos regressar às atividades presenciais quando tivermos condições para tal, por isso, precisamos elencar as nossas necessidades para replanejar um retorno seguro às atividades presenciais. Já há vários movimentos que refletem sobre um retorno seguro às situações presenciais, como algumas lives que estão sendo transmitidas e se encontram disponíveis Youtube e Facebook, nas quais alguns educadores de renome no âmbito da Educação Infantil discutem o assunto.

Cito também um documento assinado por docentes que tenho muito apreço e que discutem em seus trabalhos temas de extrema relevância para a Educação infantil. Nele, os autores ressaltam a importância de discutirmos este assunto em uma abordagem intersetorial anterior ao retorno às atividades presenciais. Recomento fortemente sua leitura e compartilhamento, uma vez que buscar este tipo conhecimento sobre um retorno futuro é primordial!

Além de ouvir os especialistas, precisamos ouvir as famílias, como mencionei anteriormente, para nos ajudar a entender suas ansiedades e expectativas no retorno às escolas.

Além das famílias, ouçam as crianças! Tragam as memórias afetivas e criem canais de comunicação que possibilitem a eles se expressarem com você. Confesso que tenho me sensibilizado muito com meus pequenos que adoram compartilhar suas descobertas, surpresas e aprendizados comigo. Minhas crianças estão guardando os dentes de leite que caíram, fazendo desenhos para compor o mural da sala, construindo brinquedos com as famílias para presentear seus amigos, aprendendo a escrever o próprio nome etc. Tudo com muito ansiedade de compartilhar comigo e com os colegas! Na medida do possível e do seguro, planeje momentos para acolher todas os pequenos e todo esse carinho que eles têm por você.

Enfim, há outras tantas problemáticas que podem ser elencadas e que não temos respostas, mas acredito poderem ser discutidas ao longo desses diálogos para encontrarmos respostas. 

Confesso que uma Educação Infantil com crianças distantes, em que não há abraço, beijo, carinho, com máscaras cobrindo os rostos em um ambiente com cheiro de água sanitária me assusta e me entristece, mas não me ausenta de discutir tudo o que pode afetar meu trabalho com minhas crianças.   

Assim como todo mundo, espero que isso acabe logo! Saudades de tudo e de todos!

Um abraço carinhoso e até mais! 

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.