Toda a força do trabalho em equipe

Por um lado, pais e educadores batalham pelo ensino de qualidade. Por outro, alunos aprendem a lidar com o mercado. Saiba como o cooperativismo se manifesta no mundo da educação

POR:
Débora Didonê

Para 15 alunos de 6ª a 8ª série da Escola Estadual Abílio Manuel, de Bebedouro, no interior paulista, voltar das férias não significa apenas retomar os estudos. Há quase um ano eles participam do projeto "Amassar é: pôr a mão na massa" e gerenciam uma panificadora montada na unidade. A iniciativa é resultado da capacitação feita por quatro professores e seis alunos sobre como levar o cooperativismo para o ambiente escolar.


"Para colocar as idéias do curso em prática, tínhamos de pensar num projeto dentro dos princípios cooperativistas. Como já tínhamos um forno, sugerimos a panificação", conta a professora de Ciências Eunice Aparecida Fernandes. Hoje, os alunos produzem de 20 a 50 embalagens de pães, doces e roscas por semana; fazem sua venda na feira de domingo; contabilizam o lucro e controlam o estoque. Para onde vai esse dinheiro? Para a formatura da 8ª série.


"Enquanto os estudantes aprendem a tomar decisões, os professores descobrem que podem dividir responsabilidades com a turma, o que melhora muito a relação entre eles", avalia a educadora Ilana Seltzer Goldstein, do projeto Cooperjovem, que oferece treinamento gratuito às escolas públicas. Em Bebedouro, mais de 5 mil alunos e professores já foram capacitados. O próximo passo, segundo Ilana, é integrar mais os projetos às disciplinas em sala de aula. Afinal, quanta química, física e matemática não estão envolvidas, por exemplo, na produção de pães?


Mãos à horta!

Enquanto as crianças de Bebedouro iniciam a prática em projetos cooperativos, cerca de 3 mil alunos de 30 escolas técnicas agrícolas do país já integram cooperativas de verdade, participando de todas as etapas produtivas - desde a criação de animais e a plantação até a comercialização do produto final em feiras livres. Na Escola Técnica Agrícola Estadual Paulo Guerreiro Franco, em Vera Cruz (SP), mais de 150 alunos, de 15 a 18 anos, revertem a renda do trabalho para a manutenção da própria instituição. São eles que levam as refeições à mesa do internato onde moram, compram materiais e equipamentos agrícolas para os projetos e até utensílios de escritório para a secretaria da escola.


"No fim do mês, faço um balancete do que foi produzido, vendido e consumido", diz o aluno João Paulo Silva, 18 anos, presidente da cooperativa. Além disso, ele monta o cronograma do que vai ser plantado na horta, cuida do registro do gado e também da limpeza dos tanques onde vai funcionar, em breve, a piscicultura. Sem contar as criações de aves, porcos, abelhas... Tudo, é claro, feito em equipe, sob a orientação de professores e aplicando os conceitos vistos em sala de aula. "Antes, sem a cooperativa, os alunos participavam muito da produção e pouco do planejamento e da gestão. Agora, com a autonomia que ela proporciona, eles têm a oportunidade de se envolver mais", diz a educadora Eva Chow Belezia, responsável pelo projeto Cooperativa Escola, do Centro Paula Souza.


Pais e professores no comando

Se no projeto cooperativista das escolas estaduais e agrícolas os pais e professores são (importantíssimos) coadjuvantes, nas chamadas escolas cooperativas, eles assumem um papel central. Em busca de um ensino menos caro e com mais qualidade, montam sua própria instituição de ensino. Em conjunto, definem quem serão os professores, qual será o método de ensino, o melhor material de estudo para os alunos e ainda cuidam de toda a infra-estrutura da escola - da limpeza à lâmpada que deve ser apagada. "Isso pode significar um custo até 48% mais barato do que o de uma escola particular, já que a cooperativa não visa lucro", conta Maria Cristina Pompermayer, diretora da área educacional da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp).


Em Vargem Grande, interior paulista, 120 pais administram uma cooperativa educacional com 20 professores e 170 crianças, da Educação Infantil ao Ensino Médio. No lugar da mensalidade, pagam um rateio de 12 meses, que varia de 150 a 340 reais por aluno. E em vez de pagar matrícula, os cooperados arcam com uma única cota de 300 reais, devolvida se o aluno sai da escola. Também economizam no material, que nesse ano custou cerca de 80 reais por aluno (numa escola particular, chegaria, em média, a 300 reais). "Fizemos as compras na véspera do Natal, antes da alta", conta a professora Helena Keiko Ebina, coordenadora-geral da cooperativa. Além disso, os alunos reaproveitam livros. "Agora em 2006, vamos reutilizar os de Ciências e os de Geografia", diz Helena.


Em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre, 104 profissionais da educação cooperam para manter o Colégio Saint Germain, que tem 300 alunos - a partir dos 15 anos - no Ensino Fundamental e Médio e em cursos preparatórios e profissionalizantes. A escola existe há oito anos, quando os profissionais - oriundos de universidades e escolas públicas e particulares - se reuniram à procura de uma educação diferenciada. "Montando a nossa própria escola, poderíamos sair do lugar comum, do ensino preso a livros e apostilas. Nosso foco é agregar os alunos ao mundo do trabalho", conta a educadora Thânia de Paula Feijó, da Cooperativa de Educadores do Estado do Rio Grande do Sul (Coopeargs), mantenedora do Saint Germain. Internet e televisão são algumas das mídias que suscitam reflexões em sala de aula, por exemplo. Além disso, alunos já adultos que terminam o Ensino Fundamental ingressam nos cursos profissionalizantes da escola, como massoterapia, marketing e recreação infantil.


É preciso cooperar

Uma cooperativa só funciona com trabalho em equipe. Acompanhe algumas dicas de educadores que passam por essa experiência:


Não pense em montar uma cooperativa como empresa de fachada. Ela paga impostos, sim. A individualidade deve ficar na porta. Todos precisam trabalhar e recolher para o bem comum.
A equipe deve estar interessada em organizar mutirões e trabalhar voluntariamente pela escola. Afinal, ninguém é pago para administrá-la.
Ainda que não seja uma empresa, para administrar uma cooperativa, é preciso ter um olhar empresarial. Na cooperativa, o negócio é de todos. Se um professor não apaga a luz quando sai da sala, é ele, de certa forma, quem paga a conta.


Para cooperar na escola pública

Se você quer colocar projetos cooperativos educacionais em ação dentro da sua escola, o caminho mais indicado é procurar o apoio das cooperativas - de qualquer ramo - de sua própria cidade. Afinal, elas têm interesse em difundir o trabalho que realizam e podem investir na sua idéia. "As cooperativas já constituídas oferecem estrutura como salas e alimentação aos alunos interessados. Assim, divulgam os princípios do cooperativismo", diz a educadora Ilana, do Cooperjovem de São Paulo. Uma das saídas para escolas cuja cidade sede ainda não tem cooperativa é entrar em contato com as de cidades vizinhas. "A Cooperjovem dá a capacitação, mas o trabalho posterior depende muito de parceria", pondera Ilana.


Fique atento!

O governo paulista aprovou em janeiro uma lei que apóia o cooperativismo no estado. Ela reforça que, para entrar em vigor, as novas cooperativas precisam se registrar na Ocesp. Depois disso, podem contar com o poder executivo para conseguir um espaço físico. Nesse caso, recorre-se ao comodato - quando o estado empresta um imóvel à entidade por tempo determinado -, à alienação por venda - quando o estado vende um imóvel para a cooperativa por meio de licitação - ou à doação. As entidades também têm o direito de participar de licitações para prestação de serviços, promovidas pelo poder público.
 

Quer saber mais?

Portal do cooperativismo

Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)
Coordenadoria Institucional do Cooperjovem/SP: tel. (11) 5576-5966

 
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