Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Alfabetização e parceria com a família: como fazer em tempos de pandemia?

Incentivar a participação dos pais e responsáveis pode colaborar com a aprendizagem dos pequenos nesse período

POR:
Mara Mansani
Foto: Getty Image

Como professores, estamos vivendo tantas coisas inéditas e tão diferentes na educação nessa época de pandemia. E quantas coisas! Muitas delas, meses atrás, diríamos talvez ser impossíveis de acontecerem, mas agora elas vêm impactando nosso trabalho e até mesmo a nossa vida pessoal.

Em uma das redes que atuo como professora, a de Educação do Estado de São Paulo, venho participando de formações e outras reuniões pedagógicas, de alinhamento de ações com mais de 100 mil professores ao mesmo tempo, todos conectados! Incrível, não é mesmo? Quem diria que isso seria possível. A questão não é somente a quantidade de pessoas reunidas, mas a possibilidade da formação online.

Outro fato: formar professores para o uso de tecnologia como ferramenta de apoio e de desenvolvimento da aprendizagem, em tão pouco tempo, alguns meses apenas, também é impressionante. Muitas dessas formações são iniciativas dos próprios professores em compartilhamento de saberes.

Logicamente que com tanta desigualdade na Educação em nosso país, nem todos puderam ter acesso, mas a realidade nos mostra objetivamente que é possível fazer grandes ações pela Educação. Não só em momentos que pedem urgência como agora, mas sim de forma planejada e coordenada. Isso depende de políticas públicas de formação, de implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de investimentos (atenção ao FUNDEB) na Educação, entre tantas coisas.

Mas há algo que faz parte desse rol de “coisas difíceis” de acontecer, mas que vem acontecendo e que tem a ver com nossa ação direta como professores e que de certa forma também faz parte de algumas crenças.

O trabalho conjunto: família e professores
Muitas vezes não acreditamos no potencial dessa parceria e ficamos repetindo que isso não funciona, que as famílias não querem saber de nada, que não se preocupam com a aprendizagem dos filhos e por aí vai. Mas nesse período de estudo domiciliar, não só os professores estão mostrando seu valor, compromisso e engajamento pela aprendizagem das nossas crianças, jovens e adolescentes, as famílias também vêm dando o seu melhor, em um trabalho conjunto de se admirar.

Sei que não são todas, mas com certeza nunca houve um movimento tão grande e de tanto esforço e compromisso dessas famílias em nosso país. E olha que nunca estivemos tão juntos e presentes, família e professores, como agora em nosso distanciamento social.

Se estão acontecendo ações pela aprendizagem, se há continuidade de estudos, se nossos alunos continuam de alguma forma se desenvolvendo é porque a parceria de professores e famílias está acontecendo. Nem sempre fácil, mas ela vem surgindo e não podemos perder essa oportunidade de firmarmos nosso compromisso conjunto pela aprendizagem dos alunos.

Imaginem quando voltarmos, a importância da continuidade dessa parceria para darmos conta da aprendizagem de todos e ainda mais daqueles que não tiveram acesso a esse estudo por conta de tantas desigualdades socioeconômicas em nosso país.

Como podemos aproveitar essa parceria pela a alfabetização das nossas crianças?
Penso que primeiramente estabelecendo um diálogo franco e aberto com os pais e responsáveis pelas crianças, deixando claro os papéis de cada um, orientando-os no desenvolvimento de cada atividade, na continuidade dos estudos agora no contexto familiar, tendo paciência, respeito e muita boa vontade!

Na oralidade, leitura e escrita em casa, como os pais podem contribuir para a alfabetização?
Fazendo com suas crianças leituras diárias de livros, contando histórias, aproveitando todos os momentos possíveis em casa para usarem a escrita de forma significativa, criando momentos de escuta familiar, pesquisando com as crianças, conversando sobre temas de importância para eles... enfim, criando na rotina familiar espaço e tempo para que essas práticas se tornem hábitos. Mas isso não acontece do nada, precisamos planejar ações de apoio e orientação a essas famílias.

Muitas coisas que acreditamos como naturais ou que devem acontecer por sua importância e necessidades no desenvolvimento das nossas crianças e sua aprendizagem precisam de incentivo, motivação, orientação e até mesmo de instruções básicas. Muitos pais não têm consciência disso, justamente porque muitos deles não vivenciaram na infância, ou não tiveram acesso, um estudo de qualidade que os dessem essa luz, a clareza desse entendimento. Então, somos nós professores que podemos contribuir nesse processo de aprendizagem também dos pais e responsáveis.

Talvez vocês estejam pensando: “mas isso não é minha responsabilidade!”, mas dessa forma todos ganham, principalmente as crianças na aprendizagem e que com certeza refletirá no nosso trabalho como professores. Além disso, podemos fazer e contribuir também na construção de um mundo melhor, mais justo, ético e de colaboração de todos. Aliás, temos visto grandes exemplos nesse sentido!

Tenho vivido experiência maravilhosas, as vezes construídas com dificuldades, com as famílias de meus alunos. Até a reunião de pais e mestre virtual, por um aplicativo, foi bem bacana! Espero que vocês também tenham essa oportunidade como eu e muitos professores que conheço e venho conversando por todo o Brasil.

É hora de nos livrarmos de mais uma crença, desse mito, de que não é possível essa parceria. Se isso já vem acontecendo com você, querida professora e querido professor, conte aqui nos comentários, como tem vivido e o que tem feito para fortalecer e ampliar essa parceria.

Um grande abraço e estamos juntos!

Até a próxima,
Mara 

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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