O que considerar para projetar o retorno das crianças bem pequenas à escola

NOVA ESCOLA conversou com o professor Evandro Tortora e a consultora Ana Teresa Gavião para mapear os principais pontos de atenção

POR:
Miguel Martins
No retorno, é preciso ter atenção a aspectos socioemocionais das crianças. Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

A data do retorno ainda não está definida, mas o planejamento das autoridades para a volta à escola pós-quarentena já começou. A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) lançou, em 22 de junho, um documento para subsidiar a elaboração dos protocolos que serão adotados no regresso.

No caso da Educação Infantil, a Undime  sugere que as escolas da etapa organizem Comissões Escolares de Retorno às Aulas e recomenda diversas medidas sanitárias, como limpar e higienizar os espaços escolares, medir diariamente a temperatura das crianças e dar preferência a garrafas de água individuais em lugar de bebedouros. Além dos protocolos de saúde a serem adotados, as discussões pedagógicas também serão fundamentais. A orientação é  para que as comissões cuidem do acolhimento de crianças, famílias, educadores e profissionais da Educação.

No caso das crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses, conforme define a BNCC), a acolhida deve estar atenta a aspectos socioemocionais relacionados à faixa etária. Os pequenos estavam acostumados a um cotidiano de grande interação e contato físico com os colegas antes do isolamento social. Por isso, um dos maiores desafios do planejamento é preservar esse afeto com segurança para todos. Confira, abaixo, algumas das questões pedagógicas mais importantes para projetar o retorno.

Por onde começar o replanejamento para essa faixa etária?

Como sugere a Undime, o acolhimento precisa estar no centro dos esforços dos professores na volta à escola. "A primeira coisa a se pensar é no lado humano de tudo o que vivemos", ressalta Evandro Tortora, professor de Educação Infantil da rede municipal de Campinas (SP) e integrante e colunista de NOVA ESCOLA. Evandro lembra que o acolhimento também deve incluir os responsáveis. "Muitos podem não querer que a criança volte por medo. Temos de mostrar que estamos pensando num retorno muito seguro."

Ana Teresa Gavião, doutora em Educação e Psicologia, especialista dos Planos de Atividade de NOVA ESCOLA e consultora desta caixa, lembra que as crianças nessa faixa etária estavam acostumadas a um dia a dia de muita interação, que foi interrompido de forma abrupta pela pandemia. Ana Teresa recomenda que a escola acompanhe, na medida do possível, as conquistas da criança no isolamento social: "Se ela descobriu um brinquedo em casa, deve levá-lo à escola. Se conheceu uma história em casa, ela deve ser lida na volta”.

Como avaliar o desenvolvimento das crianças após o isolamento social?

No retorno, duas perguntas serão importantes, segundo Ana Teresa: "Quais foram as conquistas das crianças em casa?" e "Qual a expectativa da família em relação à aprendizagem?" Na hora de fazer um diagnóstico, ela recomenda focar em questões socioemocionais - como o estado de ânimo das crianças após o período de isolamento e sua relação com os adultos de casa, os coleguinhas e os professores - e menos em objetivos de desenvolvimento e aprendizagens específicos. "O professor tem de ativar a escuta e se mostrar disponível às crianças."

Como a comunicação com as famílias pode ser mantida e aprimorada?

O período de isolamento social criou uma dinâmica de interações a distância com muitas famílias, mas nem todas tiveram condições de construir essa relação. Nos primeiros dias de volta, Evandro considera fundamental que os adultos estejam presentes. "É preciso identificar as famílias mais inseguras e chamá-las para perto neste momento." Ele sugere também manter ao máximo o contato construído no período de isolamento social por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem, como o WhatsApp.

Ana Teresa recomenda, ainda, manter uma rotina de telefonemas com as famílias que não tenham acesso a esse tipo de tecnologia. “Podemos, por exemplo, contar nos fins de semana para as famílias como foi a volta, o que a criança gostou de fazer, com quem ela interagiu. E a conversa pode até terminar com a pergunta: “E o fim de semana, como vai ser?”

Como o gestor pode preparar a equipe para o retorno? 

A Undime sugere que as escolas e centros de Educação Infantil criem comissões para pensar o retorno. Para Ana Teresa, os educadores e profissionais não apenas têm de planejar o acolhimento das crianças, mas de todos aqueles que trabalham na escola.

"É preciso saber quais são aqueles professores que estão com receio de voltar e quais estão em grupo de risco. Conversar sobre esses medos e anseios é importante para garantir uma rota de aproximação." Além disso, ela lembra que cada creche precisará se adaptar de formas diferente. "Há escolas com espaços mais abertos que podem receber mais crianças ao mesmo tempo, por exemplo."

Evandro diz que, além das reuniões semanais com educadores para planejar o retorno, é importante que os educadores possam ir às escolas antes da volta. "É interessante que os professores tenham um tempo sozinhos ou em grupos menores para organizar o espaço da sala e planejar suas interações."

Como agir diante de protocolos de saúde que devem impedir maior interação entre as crianças?

Embora a Undime já tenha indicado alguns protocolos sanitários, ainda há muitas dúvidas sobre quantas crianças poderão ser reunidas ao mesmo tempo. Mas uma coisa é certa: várias atividades normais no ambiente escolar precisarão ser repensadas para garantir a segurança de todos.

Evandro lembra que muitas crianças nessa faixa etária ainda levam constantemente objetos à boca e chupam o dedo. “Precisamos ajudá-las para que substituam esse hábito. Pode ser um brinquedo que elas abracem, por exemplo.”

Ana Teresa lembra que o abraço tem papel fundamental na Educação Infantil. “É importante conversar sobre lavar as mãos e não levar objetos à boca, mas temos de tomar cuidado para não trazer um clima de tensão para a escola”, pondera. “Se as crianças se abraçarem, por exemplo, é importante conversar depois com calma sobre os riscos ou propor uma brincadeira de abraços a distância. Não se pode simplesmente reprimir.”

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