“Professora sim, tia não”: o contexto da pandemia e o papel dos docentes na Educação Infantil

A diferença entre ser “tio” e ser “professor” fica ainda mais evidente na situação atual, quando se percebe a importância da escola no desenvolvimento das crianças

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Evandro Tortora
O professor Evandro Tortora com uma de suas turmas. Foto: Acervo Pessoal/Evandro Tortora

Ser professora ou professor nunca foi uma tarefa fácil e, nesses temos de pandemia, essas dificuldades têm ficado ainda mais evidentes. Atuar como docente envolve comprometimento com a educação de crianças que iniciam o ano como desconhecidas, mas que ao longo do tempo nos despertam tantos afetos!

Talvez seja por conta desse sentimento de carinho que ainda temos muitas situações nas quais professoras são chamadas de “tia” no exercício de sua profissão e não se incomodam com isso. Para alguns, pode parecer arrogante abandonar o termo “tia” e querer ser chamada de professora de bebês ou crianças pequenas. Neste texto, gostaria de apontar que estamos num tempo muito propício para reforçar que nós estamos longe de sermos “tios” ou “tias” perante a sociedade.

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Com as instituições de Educação Infantil fechadas, o MEC aprovou Parecer nº 5/2020 em que dá orientações para que busquemos ações de aproximação com as famílias: “Neste sentido, quando possível, é importante que as escolas busquem uma aproximação virtual dos professores com as famílias, de modo a estreitar vínculos e melhor orientar os pais ou responsáveis na realização destas atividades com as crianças”.

Em contato com as famílias, temos desenvolvido ações que indiquem às famílias vivências capazes de auxiliar no desenvolvimento das crianças. Contudo, não temos a intenção de transformar pais, mães, avós, tias, tios ou qualquer adulto que cuide das crianças em professores. Neste ponto, volto à situação que abriu esse texto: se familiares não são professores e professoras, porque nós poderíamos ser chamados de tios e tias no exercício da docência?

Obviamente não conseguiria responder por todos os colegas que se permitem serem chamadas de “tias” ou “tios”, mas consigo compartilhar um pouco das percepções das colegas com quem trabalhei. Algumas não viam problema nessa situação, pois não haveria relevância em ser chamada de tia e desempenhar a função de professora. Somando-se a estas professoras, tive colegas que se sentiam intimidadas por conta da prática de ser chamada de “tia” já se estender há muito tempo em seu local de trabalho. Caso você se identifique com esses casos, compartilho contigo um pouco da minha vivência com situações parecidas.

Ao iniciar meu trabalho, assim como outras tantas colegas, fui sendo chamado de tio. Naquele tempo eu era monitor de creche e não tínhamos docentes para bebês e crianças bem pequenas. Na época, cursava pedagogia e ser chamado de tio já me incomodava. Eu ainda não era professor para ser chamado como tal, mas eu tinha um nome do qual tenho muito orgulho. Logo, conversei com as famílias das crianças pedindo para não me chamarem de tio e pedi às crianças que me chamassem de Evandro.

No começo foi difícil, principalmente por ter sido o único adulto envolvido nessa inciativa. Minha principal dificuldade foi com os adultos que não viam importância nesse ato, pois com as crianças (carinhosas e inteligentes como são) acabou sendo um processo mais tranquilo! Eu conversava com elas dizendo não gostar de ser chamado de “tio”, que aquilo me incomodava e que preferiria ser chamado de Evandro. Elas logo entenderam e me chamavam de “Ervando”, “Evando”, “Elando”... Era quase um trava-língua! Que lindos! A meu pedido, estavam se esforçando para me chamar pelo meu nome, o que era tão importante para mim smile

Com o tempo, o “tio Evandro” já não existia mais e entrou em cena o “Evandro”, que amava, cuidava e educava as crianças dentro da sua profissão.

Um tempo depois, como professor já formado, surge o mesmo dilema em outro local de trabalho. Logo no meu primeiro dia com as crianças, fui franco com elas. Disse que tinha um nome e que poderiam me chamar de Evandro ou de professor. Nesse caso, foi ainda mais fácil! Poucas vezes fui chamado de tio pelos pequenos e quando isso acontecida, as próprias crianças tomavam a iniciativa e conversam com os colegas. Houve uma vez que recebemos um outro adulto na minha sala para conversar com as crianças, o qual, ao término de sua fala, disse aos pequenos: “vou deixar aqui com o tio uma lembrancinha para vocês”. Ele foi quase que automaticamente interrompido por uma criança: “Ele não gosta de ser chamado de tio. Ele tem nome. Chama ele de Evandro ou de professor”. <3

Esse relato é apenas para lhes dizer que não é uma prática impossível. Além disso, reforço não se tratar de mudar apenas o nome, mas de uma concepção que afeta inclusive suas relações com as famílias. Ao final de 2018, quando tive que dar maior atenção a uma criança que passava por um problema difícil, sua mãe foi muito grata a minha atuação e presenteou com as seguintes palavras escritas em um bilhetinho acompanhado de um bombom:

“Obrigado por cuidar do meu filho, dar seu melhor e ter tanto carinho e atenção pela educação dele... Obrigado por não ser o 'TIO', mas por ser o 'PROFESSOR' dele!"

Acho que ficou claro para essa mãe os motivos pelos quais eu pedi para ser chamado de professor. Eu não era tio do filho dela, tinha uma relação profissional para a qual tenho formação e me comprometi em contribuir com a educação do filho dela.

Discordando do senso comum, digo que ser professor não é um dom. É um ofício que exige amor, carinho, comprometimento, formação, prática, estudo etc. São tantas outras exigências que não esperamos de tios e tias.  Nós planejamos contextos educativos, acompanhamos o desenvolvimento de propostas com um olhar pedagógico, partilhamos avaliações e reflexões, não só sobre o desenvolvimento de nossas atividades com as crianças, mas sobre a situação da instituição educacional em que trabalhamos.

Não há como tocar nesse assunto sem nos remetermos ao texto de Paulo Freire “Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar”.  Ele nos convida a pensar sobre o assunto:

“A professora pode ter sobrinhos e por isso é tia da mesma forma que qualquer tia pode ensinar, pode ser professora, por isso, trabalhar com alunos. Isto não significa, porém, que a tarefa de ensinar transforme a professora em tia de seus alunos da mesma forma como uma tia qualquer não se converte em professora de seus sobrinhos só por ser tia deles. Ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão enquanto não se é tia por profissão. Se pode ser tio ou tia geograficamente ou afetivamente distante dos sobrinhos, mas não se pode ser autenticamente professora, mesmo num trabalho a longa distância, ‘longe’ dos alunos.”

Tios e tias não lutam por melhores condições de trabalho, por uma Educação de qualidade às crianças, por um salário digno, por respeito do poder público e reconhecimento profissional. Perceba que ser chamado de professor ou professora envolve uma postura perante a sociedade, logo não podemos nos permitir ser confundidos com parentes das crianças. De forma alguma estamos menosprezando as famílias dos pequenos, mas sim colocando a necessidade de diferenciarmos as especificidades da família e da instituição de Educação Infantil, as quais em conjunto agem em complementariedade na Educação das crianças.

Acho que essa diferença entre ser “tio” e ser “professor” fica ainda mais evidente na situação atual em que percebemos o quanto as interações e a brincadeira dentro das instituições de Educação Infantil fazem diferença para o desenvolvimento das crianças. A ausência destas oportunidades na escola torna evidente o quanto o trabalho docente é necessário e diferente da educação familiar.   

Enfim, se ainda assim você não enxergar problemas em ser chamada de tia sendo professora, finalizo com mais uma citação de Freire:

“[...] você que está me lendo agora, tem todo o direito de, sendo ou pretendendo ser professora, querer ser chamada de tia ou continuar a ser.

Não pode, porém, é desconhecer as implicações escondidas na manha ideológica que envolve a redução da condição de professora à de tia.”

O 'tio' que habita em mim serve para meu sobrinho, Carlos André, o meu amor incondicional e infinito! Para minhas crianças, também ofereço meu amor junto do meu preparo acadêmico e compromisso político e pedagógico com a educação. smile

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.