Crianças e famílias mais vulneráveis, uma preocupação durante e após a pandemia

Como a Educação Infantil pode se envolver em um compromisso que envolve alimentação adequada, atenção às desigualdades sociais e construção da cidadania

POR:
Evandro Tortora
Distribuição de merendas em Manaus em meio à pandemia. Foto:  Altemar Alcantara/Secom

O contexto de pandemia é realmente algo novo e que nos tem proposto uma série de desafios e reflexões. No que tange à Educação Infantil, tem sido um desafio entender um pouco mais da realidade que as famílias de nossas crianças estão enfrentando durante esse momento de crise. Por meio deste contato, tenho conhecido algumas dificuldades que assolam não somente as famílias das minhas crianças, mas também outras tantas pessoas pelo Brasil.

São problemas relacionados ao desemprego, acesso à alimentação de qualidade, saúde, etc. Mas será que antes da pandemia estávamos numa situação ideal? Todas as crianças brasileiras e suas famílias viviam em condições de vida ideais com acesso à saúde, saneamento básico e alimentação de qualidade, etc? Sabemos que não.

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Na verdade, a pandemia tem colocado todas essas necessidades às vistas de todos. São problemas antigos, mas que se agravaram com crise. Muitos de nós têm se deparado com histórias que revelam (ou escancaram) as dificuldades econômicas e situações de exclusão enfrentadas por muitos dos familiares dos nossos pequenos. São famílias que há poucos meses eram invisíveis para muitos, incluindo aos olhos do próprio governo. Isso ficou claro quando se descobriu que 46 milhões de brasileiros não estavam contabilizados nas contas do governo para receber o auxílio emergencial, ajuda capaz de garantir em muitos casos a  sobrevivência destas pessoas.

O que professores e professoras como nós sabemos é que, apesar de invisíveis aos olhos de muitos, essas famílias vulneráveis sempre se fizeram presentes em nossas turmas de Educação Infantil. Em todas as escolas que trabalhei, era comum que equipes de professores, limpeza, zeladoria, equipe gestora, etc. se juntassem para fornecer algum auxílio a famílias necessitadas, como por meio da doação de alimentos, roupas etc. Mas, na situação atual, estamos precisando de mais do que a generosidade dos meus colegas de trabalho.

Nos primeiros dias letivos, procuro saber como se dá a condição de vida das minhas crianças. Para isso, marco alguns horários com as famílias e realizo algumas entrevistas. Isso me ajuda a conhecer um pouco do contexto familiar e atuar na Educação das crianças em complemento à educação familiar. Confesso que ter esses dados tem me ajudado a direcionar alguns esforços para ajudar essas famílias! O atendimento às crianças se encerrou antes de conseguir ouvir a todas as famílias, mas não deixei de atendê-las, mesmo a distância.

Ao ouvi-las, tenho me deparado com casos complicados e que, sem o auxílio de órgãos públicos, teriam dificuldades maiores do que as enfrentadas habitualmente. Por exemplo, algumas famílias vivem da coleta de recicláveis e agora estão preocupadas com a diminuição do volume de materiais descartados e, consequentemente, com a falta de dinheiro. Mas, o que mais me preocupava nessas famílias era o medo de ficarem doentes ou levarem o vírus para dentro de suas casas ao entrar em contato com materiais descartados por outros. Outras famílias, cujos pais, mães ou avós trabalham no comércio local, se viram com problemas por estarem sendo demitidos ou terem cortes em sua renda. A preocupação com a falta do que comer começou a surgir.

Logicamente que essas famílias precisam de ajuda e, pensando num contexto pós-pandemia, diria que se trata de uma ajuda com frutos a serem colhidos a curto, médio e longo prazo.

A curto prazo, temos que nos preocupar com o básico como, por exemplo, ter o que comer. Não estou dizendo apenas que as crianças precisam ter algo para comer, mas sim que elas precisam ter uma alimentação adequada. Não se trata de apenar “encher o estomago” de alguém, mas, conhecendo as necessidades nutricionais das crianças, dar condições para elas terem refeições equilibradas e esse direito respeitado.

Essa já era uma preocupação anterior à pandemia, não é mesmo? Estamos sempre de olho na qualidade da merenda e exigindo alimentos de qualidade para os pequenos para que desenvolvam hábitos alimentares adequados, tenham acesso aos melhores alimentos para o desenvolvimento de suas funções cognitivas, motoras, etc. Sem falar a preocupação com a alimentação como um fazer cultural no qual conversamos, interagimos e sentimos prazer com nossos colegas!

Essas são preocupações nossas, dos profissionais da Educação Infantil, e devem ser também das famílias. Nesse sentido, é importante manter esse tipo de diálogo com os responsáveis pelos pequenos compartilhando um pouco dos nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil. Afinal, não podemos avaliar os hábitos alimentares das crianças em suas casas, mas isso não precisa significar que estarmos totalmente desligados da realidade das crianças. A meu ver, precisamos ajudar no que pudermos e compartilhar nossa preocupação com as crianças. Isso mostra que, mesmo distantes fisicamente, estamos tentando nos manter próximos.

De nada adiantaria conversar sobre esses assuntos com as famílias, sem que elas tenham alimentos em sua casa. Recentemente, a Prefeitura tem disponibilizado cestas básicas às famílias que tem ajudado muitos dos meus pequenos nesses temos difíceis. Sem contar o auxílio emergencial, que além de um direito das famílias, a meu ver, é um dever do Estado.

A médio prazo, dentre as varias dificuldades a serem enfrentadas, vejo a necessidade de garantir espaços de aprendizagem no contexto familiar. Nesse momento, é importante que as famílias tenham em mente a importância de proporcionar diferentes formas de brincar às crianças, visto que esta é uma das principais atividades das crianças.

Sabemos que as crianças não precisam de muito para brincar, não é? Basta ter alguns potinhos na areia que elas inventam várias brincadeiras! As famílias das minhas crianças têm sido muito criativas, construindo pistas de corrida com caixas de papelão, brincando de amarelinha, fazendo massinha caseira. É importante estimular essas brincadeiras conscientizando as famílias que é possível se divertir e garantir aprendizagens inclusive estando em casa. Tenho incentivado que constantemente enriqueçam essas brincadeiras e compartilhem comigo fotos desses momentos. Isso inspira e dá ideias às demais famílias da minha turma.

Não estou tentando aqui dizer às famílias que eles precisam planejar cada espaço de brincadeira para ensinar, por exemplo, letras ou números, mas sim conscientizá-los de que, nessa etapa da vida das crianças, quanto mais ricas e diversas as possibilidades de brincadeiras, mais aprendizagens virão! Desenvolver a linguagem oral, imaginação, coordenação motora, aspectos afetivos, etc., são alguns dos tantos benefícios das brincadeiras que tenho sugerido às famílias da minha turma.

A longo prazo, precisamos dar a essas famílias condições de ascensão social. Sabemos que manter um ambiente familiar que se preocupe com o desenvolvimento das atividades escolares é essencial. Como já puderam perceber, algumas das minhas crianças não nasceram em um ambiente privilegiado, algo que talvez venha sendo perpetuado ao longo de gerações anteriores. Não estaria na hora de garantir políticas públicas que possibilitem o acesso a uma qualidade melhor de vida? Acredito que já passou da hora!

Mas como professores de Educação Infantil podem se envolver nesse tipo de compromisso? De fato, sozinhos não podemos elevar as condições de vida das crianças, mas podemos fazer muito. Há uma fala memorável de Paulo Freire que é perfeitamente cabível nessa reflexão “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Ficou claro que é preciso mudar a forma como essas pessoas enxergam sua situação e saber cobrar do poder público uma Educação de qualidade, saneamento básico, políticas de incentivo à criação de empregos, entre outras reivindicações que são obrigações do poder público. A instituição de Educação Infantil precisa criar ambientes em que essas famílias possam viver a democracia e, desta forma, exercitar seu direito de ser cidadão. Isso se estende para além dos muros da escola. Famílias e educadores precisam saber exigir o que é seu por direito: qualidade de vida.

Enfim, acredito que estas considerações não são apenas minhas, mas de outros tantos professores brasileiros. São preocupações que sempre vem à tona com relação a problemas bastante conhecidos, mas que com o contexto da pandemia se tornaram ainda mais evidentes.

Se você se sente incomodado com tudo isso, é logicamente devido a sua humanidade. Não podemos nos deparar com famílias preocupadas em passar fome e achar que isso é normal ou que sempre isso irá acontecer. O que estou tentando expor é que não podemos naturalizar a fome em pleno século 21. Ter alimentação de qualidade já deveria ser condição natural de todo ser humano.

Espero que, no contexto pós pandemia, possamos lembrar de todas essas reflexões e que, de alguma forma, possamos tocar as famílias sobre a importância de entenderem sua situação atual e exigirem melhores condições de vida, afinal, isso é parte do exercício da cidadania.

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.