Como trabalhar com a Educação empreendedora no Ensino Fundamental II

É hora de ajudar a turma a pensar criticamente, ganhar voz e mudar a escola, o entorno e o mundo

POR:
Anna Rachel Ferreira
Ilustração: André Asahida

Quando chegam ao 6º ano, os estudantes começam a adentrar uma fase da vida em que a necessidade de se conhecer melhor e se autoafirmar é intensa. Para contribuir com o desenvolvimento deles e, ao mesmo tempo, valer-se do interesse de serem proativos e de conquistar mais autonomia, uma excelente pedida é planejar atividades e projetos na perspectiva da Educação Empreendedora. “A classe já consegue enxergar as situações-problema com mais facilidade, tem desenvoltura para discutir com os colegas e um bom repertório de fontes para realizar pesquisas, pensar em soluções para desafios”, diz Ariane Previde, professora-autora de NOVA ESCOLA.

Outra forte característica dos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental é que eles têm mais condições de entender como e por que interferir em questões da comunidade escolar. E isso dialoga diretamente com as premissas da Educação Empreendedora. Por isso, explorar o pensamento crítico e criativo deles e a capacidade de argumentar e de trabalhar em grupo é um prato cheio para colocar o protagonismo estudantil em cena. 

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Fala, garota! Fala, garoto!
Fazer propostas para que os estudantes falem, exponham suas ideias para modificar a comunidade escolar e o entorno é uma das possibilidades para ensiná-los a se tornarem cidadãos críticos, conscientes, autônomos, empreendedores. Mas antes disso é necessário ajudá-los a refletirem sobre o que querem dizer e os motivos de fazê-lo, além de encaminhar a turma para pensar no que cada um tem em mente como resultado e do que ele depende para se tornar realidade. “O estudante quer ser ouvido, e quando isso acontece de forma acolhedora e respeitosa ele sente ser parte de algo maior, o que é excelente. Apesar disso, para fazer parte de verdade, ele também precisa ter senso crítico e entender a dimensão da solução que propõe”, explica Ana Carolina Alecrim, professora-autora de NOVA ESCOLA.  

A classe pode aprender bastante sobre o que é ter voz ativa na escola e se responsabilizar pelo que sugere, quando boas oportunidades são dadas pelos educadores. Foi pensando nisso que Ariane elaborou a sequência didática “Comunicação na escola” (veja o primeiro plano da sequência aqui), para turmas do 6º ao 9º ano. Na proposta, o desafio da turma é criar um meio de comunicação para a escola a fim de promover a circulação de ideias, pensamentos, conhecimentos e pontos de vista. Tudo começa justamente com questionamentos para os estudantes: o que vocês gostariam de comunicar à escola? Como imaginam fazer isso? Quais os modelos possíveis? Tendo essas respostas em mãos, o professor atua como mediador para fazer os alunos entrarem em consenso e ajudar suas ideias se concretizarem. “Quando elaborei a sequência didática, pensei inicialmente em propor a elaboração de um jornal mural e só depois me dei conta de que não cabia a mim delimitar o meio em que a comunicação aconteceria”, pondera Ariane. A criação, partindo do zero e feita coletivamente, é o que torna a produção mais autêntica e faz com que todos os envolvidos se sintam pertencentes e responsáveis pelo processo e pelos resultados. 

Alunos em ação
Na perspectiva da Educação Empreendedora, além de fazer ideias circularem, os alunos têm de ser encaminhados também para ajudar a solucionar problemas da comunidade escolar de forma prática, colocando a mão na massa. “Inclusive, é possível propor um intercâmbio entre os mais velhos e o mais novos: os primeiros usam as pesquisas feitas pelos mais novos para para pensar no que fazer”, sugere Ana Carolina. 

No 6º e 7º anos, eles podem trabalhar com a sequência didática “Curadoria de apps e programas digitais” (veja aqui) para pesquisar sobre as ferramentas disponíveis e a relação delas com a comunidade escolar. Nesse momento, também é possível aproveitar para ouvir as pessoas sobre problemas, desejos e anseios. Já no 8º e 9º anos, as turmas podem partir para a ação, desenvolvendo algo que atenda às demandas, com atividades propostas na sequência didática “Fábrica de apps” (acesse aqui a primeira aula dessa sequência).

Outro modo de fazer valer a ideia de participação ativa dos alunos na solução de problemas é articular o estabelecimento de parcerias entre a turma da sala de aula com a gestão da escola. “Grêmios estudantis, debates com a comunidade escolar e assembleias são ferramentas para a construção do protagonismo estudantil em prol da resolução de questões que impactam a todos”,  diz Fransueli Bahr, professora-autora de NOVA ESCOLA. 

Sonhar para fazer acontecer
Ainda que seja um pouco cedo demais falar com os alunos do 6º e do 7º anos sobre o projeto de vida de cada um (algo a ser trabalhado com ênfase no Ensino Médio), o assunto já pode aparecer aos poucos, de maneira interdisciplinar, apoiado na sexta competência geral da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No livro Pedagogia Empreendedora,  Fernando Dolabela explica que é comum perguntar a crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescer, numa visão de carreira, quando a pergunta deveria ser “qual é o seu sonho?” É com base nas respostas que o projeto de vida de cada um deveria começar a ser desenhado. 

Refletir sobre os sonhos que temos nos torna capazes de desenvolver outros projetos. “Ao pensar nos meus sonhos, tenho de imaginar como alcançá-los e quem pode me ajudar nessa empreitada. No dia a dia, sempre que sonhamos com melhorias e precisamos identificar as oportunidades que a vida nos oferece para obtê-las”, diz Ariane. 

Com os grupos do 8º e do 9º anos, é  possível um vislumbre um pouco mais voltado para a escolha profissional, visto que muitos estudantes terão de decidir em breve se seguirão na escola em que estão ou se mudam para outra que ofereça ensino técnico, por exemplo. “Para tomar uma decisão como essa, é necessário pensar quem sou, o que quero para o futuro e o que tenho de fazer para chegar lá”, comenta Ana Carolina.

Como você pode notar, autoconhecimento é palavra-chave para trabalhar em sala de aula na perspectiva da Educação Empreendedora. “Quando o educador se preocupa em apresentar um universo plural para os estudantes e analisar o que os atrai e o que os faz se dedicar a algo, ajuda cada um deles a identificarem possibilidades, pensarem de maneira ética e ampliarem os horizontes sobre si próprios, sobre os outros e sobre o mundo”, explica Fransueli. Ou seja, contribui para o desenvolvimento integral do cidadão. 

Interrogações contemporâneas
Lidar com dilemas é uma das competências empreendedoras das mais importantes. No dia a dia, volta e meia, nos deparamos com questões complexas e temos de responder sobre elas ou nos prepararmos para sermos impactados por elas de alguma maneira. 

A descriminalização do aborto, por exemplo, que, à primeira vista, pode parecer um tema para discussões teóricas, revela um entrave do mundo contemporâneo, e a gravidez na adolescência é uma realidade entre alunos cada vez mais jovens. Olhar para habilidades propostas pela BNCC é bastante útil para colocar o assunto na mesa e convidar os estudantes a aprenderem mais sobre o assunto e se posicionarem em relação a ele de forma competente e ética: 

(EF08CI08) Analisar e explicar as transformações que ocorrem na puberdade, considerando a atuação dos hormônios sexuais e do sistema nervoso.
(EF08CI09) Comparar o modo de ação e a eficácia dos diversos métodos contraceptivos e justificar a necessidade de compartilhar a responsabilidade na escolha e na utilização do método mais adequado à prevenção da gravidez precoce e indesejada e de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).
(EF08CI11) Selecionar argumentos que evidenciem as múltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética).


“O professor pode apresentar a questão da descriminalização do aborto, disponibilizar materiais para pesquisa e promover uma discussão com base nas habilidades”, sugere Fransueli. Desse modo, os alunos exploram dois objetos do conhecimento (mecanismos reprodutivos e sexualidade), aprendendo com consistência sobre o assunto, reunindo argumentos para falar sobre ele e para se tornarem agentes de mudanças. 

Nessa mesma linha, pode ser interessante também trabalhar com os estudantes os dilemas contemporâneos trazidos pela engenharia genética, como na sequência didática "Nossos dilemas" (veja aqui o primeiro plano da sequência). A proposta é explorar textos argumentativos e discussões coletivas que envolvam a aplicação da engenharia genética em vegetais e humanos, discutir conceitos como as Leis de Mendel e a hereditariedade para posicionar-se em temas contemporâneos.