Como trabalhar com Educação empreendedora no Ensino Fundamental I

Os alunos ainda são pequenos, mas já têm condições de aprender enfrentando desafios, expondo opiniões e tomando decisões com autonomia

POR:
Anna Rachel Ferreira
Ilustração: André Asahida

Ninguém nasce sabendo como ser um cidadão autônomo capaz de comandar a própria vida e ser fator de  mudança na sociedade. Na verdade, isso é algo que leva tempo para acontecer e a escola desempenha um papel essencial para o desenvolvimento de competências e habilidades que favorecem essa construção. O ensino na perspectiva de Educação Empreendedora é a ferramenta para que esse processo comece logo no 1º ano do Ensino Fundamental. “Nessa etapa, podemos explorar com as crianças como desenvolver estratégias para que ideias, sonhos e vontades se tornem realidade considerando as pessoas ao redor”, explica Cibele Kimura, professora-autora de NOVA ESCOLA. 

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A Base Nacional Curricular Comum (BNCC) prevê uma série de competências que são foco da Educação Empreendedora. “Ao analisar cada componente, é possível encontrar a recorrência de habilidades, como trabalho colaborativo e resolução de problemas com benefícios sociais por meio dos recursos disponíveis”, destaca Cíntia Diógenes, também professora-autora de NOVA ESCOLA.

“Para trabalhar com a abordagem da Educação Empreendedora, é preciso focar na intencionalidade, transdisciplinaridade e protagonismo dos alunos, lançando mão de metodologias ativas”, explica o professor Samuel Andrade, especialista em produção e edição de materiais pedagógicos. Em outras palavras, isso quer dizer ter clareza de quais são as competências da Educação Empreendedora e da BNCC que se deseja trabalhar com a proposta escolhida; tratar os temas de maneira integral, sem fazer recortes por disciplina, e permitir que os estudantes sejam o centro de todo o processo, deixando que façam escolhas e encontrem soluções.

Intencionalidade para aprender mais

Evidentemente, alguns temas são mais oportunos do que outros para trabalhar com classes do 1º ao 5º ano. A turma pode aprender muito, por exemplo, quando é desafiada a criar uma estratégia para sensibilizar a família para fazer o descarte correto do lixo produzido em casa. Mas imagine você quanto mais os estudantes vão se desenvolver como cidadãos críticos, conscientes, autônomos e transformadores, se eles forem além. 

Antes de criar a estratégia para conscientizar os pais sobre o tema, eles podem ser encaminhados a pesquisar os preços dos produtos que as famílias mais consomem em casa, pensar quais são realmente essenciais e escolher um deles para estudar a fundo sobre seu ciclo de vida (da fabricação até o descarte). É justamente essa a pegada da Educação Empreendedora: levar as crianças, coletivamente, a mergulharem nos temas de forma intencional, buscando ideias inovadoras e colocando em jogo as reflexões feitas com o propósito de transformar experiência e conhecimento em resultados funcionais. E não simplesmente aprender o que se diz ser politicamente correto e reproduzir essas ideias. 

Na sequência didática, “O Ciclo de um Produto” (veja o primeiro plano da sequência aqui), desenvolvida por Samuel, isso tudo fica bem claro. Ele elegeu alguns aspectos principais para serem explorados por grupos do 3º ao 5º ano: sustentabilidade, contexto de vida, trabalho colaborativo e criatividade, temas presentes na BNCC. A sequência didática segue explorando com as crianças os produtos, da matéria-prima ao descarte, a partir dos componentes curriculares de Geografia, Ciências e Matemática (confira aqui). A proposta é concluída com um plano de aula voltado para a sensibilização do consumo e descarte consciente.

Transdisciplinaridade para aprender melhor

“O cérebro humano é dinâmico e não divide o conhecimento em caixinhas. Colocando em cena várias disciplinas ao mesmo tempo, incentivamos os alunos a lançarem mão de múltiplos conhecimentos e habilidades, tornando-se cada vez mais criativos e inventivos, características muito importantes para a Educação Empreendedora”, defende Cíntia. 

Ao trabalhar com alunos do 3º ao 5º ano sobre o que é ser criança em uma sequência didática, por exemplo, Cíntia explica que é possível fazer um mix interessante de habilidades do componente História com habilidades de Língua Portuguesa. Ela propõe que a turma discuta o que é ser criança com base nas próprias experiências, reconheça os direitos assegurados às crianças e construa um projeto sobre o tema para apresentar na escola, dentre outros objetivos de aprendizagem. O conceito de cidadania, caríssimo à Educação Empreendedora e presente na BNCC na habilidade EF05HI05 (Associar o conceito de cidadania à conquista de direitos dos povos e das sociedades, compreendendo-o como conquista histórica), é colocado em foco e desenvolvido graças a habilidades de Língua Portuguesa,  tais como a EF15LP09 (Expressar-se em situações de intercâmbio oral com clareza, preocupando-se em ser compreendido pelo interlocutor e usando a palavra com tom de voz audível, boa articulação e ritmo adequado). 

Protagonismo para aprender fora da caixa

Embora crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental pareçam ainda muito novas para assumir tomadas de decisão e expor suas opiniões, têm condições para fazer isso - se a elas for ensinado como e permitido que experimentem. Sendo assim, desde cedo, o professor deve permitir que os estudantes sejam protagonistas, empreendedores, ativos. “O educador é um grande mediador do processo e precisa ser flexível perante as escolhas da turma”, explica Samuel.

Para desenvolver essas características nos alunos, é importante abrir espaço em sala para que expressem o que entenderam sobre determinada informação, questionem o que é apresentado, conversem entre si e exponham ideias e dúvidas. Na perspectiva da Educação Empreendedora, é preciso mais do que começar a aula perguntando o que os alunos sabem sobre determinado tema que será estudado a partir de então. Eles têm a dizer muito mais do que isso, invista neles, permita-se ouvi-los e repensar o curso do que foi planejado! 

Na sequência didática, "Fábrica de Objetos Literários" (veja o primeiro plano da sequência aqui), criada por Cibele para turmas de 1º e 2º anos, por exemplo, ao professor é recomendado, desde o início, dar a palavra para a turma. O que os alunos entendem ser um texto? Essa é, de fato, uma pergunta rebuscada, mas ao escutar o que as crianças têm a dizer, é possível ampliar o conceito e entender, sob a ótica infantil, como o mundo dos contos e poemas é encarado por quem ainda está aprendendo a ler e escrever com autonomia. A proposta orienta ainda seguir com mais questões, como, por exemplo, que tipo de texto eles gostam de ler - sempre sem apresentar respostas prontas. “Adequar as propostas à idade da turma, bem como as competências que já desenvolveram e estão desenvolvendo, faz com que os desafios não sejam fáceis ou difíceis e despertem o interesse de todos”, incentiva Samuel.