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Subornar os alunos não pode ser uma opção

Oferecer dinheiro ou presentes não é a melhor saída para fazer com que a turma participe das avaliações ou se empenhe em aprender

POR:
Elisa Meirelles, Marília de Lucca
Suborno. Ilustração: Alice Vasconcellos

Vídeos que mostravam a diretora de um colégio fluminense oferecendo dinheiro para que os alunos participassem de uma avaliação externa caíram na rede no final do ano e levaram à exoneração da educadora. A atitude chamou a atenção por escancarar uma prática extremamente antipedagógica, mas que é recorrente em muitas instituições de ensino: dar prêmios para que os estudantes cumpram suas obrigações ou se dediquem aos estudos.

Quando nos deparamos com um caso como esse, a primeira coisa que devemos nos perguntar é: o que leva uma classe a não querer participar das avaliações? A doutora em psicologia escolar pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luciene Tognetta explica que "em geral, isso acontece quando os alunos não veem que são protagonistas no processo de melhoria da escola". Como estão afastados, não enxergam a prova como algo positivo para eles e só aceitam participar se tiverem algum tipo de vantagem palpável.

Esse sentimento desenvolve nas crianças a heteronomia, que faz com que elas tenham a percepção de que suas ações vêm sempre acompanhadas de algo externo a elas, em forma de ordens, trocas ou subornos. Isso vai contra o projeto político-pedagógico (PPP) da maioria das escolas, que prega o auxílio na formação de estudantes e cidadãos autônomos e conscientes das consequências de seus atos dentro da sociedade. "Quais os valores da escola?" questiona Maura Barbosa, consultora da revista GESTÃO ESCOLAR, e complementa, "as crianças precisam ser incentivadas pelo prazer de conhecer, saber que o estudo nos dá possibilidades e nos prepara para o mundo".

Ao oferecer prêmios, recompensas ou castigos, passamos a mensagem de que o mundo é um grande "toma lá, dá cá", em que o valor das ações é medido pelo quanto ganhamos ao final delas, não pelo quanto crescemos como pessoas ou ajudamos a comunidade por meio de delas. Ao associar o aprendizado a recompensas materiais, tira-se da criança a possibilidade de aprender e de saber o quanto ela é construtora do ambiente que se insere.

Para que a escola não chegue a situações extremas, em que a turma é tomada pelo desinteresse, é preciso rever o PPP e organizar o planejamento de modo que conte com propostas e medidas que incluam os alunos e a comunidade nas discussões sobre o valor do aprendizado. "A escola precisa conhecer a comunidade. Saber se a maioria dos pais estudou ou não, qual a contribuição do estudo para a vida deles. Para que cada um valorize a Educação, é preciso repensar a reunião de pais, a dos funcionários, as metas da escola, a formação dos professores. Tudo tem de ser compartilhado com todo mundo", recomenda Maura.

Atividades fora da sala de aula são muito importantes para que as crianças compreendam o ambiente escolar como um lugar de prazer e desenvolvam um elo de cumplicidade com ele. Feiras de Ciência, Olimpíadas, saídas guiadas para locais culturais e o incentivo a trabalhos voluntários elevam a escola do patamar de um lugar só de obrigações ao de um local rico culturalmente. 

Quando há esse laço, "é mais provável que as crianças desejem participar de avaliações. E desejar não é gostar de fazer prova, mas perceber que, mesmo se não tiverem vontade, a escola, que os ajuda tanto, merece que façam sua parte", esclarece Luciene. A especialista acredita que, neste estágio, a preocupação das pessoas passa do bem adquirido individualmente para consequências coletivas das escolhas de cada um. E isso é um dos mais importantes valores para se criar uma sociedade colaborativa, e não individualista.

Que tipo de cidadãos as escolas querem formar? Aqueles que cedem a injustiças e "jeitinhos", desde que tenham algum benefício próprio. Ou aqueles que valorizam a honestidade e o bem comum como os maiores prêmios que se pode receber? A resposta a essas perguntas passa diretamente pelo modo como ensinamos nossos pequenos a agir no dia a dia.

 

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